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Full text of "O estudante de Coimbra, ou: Relampago da histoia portugueza, desde 1826 até 1838"

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DESDE 1826 ATE 1838. 

PELO 



TOMO I. 




LISBOA, 



TVPOtiKAPHIA DE ANTÓNIO JOSÉ DA ROCHA, 
AOS MARTYUES, N.° 13, 

1840. 



I 



ADVERTÊNCIA AO PUBLICO. 



X^ em pertendo escrever a minha vi- 
da, nem destino a minha vida a escre- 
ver obras de litleratura; pôde ser que 
por esta somente , muita gente me 
censure clamando que dou as horas 
ás bellas letras , em vez de as appli- 
car aos doentes: fallai, fallai, Senho- 
res , se a vibora do maldizer vos trin- 
car o peito •, para mim tenho por me- 
lhor passar assim os momentos vagos 
do que nos cafés , nos bilhares , ou 
nas Praças públicas sem proveito al- 
gum próprio , ou estranho ; se por 
acaso proferir verdades , consolai-vos 
com a certeza de que não quero offen- 
der pessoa alguma; he meu fim prin- 
cipal combinar o nosso resumo histó- 
rico destes últimos annos com taes 
factos imaginários, e recreativos, que 
menos se cansem os leitores , e maior 
curiosidade possão ter aquelles , para 
quem a leitura de um livro hemil ve- 
zes mais enfadonha , do que o rufo 
continuado da peneira do meu visinho 
padeiro. Bem certo estou de que ai- 



ADVERTÊNCIA AO PUBLICO. 

guem por demasiada philantropia se 
magoará , por que me dou a escrevei 
este Livro , quando me deveria dai 
ex-ofjicio à Sciencia da Observação 
mas responderei (se he que devo res 
ponder); que nada tem uma cousa con 
outra , nem me envergonho de es 
creverum Romance, quando Voltaire, 
Fenelon , Marmontel , Walter-Scott, 
e muitos outros homens milhões de 
vezes mais respeitáveis do que eu, se 
não envergonharam de o fazer: mes- 
mo em nosso paiz tivemos , e temos 
ainda hoje patricios , meus collegas , 
de abalizados conhecimentos , que 
se deram e vão dando á litteratura, 
e com especialidade á Poesia. 

Animo pois , meus desejos ; ver- 
dade , imparcialidade , e exactidão 
para o senhor Estudante ; humanida- 
de , estudo , cautela , franqueza , e 
desinteresse para os meus doentes; 
respeito, e consideração para o Publi- 
co; amizade para todos , e para a sa- 
tyra mordaz total desprezo . . . Taes 
são os sentimentos do Auctor, 



AO MEU AMIGO 



^S^^n/o^n-eo- KJ^eúc/a^Cí c^ ^^a^í/tt 



SINCERO TESTEMUNHO d'aMIZADE... 

Meu Castilho, isto agora é em segredo, 
Pondo teu nome aqui, não tenho medo, 
De me sumir no pó da Eternidade. 



O Author» 



o ESTUDANTE 



DS 



COIMBRA. 



CAPITULO I. 

INTRODUCÇÃO. 



asei no Algarve, donde se vê que 
devo ser grulha, e fallador : isto po- 
nho eu já aqui para que os leitores 
saibam com quem se mettem , e de- 
pois se não queixem das digressões, 
e moralidades a que sou sugeito , e 
de que por mais que faça nunca pos- 
so mondar de todo o que escrevo; sou 
pois Algarvio, isto é filho lá das ter- 



10 o ESTUDANTE 

ras que estão mais ao Sul de Portu- 
gal, formando certa Província com a 
alcunha de Reino, que pela natureza 
do seu clima poderia produzir muitos 
géneros de ambas as índias, se bem 
governados tivéssemos tido a ventu- 
ra dever prosperar a nossa industria, 
e se o ouro do Brazil nos não tivesse 
mettido nos ossos a mania de ser ri- 
cos sem trabalhar , assimilhando-nos 
aos campos sem cultura aonde só me- 
dram plantas estéreis. 

Não direi por que razão meus 
Pais me acarretaram para este mundo 
<iefurtacôres; essas razões elles lá as 
sabiam, se é que as sabiam; somen- 
te aíiirmarei , que no meio de uma 
decente independência, não tinham 
pergaminhos de fidalguia , mas só 
aquelles apreciáveis attributos que 
deveriam sempre orna-la : se se pro^ 
porcionassem os tractamentos pelas 
qualidades, Ex.^ , ou Alteza podiam 
elles ter por suas virtudes: o reciproco 
amor conjugal Ihessuppria a felicida- 
de , e o trato , criação , e bom ensi- 
no de seus filhos , lhes não deixavam 



.9: 

DE COIMBRA. 11 

nenhumas invejas aos divertimentos 
mais caros, menos sãos, e muito me- 
nos apraziveis , dos partidários das 
Assembléas , e Theatros. 

Passaram-se os meus primeiros 
dias entre brincos innocentes mui lou- 
váveis; mamando e aturdindo os ou- 
vidos de quem me cercava , e que- 
brando e mordendo quanto me cahia 
a talho de fouce; até que tendo qua- 
tro annos e vindo meus Pais para 
Lisboa, comecei a receber os primei- 
ros rudimentos iitterarios em casa de 
certa mestra de meninas . . . terrivel 
contratempo que me tornou para to- 
da a vida sensível aos attractivos do 
bello sexo. Diz a tradição que dei 
muitas provas de talento, e que prome- 
ti vir a ser grande , mas qual endro- 
mina podéra indubitavelmente cres- 
cer mais, se tivesse razão para cres- 
cer menos. . . 

De quanto pode tornar o homem 
interessante no meio da sociedade , 
nada se poupou até passarem meus 
dous primeiros lustros: fizeram-me ler, 



Í3K o ESTUDANTE 

escrever , cuntar , grammaticar , de- 
senhar, cantar, contradançar e pas- 
sear pelo mundo, por cima de um ca- 
runchoso Atlas que o senhor mestre 
comprara na Feira • e apresentaram- 
me por fim a certo — /2es, Rei — para 
me ensinar Latim em um collegio par- 
ticular, e muito particular, porque sa- 
hi de lá sabendo menos do que sabia 
quando para lá entrei. 

Ora aqui me tendes, meus Lei- 
tores , ás tainas com o Latim , e por 
que motivo ? ! ! porque sem dous de- 
dos de Latim ninguém pôde ser Dou- 
tor! . . mas eu que sempre tive me- 
do de defuntos, como poderia haver- 
me com atai lingua morta ; ia indo á 
garra de tal sorte, que fui immedia- 
tamente recambiado das particulari- 
dades do dito collegio, para as gene- 
ralidades de certa Aula Regia , cujo 
Professor entrou desde logo a ser co- 
piosamente mimoseado por meu Pai, 
com figos e alfarrobas indigenas para 
também eu d'esde logo ser promovi- 
do a decurião, sem saber de que gé- 
nero era — hora^ horce — ficando mi- 



DE COtMBRA. 13 

ilhas mãos privilegiadas contra a mi- 
lagrosa Santa dos cinco olhos , e en- 
golindo o marido de minha Mâi a 
ejnormissima carocha de que eu sabia 
JLatim como um papagaio , quando 
posso asseverar, despindo-me de todo 
o amor próprio , que nem como um 
papagaio diria duas palavras de mo- 
do que parecessem Latinas ! I ! 

Mas clamava minha avó que a ver- 
dade é como o azeite que anda sem- 
pre por cima da agua ; e minha avó 
se não tinha dentes , tinha juizo : a 
verdade appareceu, porque fui fazer 
exame aos Torneiros e tornei de Lá 
reprovado in totum . . . não sei se jus- 
ta ou injustamente, porque fallei pe- 
los cotovêllos. 

E' fraqueza mui commum entre 
os Pais acreditarem sempre o melhor 
acerca de seus filhos, é este um des- 
conto que se lhes não deve levar a 
mal , posto que muitas vezes traga 
terriveis consequências ; meu Pai foi 
como os outros , mas deve-se confes- 
sar que meu Professor teve toda a 



)4 O ESTUDANTE 

culpa ilIudindo-0 ; tanto que o obri- 
gou amandar-me ensinar Lógica par- 
ticularmente, asseverando-lhe que eu 
mui prompto estava no Latim. 

Fui conseguintemente para a Ló- 
gica , e desde então , dizendo a ver- 
dade; comecei ater juizo, e a ser bom 
Estudante, graças ao Professor que 
me dirigiu ; porem tinha dezesete an- 
nos e era tempo de partir para Coim- 
bra . . . Oli! já nós lá vamos! e que re- 
médio ha contra a força do destino?... 
mas antes de me despedir de Lis- 
boa permitta.-se-me que usando da vé- 
nia já pedida, e concedida no prin- 
cipio d'este capitulo, faça algumas 
reflexões acerca da nossa educação 
nos primeiros annos; são cousas que 
se não aproveitarem , também não 
prejudicam ; são verdades fructo da 
minha experiência n'aquelle tempo, 
e da minha reflexão nos annos que se 
seguiram ; como taes as dou, se mas 
aceitarem , farão bem ; . se m'as des- 
prezam ficaremos como d'antes : é 
mais um sermão pregado aos here- 
ges. 



DE COIMBRA. 15 

Em quanto pequenos, sao os me- 
ainos acompanhados geralmente por 
criados , e deste costume resultam 
quasi sempre graves inconvenientes: 
quem trabalha muitas horas a troco 
de pequena quantia, com pouco se con- 
tenta quando lhe não custa a ganhar, 
e seduzido ás vezes por alguns vin- 
téns , que o menino tenha para com- 
prar confeitos , o deixa fazer toda a 
sorte de diabruras prejudiciaes á sua 
saúde ; ou em vez de o conduzir pa- 
ra o Collegio , o vai levar (como co- 
nheci alguns) para casa de pessoas 
de seu conhecimento até que sejam 
horas de o ir outra vez buscar: o me- 
nino lisonjêa-se por este meio; mas 
a sua moral se deteriora , por que se 
encaminha a ser enganador, illudin- 
do a seus pais , lida com gente mal 
educada , aprende o que não deveria 
aprender , deixa de saber o que de- 
vera , e se habitua a uma vida des- 
ordenada e criminosa. Reflecti , ca- 
rinhosos Pais , nestas palavras, lem- 
brai-vos que vossos filhos não vieram 
sem razão a este mundo , que essas 
innocentes creaturas vos não encom- 



16 o ESTUDANTE 

mendaram o sermão , e que o vosso 
restricto dever, é vigiar seus primei- 
ros passos , dos quaes depende prin- 
cipaltnente a estrada que trilharão 
na vida; não os confieis a cuidados 
de indiferentes , acompanhai as suas 
menores acções e movimentos , e se 
quereis que vão á Escola , levai-os 
vós mesmo : mas supponhamos que 
o menino vai na realidade para a Au- 
la; acreditais que lá vai aprender al- 
guma cousa ? 

Começa por achar d'ordinaTÍo 
um mestre inhabil , ou professando 
por oíRcio, farto de aturar rapazes e 
rapaziadas . . . Recommendai-lhe vos- 
sos filhos por meio de presentes , fa- 
reis que feche os olhos ans seus defei- 
tos em vez de os castigar . . . Não os 
gratifiqueis por modo algum , e vos- 
sos filhos jazerão no esquecimento, 
brincarão com os outros rapazes , 
entrarão em intimidade com elles , 
ganharão seus vicios , arruinarão a 
saúde, e tornar-se-hão pezados a si 
mesmos , e nuUos á Sociedade : po- 
rém , me direis vós agora — Que po- 



DE COIMBRA. 17 

deremos fazer para evitar similhan- 
tes males ? — Instrui-los por vós mes- 
mos, ou por outrem debaixo dos vos- 
sos olhos , e á sombra, do paternal 
imor, desse interesse desinteressado, 
que a natureza vos imprimiu dentro 
i'alma. 

São theorias , exclamareis sem 
dúvida ; mas eu vou apresentar-vos 
factos: havia nesta capital certo Col- 
legio, que frequentei nos meus pri- 
meiros annos, (depois que as mestras 
de meninas principiaram a conhecer 
que eu era menino, e que, por escrúpu- 
lo de consciência me deram passapor- 
te) ; nelle se ensinava quanto pôde 
tornar o homem estimável no mundo, 
com a pequena diminuição que sahia 
de lá osemi-homem, não sabendo na- 
da mais que dançar a gavota , e re- 
zar o padre nosso. 

De tempos a tempos havia cer- 
to Exame , no qual os Alumnos bri- 
lhavam , hem como Pirilampos , diante 
de grande numero de espectadores, 
e das suas famílias , que se lisongea- 



18 o ESTUDANTE 

vam com isto , acreditando os seus 
meninos uns portentos . . . pobres bas- 
baques i . , quereis que vos diga em 
bom Portuguez a maior de todas as 
verdades ? . . Vossos filhos eram uns 
quadrúpedes . . . Quereis saber por 
que modo se fazia tão apparatoso mi- 
lagre ? . . : Três mezes antes da pan- 
tomima começavam os ensaios: man- 
dava o Professor de Escrita ir os dis- 
cipulos a casa , onde os fazia escre- 
ver com tinta de Nankin ; ensinava 
o de Leitura a cada um d'elles cer- 
to numero de linhas lidas com toda 
a emphase , pontos e virgulas ; cor- 
rigia o Mestre de Desenho os dese- 
nhos ; mas a sua correcção consistia 
em faze-los quasi de novo : eis a ma- 
neira de illudir os Pais , de lhes rou- 
bar o dinheiro ^ e de ficarem os filhos 
jazendo na ignorância; e quando che- 
guem a aprender, acreditais vós que 
seja a historia Pátria , ou Sagrada, 
ou Litteratura , ou qualquer outra 
cousa ? . . E' o Tesouro de meninos, 
cuja traduccão mette nojo ao Portu- 
guez mais afrancezado ... ah I . . . 
meus leitores, lembrai-vos. . . Alto... 



DE COIMBRA. 19 

aUo ... Sr. Estudante : sua mercê já 
vai abusando! . . faça reflexões mas cur^ 
tas , que o tempo hoje é preciso para 
muita cousa, e principalmente nào as 
faça d'essas sobre criação de rapa- 
zes , em' que se tem escripto tudo o 
que se podia escrever, e muito mais: 
é verdade que sua mercê está no seu 
direito d'Algarvio que é imbutir a 
fructa passada quando lhe falta a no- 
va ; porém use , e não abuse, porque 
todo o poder das pragas do seu povo 
não o livraria d'uma desattenção dos 
leitores , que põem muito menos dú- 
vida em largar um livro do que em 
lhe pegar... sempre agradecido pelo 
conselho; pois então entaipo já aqui 
o capitulo , e Deos adiante , por não 
rogar pragas em letra redonda , sem 
mais perorações , nem preâmbulos , 
arremeço-me de mergulho ao segun- 
do .. . muito boa noite . . . 



âO o ESTUDANTE 



«MiM«WM«MM(M«M*M«VMWMlMIMn/«W\A«IM«t«M«M««A.«MnWM«AIMIM*A 



CAPITULO n. 



o CALOIRO 



inha dezesete annos ; não era al- 
to nem baixo ; gordo , nem magro; 
pensava pouco, sentia muito, e ima- 
ginava muito mais , quando no dia 
S4 de Setembro de J8S5 me dizia 
uma criada velha , que me dera de 
mamar em uma rolha « Menino levan- 
te-se que são horas de partir » 

Erão quatro da manhã, levantei- 
me, despedi-me dafamilia ao som de 
sentimental lamuria , disse adeos aos 
criados que soluçavam , e queriam 
chorar sem poder ; e montando no 
competente macho do Arrieiro, que 
me esperava impacientemente, parti 
dos lares paternos aos entoados sons 
de — arre macho — arre castanho , 
que me traspassavam o coração, afas- 
tando-me de casa. 



DE COIMBRA. 21 

Passados três quartos d'hora , 
em acontecimento notável , mais do 
[ue uma pequena cambalhota , que 
[ei por cima da cabeça do meu va- 
ente Rocinante , que segundo pare- 
;e , se ia abaixo das mãos sem a mi- 
jiima ceremonia ; cheguei ao cruzei- 
ro de Arroios e fui saudado apenas 
appareci^ por uma espécie de alga- 
zarra de bravos e palmas , com que 
me obsequiaram umas doze caranto- 
nhas desusadas que eram d' Estudan- 
tes, que deviam levar-me de conser- 
va até Coimbra para me envinagra- 
rem a paciência : depois fui manda- 
do apear e recitar em alto e bom som 
a Oração dos Caloiros , que um dos 
taes amigos me foi dictan4o, e que, 
se bem me lembro , não tinha graça 
nenhuma ; e finalmente servi a um 
apertando-lhe as esporas , a outro 
limpando-lhe o pó das botas , a ou- 
tro segurando-lhe os estribos para 
montar a cavallo , e a todos represen- 
tando o meu papel de tolo mui sof- 
frivelmente . . . Taes costumam ser os 
destinos dos miseros Caloiros ! . . 



g» o ESTUDANTE 

Um sinal de trombeta que saiu 
do meio da turba farisaica foi o avi- 
so da partida e não me considerando 
menos do que os outros , corri para 
montar a cavallo , quando senti um 
braço robusto ag*arrar-me na perna, 
e uma voz imperiosa dizer-me « A 
pé , a pé , meu senhor , é a pé que 
vão os caloiros para Coimbra . . . Ora 
essa havia de ter graça , lhe tornei 
eu , meio enxofrado , como se meu 
Pai não tivesse pago a cavalgadura..» 
Nada de réplicas , me tornou então 
o Mandarin , abrindo uns olhos de 
três polegadas, aliás fica feito em pos- 
tas , e foi puxando por uma treme- 
bunda juliana que trazia ao lado, de- 
liberação esta que me tornou manso 
como um cordeiro , vendo que não li- 
dava já com pessoas que me satisfa- 
ziam em todas as minhas vontades, 
e que receosas de me causar o mini- 
mo dissabor , fechavam os olhos aos 
meus caprichos. Tive , por casti- 
go , de andar a pé um bom quarto 
de légua , e só montei a cavallo de- 
pois de ter beijado mui submisso o 
canhão da bota do tal senhor. 



DE COIMBRA. S3 

legámos a Villa-franca eram 
l ( as da manhã, e tratou-se do 
yo: eu tinha maior vontade de 
1 que de comer, e mais sabo- 
im instante só na companhia 
í3iiS Pais do que todas as deli- 
e prazeres do mundo ; os meus 
íjpanheiros riam á minha custa, 
esperando pelo chocolate, e bem longe 
estava a minha alma da imtempesti- 
va caçoada que me faziam ; mas che- 
gou o almoço e ninguém mais tratou 
senão de comer , excepto eu que me 
sentia opprimido; e que fui obrigado 
a servi-los de pé em quanto comeram. 
Continuámos a nossa jornada , 
sem que deixassem os meus compa- 
nheiros por um só instante de grace- 
jar comigo , e fomos nesse dia jantar 
aVallada , sem que nos houvesse oc- 
corrido cousa alguma notável duran- 
te o caminho : os Srs. meus Condu- 
ctores haviam-me decididamente to- 
mado á sua conta , e pouco attencio- 
sos para com minhas angustias, eessa 
dor inexplicável daquelle que pela 
primeira vez se afasta dos braços de 
uma familia extremosa , me ataram 



g4 O ESTUDANTE 

uma corda á roda da cintura J 
som de estrondosas gargalhadf 
fizeram andar aos saltos pelo n 
casa , chamando a meus elej^ 
pinotes — A Dança do Urso, — ^ 

Trouxeram neste meio tem[ 
jantar , e a minha posição tomou ui 
caracter serio : teria eu comido ape- 
nas três ou quatro colheres de sopa, 
quando me sobrevieram vómitos ter- 
riveis, e uma febre violenta ; os meus 
companheiros mais sensíveis me so- 
correram então amigavelmente, mais 
sensiveis digo eu ? quem o sabe 1\ . . 
quantas vezes se não faz no mundo 
por especulação ou receio o que to- 
mamos por bondade , e quanto orgu- 
lho e amor próprio se não cobre de- 
baixo da capa da Philantropia i ! I mas 
fosse qual fosse o motivo , o certo é 
que não tornei a ter ra^ão de queixa 
g dos Srs. Académicos , que desde en- 
tão me trataram aíTectuosamente. 

Continuámos a nossa jornada pe- 
la estrada velha , e posto que dese- 
jasse referir o que vi , nada poderia 



DE COIMBRA. 25 

exactamente , pois a doença , a 
íza, e o cançaço me incciínio- 
\m a pcnto de não vêr quanto me 
fava : só me len bio do n cdo qiie 
passando pelas campinas daCoi- 
por causa das manadas de tcu- 
!, entre os quaes Lavia um que ti- 
"nlia já quatorze mortes. 

Chegámos em fim a Coimíbra, em 
um dia sombrio , chuvoso e próprio 
para augmentar a minha tristeza. Lm 
violento, e verdadeiro ataque de Nos- 
talgia , ou dessa moléstia causada 
pela saudade dos lugares da nossa in- 
fância me devorava ; via-me longe 
dos carinhos maternos , só por assim 
dizer , no mundo , porque o mundo 
me era desconhecido, sepultado n'um 
pequeno quarto daestabgcm do Paço 
do Conde consumido de tristeza, de 
febre , e de desesperação, aborrecen- 
do tudo , e a mesma vida , a ponto 
de projectar privar- m.e delia : quan- 
tas vezes penetrado d'um sentimento 
inexplicável , nâo peguei naquelles 
objectos que tinha vestido ainda em 
casa , e os não cobri de beijos , e de 

TOMO I. 2 



f6 o ESTUDANTE 

lagrimas ! . . que impressão m 
causava abrindo o meu bal.-.x 
tudo dispoto conforme o havia 
Mãi arranjado, e quanto teiTip."? 
vacillava eu antes de mexer e,n 'i \ 
quer cousa , dizendo « Possa . 
ao menos das tuas obras , minh - 
Mãi, já que o destino me privou do 
teus carinhos , possa de longe , por 
tuas obras , adorar- te como todos os 
mortaes adoram o Creador . , . » e re- 
bentava n'uma torrente de lagrimas. 

O meu estado em vez de melho- 
rar se ag gravava diariamente , e re- 
solvi dizer a verdade a meu Pai , pa- 
ra ver se me tirava quanto antes de 
tão horríveis padecimentos; fazendo- 
me regressar a Lisboa : meu Pai se 
apressou a responder-me com uma 
carta exemplar d'amor paterno , de 
prudência, edaquellas assisadas idéas * 
que eu mui bem comprehendia , por 
lhas haver escutado desde o berço : 
aconselhava-me todos os meios licitos 
de distracção , confortava por meio 
de risonhas esperanças , o meu espi- 
to abatido , insistia no jubilo que de- 



DE COIMBRA. 27 

ir-lhe a minha graduação scien- 
á sombra daqual sealimenlaria 
a consolação dos seus cança- 
mcs , relatava-me alguns dos 
íiros incommcdos da sua vida^ 
)r íal modo me convenceram seus 
('ernaes conselhcs , que (ratei de 
^sistir aos rigores da minha saudade,, 
vencer a minha repugnância em dis- 
trahir-me; comecei a sahir, a ver a 
cidade , e os seus agradáveis subúr- 
bios. 

Corri as apraziveis margens do 
Mondego, e o passeio do lado 8ep- 
tenlrional , denominado Encanamen- 
to aonde por lodos os lados se ri a na- 
tureza, e as Musas e o Amor se es- 
condem para surprehender o contem- 
plador solitário ; quando me vieram 
na mente ferver estes versos : [«] 



[*] "Não dou larga descripção acerca de 
Coimbra , e de seus subúrbios , por se ha- 
verem já publicado a esse respeito vários 
escriptos, entre elles o intitulado — belle- 

ZAS DE COIMBTIA. • 

2 * 



28 o ESTUDANTE 

Oh ! producções do S . 
Oh! quadros da Nature 
Quanto forte é o poder • 
N'alma escrava da tris^';:.',í 

N'alma que por seus tormei; 
Enfraquecida a razão 
Colora seus pensamentos , 
Segundo sua paixão. 

N'alma que buscando asylo , 
No recôndito socego , 
Vem da paz achar o gozo , 
Nas tuas margens , Mondego. 

Fui ao Penedo da Saudade , aon- 
de se diz que a formosa D. Ignez de 
Castro hia chorar a ausência de seu 
D. Pedro, e á Fonte das Lagrimas, 
testemunha de seus amores: esta fon- 
te está situada nas fraldas d'uma col- 
lina ao Sul de Coimbra, e algum tan- 
to para o Nascente , três annosos Ce- 
dros a cobrem com a sua immurcha- 
vel rama, e por baixo delles se acham 
esculpidos em fria lage estes versos 
do Principe dosPoetas, que um estran- 



DE COIMBRA. 

' /eve a lembrança de mandar 



lS filhas do Mondego a morte escura 
)ngo tempo chorando memoraram, 
poil memoria eterna, em fonte pura 
As lagrimas choradas transformaram; 
O nome lhe puzeram , que inda dura. 
Dos amores d'lnez que alli passaram^ 
Vede que fresca fonte rega as flores , 
Que lagrimas são agua, e o nome Amores. 

Mas o grande Poeta, cujo nome 
será eterno , ccmo o seu amor á pá- 
tria [*] devera ter accrescentado, fal- 
lando da fçnte dos Amcres; qve fo- 
ram , as lagrimas das filhas do Kcn- 
dego, que lhe deram nascente, e que 
são as dos visitadores, que ccnseivíim 
o curso de suas aguas ; e que aln.a 
haverá tâo indifíerente , e insensível 
que recordando-se da bella , (erna e 
desventurada D. Ignez de Castro, 
deixe naquelle sitio por si mesmo me- 
lancólico , de tributar algumas lagri- 
mas á sua interessante memoria ] ., 

> (? 

[*]] Vereis amor da Pátria não movido 
De premio vil,mas alto, e quasi eterno. 



30 o ESTUDANTE 

Ouando o homem contem. 
os lugares que despertam r* . 
sublimes, envolvidas na noii 
culos é que o seu pensamento se © 
va a sentimentos celesíes ; conté^ 
plandoaquellesannosos cedros, aqueh 
ies taciturnos penedos, o silencio e a 
iiiagestade daquelles lugares , cuida- 
se estar ouvindo estas vozes: — Quan^ 
to nâo foi aqui ditosa a cândida Ignez, 
reclinada nos braços d'um consorte 
extremoso! Quantas vezes não teriam 
seus innocentes filhos vacillarites ain- 
da proferido o doce nome de IVIài , 
como único premio de seus carinhos!.. 
Quantas vezes se não teriam seus 
cristallinos olhos levantado para o céo 
piedoso , e cobertos das lagririias da 
ternura, baixado sobre aquelles An- 
jos de paz nas azas d'um profundo 
suspiro , que dois pequeninos lábios 
vinham suffocar 1 . . . Mas ah ! quan- 
to não foi desventurada ! . . . . O 
amor a levou ao extasi da ventura, 
ò amor a collncou entre as boas espo- 
sas , e carinhosas mais ; mas o amor 
também a perdeu pelas mãos do orgu- 
lho , da calumnia , da soberba , e dâ 



DE COIMBRA. 31 

LÍica perversidade ! . . . E ha- 
lem possa atíribuir os seusdes- 
a Agentes imaginários ! . . Se D. 
z pezasse bem o objecto dos seus 
)S antes de se ligar aelles, menos 
^ia que sentir tendc-o evitado; não 
'íonlaria cem prazeres estáveis n'um 
mundo variável, nem tomaria por se- 
renos dias CS que se passam no n.eio 
das vagas agitadas da vida: as nessas 
paixões são a causa de tcdcs es nos- 
sos males e rarissimas vezes d'algum 
bem , que se por ventura existe , é 
divida contrahida cem p infortúnio, 
que será paga cem usura : se al- 
guém se juder conhecer a si mes- 
mo, e a tudo que o redêa, j ara esco- 
lher sem risco entre es nrales, e os 
bens prcfuzannente cspaU.ídcs pela 
terra , esse poderá sem dúvida sei me- 
nos desgraçado. — - 

A' medida que eu visitava es- 
tes , e muitcs outros lugares, a nii- 
nha imaginação se entregava a va- 
riadas reflexões , d'aquellas cem que 
se allivixi o coração do pezo da sau- 
dade: continuei a correr Ceij^, Saft- 



( 



33 o ESTUDANTE 

to António dos Olivaes , Q5\ 
e a rica e vastíssima quint ?>■'-' 
des Cruzios , que servia de -;. ' 
pequeno numero de santas , *- <orí^ 
gens , quando poderia matar . rc \ 
a todos os indigentes da cid Ae , k. 
uma administração cuidadosa quizos^^^ 
se proficuamente applicar seus r^^.xdi 
mentos justificando só assim a delibe- 
ração arbitraria de desalojar seus le- 
gítimos possuidores , mesmo ainda 
reduzindo-os a mendigar o pão ; mas 
acredito por certo que o mais forte 
seria sempre quem lucraria mais, ain- 
da que milhões d'individuos pereces- 
sem de fome. 

Nestes passeios se foram passan- 
do vários dias, e devendo começar a 
occupar-me das obrigações, a que me 
havia proposto fui ter com um dos 
meus companheiros de jornada, que 
se tinha oíferecido para meu vetera- 
no, pedi-lhe me encaminhasse, e vi- 
Yessemos juntos , vesti batina , com- 
prei a minha mobilia, que se reduziu 
a uma barra, um colchão, uma cadei- 
ra , umÀ banca de pinho , e uma es- 



' DE COIMBRA. 35 

livros , encarreguei a sua 
íervente [»] dos arranjos do- 
íos, e fui pelo meu companhei- 
fcaminhado para o Collegio das 
, a fazer os exames denomina- 
lo pateo , sem os quaes ninguém 
^ í, excepto como Ouvinte , matri- 
cular-se na Universidade. 

O primeiro exame que devia fa- 
zer era o de Latim , e que resulta- 
do poderia eu esperar ? . . . . Não 
fui reprovado como em Lisboa , se 
bem que nunca tanto o mereci; mas 
fui prevenido pelos meus Examina- 
dores, que se compadeceram de mim, 
que me aconteceria indubitavelmente 
esse desastre se o continuasse até ao 
íim , o que me obrigou a retirar-me , 
com o dissabor de achar esse tropeço 
no principio da minha carreira, e sem 
animo de participar a meus Pais o 
que se acabava de passar: forçoso foi 
dizer-lho no entanto, e pela minha 

[*] Mulheres velhas que servem aos Es- 
tudantes , ás quaes costumam dar de 480, 
a 600 reis por mez. 



34 O tí^TÚDANTí 

páHé segui o conselho ti 
rario — Applicai-vos serian 
tim durante este anno , ai 
hei com algumas lições, ou r 
Ihor dizer, ensinar- vos-hei a e 
pois falta-vos methodo: seguirt 
outro lado como ouvinte o pr.- 
anno Mathematico , e podereis a. 
para o que vem começar a vossa car- 
reira sem obstáculo , e vence-la com 
a maior facilidade. 

Segui o seu mui razoável conse- 
lho, fui na sua companhia á Univer- 
sidade , e paguei segundo o estylo a 
minha patente , que consistiu em 
lauto jantar dado na estalagem do 
Paço do Conde a seis Estudantes , 
que se fartaram de óptimos petiscos 
á minha custa. 



/ 



DE COIMBRA. 3^ 



; 



ívwivtmwivyitk ^ iikmuvM v ^mww^^i\v^niviMit^ni\MnwMWMMi 



CAPITULO m. 



o NOVATO. 



cabavamos de entrar em Novem- 
bro , a Natureza se entristecia , as 
arvores que derramavam a sua som- 
bra sobre as apraziveis margens do 
Mondego, já tinham perdido as foJhas, 
e se uma, ou outra ainda restava, 
era qual naufraganíe no meio da im- 
mensidade , sem esperança alguma 
de salvação : os raios do sol já nãa 
podiam aquecer os cançados mem- 
bros do velho lavrador, que tremia na 
choupana, em quanto o homem abas- 
tado procurava franca passagem a, 
desvairados desperdícios ; dias pela 
maior parte escuros , e nevoados ,, 
noites húmidas e frias, tornavam me-, 
lancolica a Cidade de Coimbra, dig- 
na então d^ gieus habitantes peiores.. 



»^': o ESTUDANTE 

do que os da Laponia , ou da 
ria , inimigos por especulaçâ» » ^ 
por costume de conviver com os Vç 
demicos, rústicos na quinta esse ; 
que fechavam as portas ao anvji 
cer , e calafetavam as janellas p<íi 
receio de vêr entrar por alguma gfe- 
ta os batinistas fradescos , os aben- 
tesmas negras mais capazes com o 
seu vestuário de afugentar o pai de 
Satanaz do que próprios a atrahir as 
sympathias d'uma satanazada mu- 
lher. 

Mas se por um lado na Cidade 
dominava a tristeza , e se os passeios 
mais agradáveis estavam encharcados 
com as chêas do Mondego , não dei- 
xava um só instante a fecunda imagi- 
nação da mocidade , e o espirito de 
monopólio d'alguns dignos Cidadãos 
de fornecer muitos meios de distrac- 
ção não só para o maior numero , co- 
mo também para muitos daqueíles 
que envidraçados com óculos verdes, 
entabacados com meio grosso, e ador- 
nados com pittoresco camafeu , se 
queriam inculcar pelo non phts iiUra^ 



DE COrMBRAi 3:7" 

^3llcia: muitos destes conheço eu 
* hoje, que guardando suas pro- 
' iS meditações na caixa do taba- 
,. >ara se nào corromperem, davam 
.! sigo no célebre bilhar da rua do 
^.Vuxe , faziam gyrar as bolas horas 
* e horas, sonhavam em bolas, anda- 
vam em bolandas todo o anno , e que 
embolavam desapiedadamente as suas 
familias , sem que perdessem por fi- 
car reduzidos a bolas, porque o aca- 
so as lançou n'um plano inclinado, 
que as tem levado mais longe do que 
o seu mal buliçoso talento lhes havia 
promettido: outros que passavam dia 
e noite em certa cafurna próxima ao 
Arco d'Almedina entregando escru- 
pulosamente as suas mesadas a certo 
Boticário benemérito , que receoso 
de vêr mal empregado esse dinheiro, 
causa de tantas fraquezas humanas, 
dos grandes, e dos pequenos, lhes fa- 
zia certa innocente banquinha de car- 
ias com a qual os reduzia á expres- 
são mais simples, sem que por isso 
deixasse de lhes mostrar a sua ge- 
nerosidade no dia seguite emprestan- 
do-lhes por muito favor ao módico ju- 



38 O ESTUDANTE 

ro de 480 reis por moeda em 
mez , o mesmo dinheiro que lhes 
via ganhado na véspera sem o meni 
escrúpulo de consciência : outros q\ 
rondavam cuidadosamente o Bair( 
das Amêas , em busca da encantadc 
ra Maria Rita, modelo das Vestaes 
daquelle tempo, e que passavam ho- 
ras e horas a ouvir seus discretos, e 
virtuosos conselhos, e bebendo com el- 
la doces sentimentos para a alma, e 
mortificações para o corpo; outros... 
fortes basbaques 1 • ! que perdiam o 
dia, e parte da noite, rendendo fine- 
zas ás cachopas do rio , negras como 
carvão, e nojentas como um carro de 
lama I . , outros que hiam para Cellas 
comer manjar branco; outros que an- 
davam por St.^ António dos Olivaes 
a beber jeropiga; outros que se exta- 
siavam no Penedo da Saudade , con- 
templando o bello e o sublime, segun- 
do as sublimissimas idéas de Kant, 
que ninguém entende; outros que to- 
cavam rebeca, ílauta , cavaquinho, 
ou ás almas com os dentes ; outros 
que faziam versos em prosa ; e outros 
finalmente (talvez duzentos entre dous 



DE COIMBRA. f§ 

* . eram bons Estudantes por- 

es 'uivam na verdade; mas em 
..íipenúios concebidos no principio 
) mundo , escriptos em lingua ma- 
rronica , no tempo da Torre deBa- 
cil , se já nesse tempo havia a em- 
uirraçâo de escrever , e prég;ados du- 
zentos annos antes da vinda de Nos- 
so Senhor Jesus Christo. [*] 

Eis o quadro fiel do mar tormen- 
toso que me rodeava , e que por toda 
a parte pertendia submergir-me; eis 
na verdade uma liçáo incomparável 
para differençar o mal do bem, tendo 
os olhos abertos , mas terrivel esco- 
lho para quem náoestá disposto a re- 
cebe-la: debalde quizera a minha al- 
ma valer-se da razào , resistindo ao 
primeiro impulso da curiosidade , e 
seducçào de quem me rodeava; quan- 



|"*2 Justiça, pede oAuctor, paraalc;uns 
mancebos, se bem que pouco dotados d'amor 
pela Sciencia, e fjra do commum dos ra- 
pazes, que se acreditão mui bons estudan- 
tes quando só estudào o que diz o com- 
pendio. 



40 O ESTUDANTE 

do se nâo vê , e se não escolhe O 
Ihor , não ha motivo que nos deva 
suadir que a temos ; mas graças ml 
vezes aos sólidos fundamentos d'umi 
educação judiciosa , e pura , que jí 
mais do dever se afasta quando o c( 
nhece. Assim me aconteceu : passei 
os meus primeiros mezes d' um modo 
verdadeiramente commodo ; levanta- 
va-me ás sete horas da manhã , almo- 
çava , ia para as aulas sem saber pa- 
lavra da lição , voltava de lá saben- 
do menos, jantava , e sahia logo pa- 
ra fazer toda a sorte de despropósito 
até alta noite , amontoando chocas 
sobre chocas na capa fradesca , roen- 
do as meias com o lalão dos çapatos, 
e pondo c m a capa , as meias, e os 
çapatos terriveis contribuições nas al- 
gibeiras de meu Santo Pai , que por 
similhante causa muitisicas estariam 
hoje , se por desgraça , não tivessem 
deixado de existir. 

E que vos parece meu bom lei- 
tor ? ! que tal era a vida santa que 
desfructava o pobre quid numero um? \ 
que tal era a linha recta que me le- 



DE COIMBRA. 41 

er bom cidadão, homem pro- 
azoavel ? ! Vegetar na ignorân- 
cia erro, gastar o tempo, como 
^'i ícce a muitos, sem ganharem o 
í pertendem , ou consegui-lo pela 
^/i uade envernisada de beneméritos 
•f^p.ígos, que interessando se interes- 
áam em que se dê ao menino, no fim 
d'alguns annos de passeios uma car- 
ta de formatura para sahirem Douto- 
res, Diplomáticos , Médicos que de- 
pois d' atrapalhado sarapatel de pala- 
vrões mandam para o outro mundo o 
infeliz , que lhe cahe nas unhas, pa- 
gando-se-lhes ainda em cima tanto fa- 
vor^ Legistas que nas Leis são Lei- 
gos, na Justiça Injustos, Lógicos co- 
mo Legistas, e arrazoadores cacopho- 
nicos , e epitheticos ; e Mathemati- 
cos que arremeçando-se aos instru- 
mentos , e olhando para o firmamen- 
to com ambos os olhos , quando não 
sãocyclopes, descobrem ratos na lua, 
e tomam o Ar pelo Mar, o Sol por um 
Farol, e as Exhalações por Constella- 
ÇÕes. . . . Safa . . . Que epidemia !!! [*] 

£*] Conta-se que, nâo ha muitos annos, 




42 O ESTUDANTE ^ 

Quem vive com os olhos fecha 
vive gerahnente com a maior pa' 
e não sahe da turba turbulenta se 
por um choque maior, ou menor 
vá estimular alguma das molas re 
que fazem da espécie humana 
grupo de manequins mais ou meno 
curiosos , cada qual em seu género; 
foi por este modo que , ferido meu 
amor próprio entrei no verdadeiro ca- 
minho , que devia trilhar. Um dia 
tendo ido para a aula parece que o 
meu coração prognosticava desgraça, 
e muito mais inevitável a julgava de- 
pois que um besouro me havia batido 
nos narÍEc3 ao entrar pela Porta Fér- 
rea. [*] Chegou o digno Lente entra- 
mos, sentou seelle e nós também, pu-f 

certo Lente de Mathematica da Universida- 
de de Coimbra exclamara diante dosalum- 
nos que a lua era habitada, e tanto assim 
que nella via ratos: nâo se enganava pois 
eramdous ratinhos que seus discípulos lhes 
haviam encaixado dentro dooculo; naoque- 
ro com isto fazer injuria nem á Universida- 
de, nem aos seus Lentes, por que muitos 
conta ella de grande merecimento. 

[*] Uma das Portas da Universidade. 



íiO 



DE COIMBRA. 43 

! relação dos Alumnos, olhou 
i <los óculos (donde podeis 
fue o digno Lente nào era 
viam melhor), e encarando- 
o que me aterrou , proferiu um 
>'ii.i^ . . . ora que nome havia logo de 
"ser senão o meu? ! I Ah meu leitor !... 
ro '1 que terrivel dor de cólica me 
não senti no mesmo instante ! . . Subi 
á pedra, [^] e não sabendo o que ha- 
via de dizer, abri o livro, e comecei 
a lêr com o maior sangue frio , que 
pude conservar. O digno Lente ou- 
viu por algum tempo, olhando-me fi- 
xamente , segundo me contaram os 
meus Coilegas , e depois mandando- 
hie fechar o livro, me disse, chei- 
rando pachorrentamente, uma pifada: 
* Vejo que sabe ler soffrivelmente , 
porém não quero incommoda-lo por 
fnais tempo » e mandou-me sentar. 
Eis o vexame publico de que preci- 
sava para entrar no desempenho dos 

r*] Nas Aulas de Mathematica ha uma 
pedra própria afazer cálculos, e figuras da 
^cifincia , para onde se sobem alguns de- 
gfáos. 




44 o ESTUDANTE f 

meus deveres , aíiístando-me , n 
parte, do maior número que tinha v 
gonha de leigo ^ comecei a dedic 
as minhas horas ao estudo , sahi 
cathegoria dos vadios , estudei 
achei prazer no trabalho, lastimei 
horas perdidas , e sahi do campo d 
batalha só com os ouvidos cheios de 
sermões de meu Pai , e o estômago 
temperado com algumas dúzias de 
pillulas de Plenck, e de Sedillot. 

Vivi durante o resto do anno 
mui razoavelmente, aperfeiçoei-me no 
Latim, fiz boa figura na Mathemati- 
ca , e pude ganhar a aífeição do pe- 
queno numero de pessoas de juizo que 
conhecia: chegadas as ferias, não ten- 
do exame algum que me demorasse, 
aluguei cavalgadura a um arrieiro, 
que pagou varias dividas filhas dos 
meus primeiros desvarios, com a clau- 
sula de que lhe seria a dita somma 
paga em Lisboa com o augmento de 
certo módico juro , o de seiscentos 
réis por moeda no espaço de três dias: 
assim me dispunha a partir quando 
me demorou o desejo de assistir a um 



r 



DE COIMBRA. 40 

^llo cheio de tantas doçuras , que 
; j amargaria aos meus Leitores, 
* : os nào fizesse ao menos a narra- 
'í| » ár que vi. 

i 

/ A's oito horas da manhã come- 
•í^u o Sino grande da Torre da Uni- 
versidade a tocar a Capello, e no si- 
íir^ denominado o Museu, mui pró- 
prio para o rendez-vous , se foram 
ajuntando alguns músicos , cujas ca- 
ricaticas figuras tinham um não sei 
que de particular , capaz de fazer rir 
as pedras , e á sua frente o chefe da 
Orquestra , mestre esparteiro , que 
vendia cigarros , e que tirava todos 
os sons do clarinete , menos o be-fa- 
mi , e o de ce-sol-fa-ut , por Ailta de 
fôlego : foram depois chegando os 
Lentes, das differentes Faculdades , 
e finalmente appareceu o Candidato 
acompanhado de seu Padrinho , qual 
dos dous , figura mais interessante ; 
o primeiro não tendo senão três pal- 
mos d'altura , óculos verdes , modo 
inculcador , e como Atlas o mundo 
ás costas \ e o segundo apresentando 
seis palmos d 'altura , sobre oito pol- 



46 O ESTUDANTE 

legadas de grossura no seu maior di^, 
metro, calção em canella de pollej 
da até poUegada e meia, casaca, 
reita que se entortava para fórai 
respeitabilissimo asculto meio pali 
espadim á antiga, bengala d'uni< 
nio, e um cara chá d 'um palmo de rs^ 
Logo da scena começou o movime^n^ 
to: rompeu na frente a interessante 
musica, executando estrondosa peça, 
e mui harmoniosa , posto que alguns 
tocassem em sol menor, sendo a peça 
escripta em maior, e que outros mar- 
cassem três por quatro, devendo to- 
car em quadernario ^ seguiam-se os 
Lentes da Faculdade, em que o Can- 
didato hia ser encapellado , depois 
o Vice-Keitor, e o Padrinho; atraz 
delles os Lentes de todas as Facul- 
dades misturados, eporíim parte da 
alagartada ronda dos Verdeaes , cuja 
outra parte hia formando alas ao Prés- 
tito, ou Cortejo: desta sorte tendo re- 
cebido pelo caminho flores que as ca- 
chopas lhe deitavam, e talvez algum 
raminho de carqueja á mistura, vin- 
do pelas mimosas mãos da interessan- 
te cozinheira , que nâo queria deixar 



DE COIMBRA. 47 

olhar a sua sopinha , chegaram 
' '.'ersidade, e se dirigiram á Ca- 
a fazer oração , e depois á Sa- 
ri Capellos , aonde grande diffi- 
ide se o^fereceu á entrada pelo 
iordinario concurso d'Rs(udan- 
que os esperavam para assisti- 
m á ceremonia. 

Tomaram looo os seus devidos 
ínsi-ares ; o Vice-Rei(or na Cadeira 
Magistral ; ao seu lado o Geral Can- 
cellario , isto é, o Geral dos Cruzios; 
as differenles Faculdades na galeria 
que circumda a sala, e o Candidato 
na parle anterior da mesma sala, mas, 
em baixo, tendo dous Lentes dos mais 
novos cada um a seu lado ; os músi- 
cos próximos á carunchosa estante de 
pinho, que estava no fundo, et Po- 
pulum Dei ^ isto é, o Povo Académi- 
co , nos lugares vagos que restavam. 
No mesmo instante rompeu a brilhan- 
te revolução harmónica, seguiram-se 
successivamente dous discursos em La- 
tim recitados pelos dous Lentes, que 
o referido Sr. Capellista linha ao lado, 
discursos de que não entendi palavra; 




48 O ESTUDANTE 

depois pôz-se o Candidato de joelhos, 
e assim permaneceu em quanto o Le| 
te que lhe devia dar o gráo foi an 
gando a todos os ouvintes, com eni 
donha oração, na qual por pouco 
elogiou até astêas d'aranha, efaj 
do prestar o juramento , e pe^j-annw 
na Borla e Capello a pôz sobre a cs^^ 
bec^a do Aspirante , e lhe disse « Au- 
ctoritate qua Júnior , fibi confero, e 
mais algumas outras palavras metten- 
do-Ihe no dedo um annel. 

Todos se desfizeram então em 
cortezias , e parabéns aosomdainte- 
ressantissima cegarrega instrumental, 
e o novo Doutor andou por todas as 
partes recebendo parabéns, e mui mí- 
micos abraços, a dezeseis tostões cada 
um , nos quaes por pouco nâo ficou 
submergido nos treze covados da ca- 
pa dos abraçanles : acabado isto co- 
meçou com porta franca em uma ca- 
sa da calçada aassucarada comezana 
de toda a casta de doce , e de prepa- 
rados frios , a qual por espaço de três 
dias fez engordar Confeiteiros, Cozi- 
nheiros, Freiras, e Glotòes, e produ- 



DE COIMBRA. 49 

. zk) bas(ante magreza nas algibeiras 
\'úo Sr. Doutor. 

i 

^ E digam lá que os nossos gcne- 

Jsissimos Doutores nâo merecem to- 
a considera<^ào! Receberem Borla, 
ipello, e Annel depois de terem 
wvvido três discurses em Latim... Re- 
galarem com franqueza toda a sorte 
de barriga e de guéla por espaço de 
setenta e duas horas , repartirem al- 
guns centenares de pintos por ícdos 
os Empregados altos e baixes da Uni- 
versidade, e despenderem perlo d'um 
conto de réis , sem ficarem sabendo 
mais do que sabiam d'antes; ora isto 
é que são Doulores .... Ordem .... 
Ordem .... Sr. Estudante tome tacto; 
não me seja povo , nem má lingua ; 
se a Doutorisse custasse sempre tão 
cara não veria v. m por ahi tantos 
Doutores feitos apressa. . . Doutores 
quantos quizer •, mas nada de bom 
mercado, quando nãoencommende-se 
a Deos , e reze por alma do mundo. 

Depois de ter assistido , e engu- 
iido mui razoavelmente o doce do meu 

TOMO I. 3 



50 o ESTUDANTE 

amigo , vesti certo casaco de chi! 
de coberta que mandara fazer ad 
rem: puz o meu chapéo desabado , 10 
despropositado , cine;i uma -«pacH^ 
maior do que a de Carlos M^v 
inetti-me a caminho para List 
cioso de me achar nos braços « 
nha familia , que depois de tre^ ^li: 
de jornada, pude abraçar com e^vif- 
mosa alegria. 



DE COIMBRA. &l 



í 



LMI««WMVVtWll»IM/«W*WlWV««M«Mtm««IV««V«l«MAnitWVVM ««v«vv«n«w 



y 



CAPITULO !¥• 

AS FERIAS GRANDES EM 18^6. 



Intra vamos no mez de Agosto, 
mez para nós de grande monta pelos 
figos de capa rota , com que o nosso 
Commercio se enriquece, e se im- 
moríaliza a nossa industria, nào sen- 
do. elles com tudo contrabando, ccmo 
o erâo em Athenas : o Sol ardia des- 
de lá de cima até cá abaixo cem tan- 
ta força, que chamuscava tudo. L fa- 
nava-se o bello Tejo pelas Donzellas, 
que recebia sobre as bordas de seu 
leito, para lhes curar perigosos fla- 
tos , ou desaíTronta-las dos rigores do 
calmoso Estio. Enchiíío-se os campos 
de pastoras feitas apressa para gozar 
de seus deleites, sem partilhar os tra- 
balhos do Agricultor, esses trabalhos, 
'^ ■^ 



S% o ESTUDANTE 

que a Natureza pródiga recompenso, 
como boa mài, e que muitos Iioum-js 
tanto desprezão, como filhos deij-erit 
rados. 

Eu , por então, saboreava os l '< 
rinhos maternos, e por não desmei- 
tir meus companheiros relatava ni; 
académicas façanhas : alta conside- 
ração me cabia já , como homem co- 
nhecedor do Mundo, e como deixa- 
ria eu de conhece-lo , tendo feito a 
grande jornada de trinta e duas le- 
goas! Quem ousaria contestar o meu 
direito de Bacharel em todas as ma- 
térias , tendo vestido batina , e sen- 
do já tratado pelo respeitável Pagem 
Arrieiro com o titulo de Nhôr Doi- 
tor ! . . . O meu ar parecia gritar a 
todos « Respeitai , Snr.^ um homem 
que anda em Coimbra » e na mesma 
occasiâo dizia aos meus ouvidos uma 
voz « Oh ! lastimoso e misero pedan- 
te, estuda Latim >> l . . . Era esta voz 
a da necessidade , dura , e tão dura, 
que me obrigava a estudar durante as 
ferias para não tornar a ter o mesmo 
tropeço que já tivera. 



K 



■*^ 



DE COIMBRA. 53 

D'esta sorte fastidiosamente me 
ccupava , quando no dia 2 de Julho 
nirou no Tejo a Corveta Lealdade, 
anda do Rio de Janeiro e trazendo 
Içuns números do Diário Fluminen- 
, nos quaes se achavam decretos 
'de S. M. o Sr. D. Pedro IV, tenden- 
tes a dar uma Constituição acs Por- 
tuguezes, e a ceder a Coroa de Por- 
tugal em favor de sua filha a Sr ^ D. 
Maria II que deveria casar com seu 
Tio D. Miguel : com taes noticias 
muita gente se alegrou , se bem que 
alguns também houve que ficaram 
pulverisados , e isto até d'eníre os 
do Conselho que o Sr. D. João VI ha- 
via creado próximo a expirar. [*] 



[*] Este Conselho formado por Decre- 
to de 4 ou 5 de Março de 18S6, era com- 
posto da Sereníssima Sr * Infanta D. Iza- 
bel Maria, como Rep:ente, do Cardeal Pa- 
triarcha , Duque de Cadaval, Marouez de 
Vallada, Conde d'Arcos, e do Ministro 
d^Estado a quem coubesse a matéria de que 
se houvesse de tratar , medida esta que du- 
raria só até que o legitimo herdeiro paten- 
teasse as suas determinações. 



òé O ESTUDANTE 

Bastantes dias se passaram yv 
expectativa , sem que transpiífis, 
cousa alguma certa ^ mas o povo «|t 
nào dorme quando , como aos 
quinhos, se lhe puxa pelos cc 
murmurava, remexia-se , e asse 
va que certos er<im os touros , e u 
por intervenção do Rosbif Sir Charles 
Stward chegariam a bordo da Fraga- 
ta Ingleza Diamond as noticias offi- 
ciaes da Liberdade Portugueza, com- 
prada (talvez) pelo módico e mesqui- 
nho preço da perda do Brazil , e al- 
cançada para os descendentes da An- 
tiga Lusitânia por seus mui aífectuo- 
sos e paternaes amigos Godemes^ que 
por seus desejos nos teriam , ha mui- 
to , Godemisado, 

No entanto ia a Gazeta de Lis- 
boa , órgão do Governo, fulminando 
contra a Liberdade na sua meia folha 
de papel de mata- borrão: e que po- 
deria ajuizar-se de tudo isto? . . . Vá- 
rios Cidadãos foram injustamente pre- 
sos , e arguidos de taramelar ; mas 
de que valiam essas bagatéllas na 
terra do despotismo, quando em mui- 



DE COIMBRA. Ô^ 

los paizes de Liberdade se estão ven- 
^ do ninharias muito mais- curiosas ! 

Nodiasetede Julho entrou n'es- 
if Porto a Fragata Ingleza que todos 
A Constitucionaes ardentemente es- 
► '{)eravam^ vinha a bordo o tal Milord, 
desembarcou Milord , foi ás Caldas 
Milord , fallou Milord , todos curva- 
ram a cabeça diante de Milord, eno 
dia 21 de Julho de 1826 sahiu á luz 
certo programma, provavelmente di- 
ctado por Milord, ordenando a suspen- 
são do luto pelo Sr. D. João VI du- 
rante os dias 31 de Julho, 1 e s2 de 
Agosto para terem lugar os públicos 
regozijes ... Ah 1 nunca assaz louva- 
do Milord , quanlo feliz nào foi para 
mim tua santa vinda, libertando-me 
temporariamenie das garras do Qui^ 
QucB ^ Quodlll Como poderei nomeio 
de íanto jubilo deixar de dizer alguma 
cousa do que vi e d'txclamar : — 
Salve três vezes , grande Lord Mi- 
lord ! — Salve três vezes oh Pátria va- 
porosa do queijo Lòlidrino, fecunda em 
produzir miolos d'enorme capacidade 
para conter quanto for espirituoso . . , 



66 o ESTUDANTE 

Começou o dia 31 de Julh'. (u 
18-26 pelo gasto da pólvora de cosíir 
me com as salvas do estyio^ ^^*'-' 
dolas de foguetes , como nunc ; 
ouviram, enchiam os ares; co eçv 
va a liberdade por fogo de vi8í..i 
jiâo era muito que viesse a acaíar 
d'estouro... Foi sahindo o Povo .^c 
suas casas, e dando vivas ao que bem 
lhe parecia , de sorte que se da chus- 
ma gritasse um « Viva o homem das 
botas n responderiam todos , Viva, 
Viva, e sem saber o que: d'este mo- 
do se encheram todas as ruas e pra- 
ças de grande numero d'individuos, 
para berrar , e vêr os monumentos 
de papelão que se haviam levantado: 
não tendo deixado de apparecer no 
meio do maior apertão ; nem mulhe- 
res com crianças de peito ao coUo, 
nem casquilhos fumegantes acavallo, 
fazendo saltar as feras por cima do res- 
peitável piiblico a fim de divertirem 
as suas dulcineas embasbacadas pe- 
las janellas ; nem cegos a pedirem 
esmola , e a pizarem com o seu bor- 
dão os callos dos absortos contempla- 
dôres d'aquellesimitativos monumen- 



DE COIMBRA, 57 

tos de Grécia e Roma e das pyramí- 
des que fariam sombra ás do Egypto. 
^elos quartéis tocavam as differentes 
lusicas, mas bem podiam ter osar- 
' tas sete fôlegos para soprarem : de 
•ada lhes serviriam mesmo os folies 
'^do orgamdos Vicentes, para que seus 
sons resaissem do confuso badalar 
dos sinos , indispensáveis nos rego- 
zijes públicos para que não deixem 
também de ter os surdos _seu diverti- 
do quinhão. 



Uma salva ás 1 1 horas annunciou 
que Sua Alteza a Sereníssima Sr.^ 
Infanta D. Izabel Maria prestava o 
juramento. 

Ao meio dia houve nova salva , 
de tarde novas algazarras, ao sol pos- 
to mais tiros , e á noite tantas lumi- 
nárias e foguetes que fácil me é acre- 
ditar que até pelos habitantes da Lua, 
foi vista a nossa illuminação; se éqiie 
lá os ha , e se são curiosos como ncs. 

O Cônsul do Brazil illuminou a 
frente de seu edifício com mais de 



58 tí ÈStUBANfE 

1500 vidros de cores .... Que mz;i.> 
teria elie para corar tanto ás r^ 
ras 



7 I I 



Na Rua dos Fanqueiros, de '•■ 
êm três frades de pedra ( de jí 
ôiais eram elies quasi todos ) , se en- 
cruzavam hastes de louro terminando 
em balões transparentes, de varias co- 
pes. No pricipio e no fim da Rua ha- 
via dous arcos similhantes aos prece- 
dentes que terminavam em um qua- 
dro aonde se lia iz: Constituição zz e 
na parte media da rua , defronte do 
convento dos Carmelitas, se achavam 
as Effigies do Sr. D. Pedro e de sua 
Augusta Esposa. 

No encruzamento da rua da Con- 
ceição Nova avultava um caraman- 
chão de louro e murta, assentado so- 
bre quatro pilares de base quadrangu- 
lar, illuminado por 4000 lanternas el4.5 
balões. A musica do Regimento n.** 
16 enchia continuamente a^ rua de 
seus encantadores sons. Todas estas 
despezas foram feitas á custa dos Ne- 
gociantes ©Moradores d'aqueHa rua. 



/ 



DE COIMBHA. 69 

Na praça dos Romulares havia 
um Obelisco, na rua Larga deS. Ro- 
I que ura arco Triunfal , na praça d© 
VS. Paulo, na rua Áurea, aa Augus- 
\a , na da Prata , no Poço novo ,. eni; 
jlVIcaníara, em Belém, em Cacilhas^ 
no CoUegio Militar da Luz^ em to- 
dos os quartéis e por toda a parte ^ 
nào faltavam luzentes monumentos 
de alegria , inclusive no barco de Va- 
por , que milagrosamente se nào eva- 
porou á força de luzes. 

Pois nos Theatros 5 . . . Isso foi 
um aranzel de vivas , hymnos , sone- 
tos eodes, que ningoera se entendia. 
Ora aqui torno eu com as minhas di- 
gressões, sempre tomara quemedis- 
sesstím , que importam agora a nin- 
guém , em 1840, as torcidas que se 
aecenderam e apagaram em 1826 ! 
Se a mesma carta , que então se fes- 
tejou já hoje significa tanto como uma 
folhinha velha, (que isso tem comsi- 
go as Conslituiçòes ... As dos annoa 
fiftdos são nada , a do anno corrente 
dá dias santos a quem nào vai á mis- 
sa ) ; se finabíiente das cousas d' eu- 



60 Ô ESTUDANTE 

Ião já hoje lia táo poucas , e essas (?:> 
transformadas que até os frades de pe- 
dra que pareciam mais inamovi\cK^ , 
que Juizes de Direito, abalaram r.i.i 
retaguarda dos de carne e ossos : pa.M 
que venho eu á praça com o meu pai \, 
nel dos magnificos e apparatosos fes- 
tejos de lSt6 { l . . Para que nào sei 
eu , e também me parece que para 
nada , agora porque sei muito bem ; 
é pelo gosto que me dá a recordação 
<l'um bom dia de mocidade, tempo 
em que ainda se acredita na possibi- 
lidade da ventura privada, epíblica; 
e esperem que também sei um para 
que; agora o que eu não sei é se o 
devo dizer ou nào-, se o digo é triste , 
se o nào digo fico embaçado por que 
sou Algarvio ; pois então digo: a uti- 
lidade que esta commemoração pode 
ter , é a mesma porque se faz aquel- 
la ceremonia de queimar as estopas 
diante do novo Papa , gritando-Ihe 
Sic transU .gloria Mundi, para que as- 
sim como lá em Roma se procura cu- 
rar fumos de vaidade com fumos d'es- 
topa , assim cá se curem muitas cre- 
dulidades Constitucionaes com fumos 



DE COIMBRA. 61 

morrão de 26; e adiante que são 
ifas ; e se nao me recolho depressa 
'•ista digressão , atraz d'esta vinha 
Ira , e um chorrilho d ellas, que em 
. de historia da minha vida leria- 
^á um Missal de artigos de fundo, 
lie que Deus por sua infinita miseri- 
córdia vos defenda , e mais a mim. 

Como o primeiro dia , se passa- 
ram os outros dous , tendo no segun- 
do havido de mais beija-mào dado pe- 
la Serenissima Sr.^ Infanta, e haven- 
do no terceiro ido á Sé a mesma Sr.* 
para assistir ao Te Deum ; na sua 
passagem pelo arco da Rua da Prata, 
treze meninas vestidas de azul e bran- 
co soltaram em direcção ao coche , 
vinte e cinco pombas brancas, de cu- 
jos collos pendiam fitas azues com ver- 
sos , as quaes pombas representavam 
os vinte cinco annos de sua Alteza. 
Ao atravessar pelo arco da Rua dos 
Fanqueiros um menino de cinco an- 
nos soltou uma coroa de rosas desti- 
nada acahir sobre o coche ; mas ten- 
do-se a coroa desviado de seu desti- 
no , foi a elle levada pelo Viador de 



6^ o BSTUDAPfTE 

S. Alteza , que a apresentou á Sere- 
níssima Senhora. A somma total dos 
gastos que se fizeram foi exorbitante; 
foram três dias de regabofe para vá- 
rios dig^nos Cidadãos que sentiram sói 
não houvesse Goostituições todos 08 
dias ; mas em quanto rebentavam» 
nos ares milhões de bombas, e ardiam 
sobre a terra com profusão tanques 
de azeite ; quantas viuvas , quantos 
orfaos , quantos veteranos mutilados, 
e cobertos de honrosas cicatrizes, não 
gemiam mal recompensados por uma 
Pátria, surda s(,^mpre a seus clamo- 
res! Quantos,, extenuados pelas an- 
gustias da fome, e aturdidos com o 
brilhante estrondo d 'estes festejos , 
nao maldiziam a terra que lhes bavia 
dado o ser ! . . E seriam por ventir a 
capizes de contribuir para filantrópi- 
cos soccorros , aquelles quie risonhos 
se prestavam com a bolsa aberta , a 
bem de similhantes prodigalidades ; 
ou proviriam ellas do sentimento oc- 
culto de cada um , prevendo na mu- 
dança das Instituições Politicas , me- 
lhoramento de fortuna , e acreditan- 
do que dentrO' eiHi pouco, sie atolha- 



BE COIMBRA. &3 

^ riíam milagrosamente seus cofres , ou 
|\:50 elevaria sua posição social? Chi- 
mericas esperanças !..'.. 

De nada servem ordinariamente 
/- revoluções senão de perder os ])o- 
s, e os Estados, ou de abate-los 
])or muito tempo : o poder ainda que 
mude de mão e de forma , não deixa 
de ser o que é , e de se ornar com 
o direito da força: com as revoluções 
se desmoralisam os homens ; com el- 
las se perde a boa fé commercial , e 
a confiança pública ; com elJas seva- 
sam e desperdiçam os recursos nacio- 
naes ; nascem ambições , formam-se 
partidos, declara -se a guerra civil , 
e n'esta lucta d'interesses particula- 
res , n'esfe conflicto puramente de 
paixões pessoaes , se destroe muitas 
vezes com a rapidez do raio , toda a 
gloria , toda a felicidade , adquirida 
á custa de thesouros , de séculos , e 
de rios de sangue; taes são, oh! Por- 
tuguezes , os sentimentos d'um ho- 
mem que idolatra a sua Pátria e a li- 
berdade, e que já por uma e outra 
padeceu bastante ... mas a proposi- 



0é o ESTUDANTE 

to . . . que foi feito do nosso Estudan- 
te ?. . Então nasci ou nào com a ma- 
nia de fallar.. .. forte deputado se 
perdeu em mim *, ora meu Sr. victor- 
serio.tenlia termos, e vamos a isto. 



I 



DE COIMBRA. 65 



■t v%'vl.'k^.««MIMtW\i»«tA«\A«t«%««XVUIUMn.%M.VM»\'U%«/%M/t\t««WMA«Ai 



CAPITULO V. 



VZMIT HORA MEA. 



jou o dia de minha jornada pa- 
ra Coimbra , que d'esta vez s'effe- 
ctuou pela tarde ; já me ia sendo per- 
mittido caçoar os Srs. Caloiros e bem 
agradavelmente nos divertiamos á 
custa d'elles , quando veio a Nature- 
za divertir-se também á nossa custa: 
uma terrivel trovoada desabou sobre 
nós entre a Povoa e Alverca ; relâm- 
pagos , raios , trovões, vento e chuva 
de pedra , tudo nos mimoseava ge- 
nerosamente em paragem aonde não 
havia abrigar-mo-ncs ; de repente co- 
meçámos a ouvir altos gritos pedindo 
soccorro , corremos , e achamos um 
dos malaventurados Caloiros , que 
pouco afeito a cavallarias , e aterra- 
do do temporal , se deixara levar do 
quadrúpede para a beira da estrada, 



66 o ESTUDANTE 

aonde a chuva recente produzira um 
lameiro tão profundo, que o triste se 
tinha atolado quasi até ao pescoço, à 
com macho e tudo : aqui foi uma sce- f 
na digna do pincel enérgico d'algumi ' 
pintor d'aldêa , dos que nas horas va-^ 
gas de sarapintar frontispícios debo-^ 
ticas, fazem românticos painéis d' al- 
mas para as ermidas de fora da terra, 
vêr a fadiga com que por um lado 
trabalhávamos cheios deafflicção pa- 
ra tirar o carrapato da lama , em 
quanto pelo outro procuravam os Ar- 
rieiros arrancar o rossinante do peri- 
go em que se achava, accumulando 
pragas sobre pragas e puxando uns pe- 
la cauda , oulros pelas orelhas e pelo 
freio do pobre animal. 

Perdemos em tudo isto perto de 
duas horas, de sorte que tínhamos 
de andar ainda muito pela noite den- 
tro; mas o diabo que em mall< gran- 
do a primeira , ordinariamente não 
pára sem chegar á dúzia , transfor- 
mado em furacão , me abalou com o 
chapeo aos saltos por umas ladeiras 
abaixo, o que me obrigou a apear- 



DE COIMBRA. 67 

lie , para o ir apanhar cheio d'agoa 
"'um arroio onde parara e se fora a 
ique. Já eu voltava com a minha ca- 
• ça fresquinha para montar no meu 
, \ alio , quando vi que se ia aos cou- 
"S por uma ladeira acima , já livre 
íà sella, que á força de espoldrinhar 
sacudira do lombo , e tão satisfeito 
com aquella inesperada fruição da li- 
berdade natural , como se fora algum 
discípulo de João Jacques. Caindo , 
levantando-me, apupando-me , e dei- 
tando os bofes pela boca fora , con- 
segui finalmente apanha-lo , no que 
bem haveria merecido um d'aquelles 
guapos prémios, que o meu, por en- 
tão muito aborrecido Virgílio, dá no 
seu Livro V, versos tantos, aos ven- 
cedores na carreira : porque vencer 
um bipede a um quadrúpede em li- 
geireza, ainda que o quadrúpede seja 
de arrieria , e o bipede um mero pas- 
seante, numerosa classe a que eu en- 
tão me prezava de pertencer , não é 
cousa por certo de pouca monta aos 
olhos da boa íiIoFofia que se dignou 
de tomar em consideração os machos 
da estrada , ou os vadios da Cidade. 



K 



68 O ESTUDANTE 

Deixemos isto e vamos a pôr a sella: 
puz-Ihe a sella o melhor que por en- j 
tão pude , e por me não fiar muito 1 
nas novas silhas , que pelo descon- ' 
certo das primeiras , acabava de im- 
provisar com os meus suspensórios 
(que humiliac^ão para os hombros , 
humanos, se euquizesse entrar n'ou- 
tra digressão I ) vim a pé trazendo 
quasi ás costas quem me devia tra- 
zer a mim, e formando assim um ad- 
ditamento pratico ao Tractado das 
compensações nos destinos humanos, 
com um capitulo de compensações 
nos destinos muares. Faltava-meguia 
e conhecimento do sitio , quanto em- 
pecilho de charcos , cômoros e alga- 
res podia haver, todos me punha dian- 
te a madre terra, e a noite acrescer 
cada vez mais sobre nós. Quando tor- 
nei a alcançar a estrada , não achei 
meus companheiros nem os moços, 
os quaes não tendo reparado na mi- 
nha falta, se haviam dado toda apres- 
sa em chegar á pousada. 

Montei a cavallo , e puz-me a 
caminho ; mas ainda cogito agora no 



DE COIMBRA. 09 

>do por que andei boas quatro ho- 
- pela escuridade*, em busca dos 
•s, que até comsigo me tinham le- 
io a consolação de poder exclamar: 
latio estmiseris sócios habere Pena- 
: ' nào poderei dizer o que fiz pa- 
iii iichar por í\in Jroiite ajroíite 
liáo com um duro monte , mas com 
um casarão velho , a cuja porta bati. 

Appareceu uma velha , porém 
ao vêr minha apparencia desusada e 
o náo sei que de misterioso , que um 
poeta romântico nào deixaria de me 
achar n'aquelle lance , soltou tal gri- 
to que me fez espantar o macho , e 
em quanto este gyrava como um pião, 
fechou-se a porta , e adecs candêa e 
velha, em cujo clarão tremulo, eem 
cuja cara rugosa (não ha mais do que 
um momento) me sorria a esperança. 
Ponha-se qualquer no meu logar, com 
fome de palmo, sem fio enxuto , sem 
ente vivo ao pé , senão um bruto , 
n'um ermo desconhecido , com uma 
'porta na cara , com uma sella sem 
silhas , e umas calças sem suspensó- 
rios! Era para exclamar como o dia- 



70 o ESTUDANTE 

bo no Paraíso Perdido — « Desafio-te, 
Omnipotência , que me faças mais 
desgraçado , se és capaz. 

Estava assim sem me saber dar 
a partido, quando do mal agourado, 
casarão a ppareceu com umaespingar-^ 
da , um homem que me perguntou 
com certa aíTabilidiíde alaponada. 

— Quem é vossê ? . . . 

— Sou , meu senhor , lhe tornei , 
um estudante , que indo para Coim- 
bra me perdi. 

— Ah i . . . perdoe V. S.* eu vou , 
já como um galgo, e veio prompta- 
mente abrir a porta , dando mil sa- 
tisfações , e fazendo as mais dispara- 
tadas cortezias. 

Perguntei-lhe se me poderia dei- 
xar ali pernoitar-, respondeu-me que 
sim , se bem que não havia na ca- 
sa mais de um quarto em estado de 
me abrigar da chuva e do vento, que 
continuava com força ^ que devia po- 
rém declarar-me por descargo de sua 



DE COIMBRA. 71 

isciencia, que n'esse quarto appa- 
■am almas do outro mundo , e que 
isso visse eu se me queria sugei- 
.i passar com ellas a noite , ou a 
r Bo forno aonde costumava cozer 
-i': , único sitio disponível que lhe 
' !i. va em bom uso. 

Mui vergonhoso seria para um 
Estudante de Coimbra dar parte de 
fraco; e muito mais quando d'essa 
fraqueza indubitavelmente resultaria 
dormir de forno, em ar de pastel, ou 
de merendeiro ; respondi , por isso , 
que dormiria n'esse lugar . . . Terror 
dos vivos , cárcere dos mortos . . . que 
me puzessem n'elle uma luz , e que 
deixassem o mais por minha conta. 
Debalde procuravam todos dissuadir- 
me d'esta deliberação, o meu amor 
próprio repellia quaesquer conselhos; 
insisti , quixotei , e fiz tão seriamen- 
te o papel de valentão que lá me fo- 
ram pôr uma luz e fazer a cama : ora 
dir-vos-hei na verdade , que apenas 
me vi sósinho, comecei aarripiar-me 
e que só por vergonha e capricho não 
dei parte de fraco : estive por mais 



7§ o ESTUDANTE 

d'uiiia vez a saltar pela janella , pre- 
ferindo passar a noite á chuva e ao 
vento. O menor estrépito me punha 
em suores frios e me fazia julgar que 
já se me filavam nas canellas ^ ma,*» 
revesti-me do maior animo quepud© 
puz o meu espadão á cabeceira , e ^ 
como a luz allumiasse bem , me dei- 
tei já fora de horas , e depressa ador- 
meci pelo cançaço , e mais depres- 
sa acordei pelo medo , e ás escu- 
ras 1 . . . 

Entíio é que foram ellas . . . Pa- 
receu-me ouvir respirar lugubremente 
por cima de mim : saco da espada, 
ai^ma améns cupio , e sem perder 
tempo em levantar-me , começo a 
florea-ía , assentado em cima da ca- 
ma. Ainda bem ntão tinha descarre- 
gado a primeira espadeirada , já se 
sabe no ar ambiente , quando recebi 
na cara um murro terrivel ... ah ! . . 
que horror ! ! ! levantei-me com os ca- 
bellos todos espetados e continuando 
a fazer jogo , comecei a gritar .... 
« Jesus . . . Santo nome de Jesus . . . 
Luz . , . Iaiz ... ah Cáes ....•> e tudo 



BE COIMBRA. 73 

O mais que me veio a boca , ccnli- 
nuando sempre a vibrar a darindana, 
e a fazer taes peloticas no meio do 
sobrado , que fariam morrer de riso 
a quem as visse. 

Cinco minutes haveria que eu 
sustentava tào renhido combate, quan- 
do bati cem a espada em uma ceusa, 
que sem lurgir, nem mugir, cahiuno 
chão fazendo bastante bulha ; se as 
almas do outro mundo tivessem carne 
e osso , teria acreditado qup era ella 
que minha espada partira de meio a 
meio ; mas sendo obras só de fuma<^a, 
se bem q«e confusamente, fui , ccn- 
tinuando a esgrimir, e vociferar,, a 
ponto, que meus patrões acordad» s 
pelos gritos , e jWHotes cem que me 
descozia, entraram no quarto trazen- 
do luzes : contei-lhes o que me aca- 
bava de xicontecer .... bem lhe di- 
zíamos nós, exclamaram elles; é a al- 
ma davisavó da dona desta casa, que 
se diz que volta cá por causa de cer- 
tas restituições que tem para com 
seus herdeiros legítimos, aquém pri- 
vou da herança por causa de certo 
TOMO I. 4 



*7Z o 'estudante 

mancebo... o tal mancebo diz-se que, . 
n'este mojnento a dona da casa too'a 
espantada nos mostrou umaCoruja qu^ 
tinha achado no chão partida quasi cíl 
duas ametades . . . á sua vista fica' i' ' 
todos estupefactos menos eu, qu 
meio de á,í!ectada seguridade lhes bra 
dei : « eis-aqui meus amigos, eis-aqui 
as almas do outro mundo ! 

A isto se seguiu uma larga con- 
versação sobre apparições , trasgos e 
cousas más , em que os meus hospe- 
des eram inesgotáveis , moralisando 
todos nós muito sobre os grandes pe- 
rigos de deixar dividas n'este mundo, 
cousa que se eu a escrevesse diver- 
tiria muito aos meus leitores , mas 
não convertiria a ninguém. 

Ao romper do dia despedi-me 
agradecendo-lhes euaellesaboa von- 
tade , e elles a mim o beneficio de 
ter desencantado o quarto , rachando 
em duas aquella alma caloteira. Pi- 
quei para a estrada real da qual me 
achava arredado quasi duas léguas, 
próximo de um sitio que fica nas ai- 



BE COIMBRA. 75 

tura« de Villa Franca , denominado 
• — n Babascoziz andei pornauito (em- 

Ipo sempre triste e solitário, unica- 
mente acompanhado de saudades da 
minha familia Já ia qcasi aborre- 
Lcido do caminho, do macho e de mim, 
quando em cumprimento do provér- 
bio zz de hora para hora Deos me- 
Ihorazz de uma vereda que na estra- 
da vinha desembocar, me apparece- 
ram duas senhoras , um homem ve- 
lho , mas bem conservado , e vários 
criados , todos bem montados. 

— Vai para Coimbra , Sr. Estudan- 
te? . . me perguntou o ancião, reco^ 
nhecendo-me pela originalidade de 
meus vestuários. 

— Sim senhor, lhe respondi, se a 
cavalgadura não perder as pernas no 
caminho; é a esse malvado Francis- 
co Caréo que sempre alugo , e pare- 
ce que por isso me serve cada vez 
peior. 

— Ah I nhorDoitor (replicou o Ar- 
rieiro que acabava d'encontrar-se co* 

4 * 



76 o ESTUDANTE 

migo, tendo-me esperado no caii! 
nho) que tem Vonhoria que pôi » 
meu gado?!.. Não ha nenhun) \r-'. 
estas redundâncias que lhe ponbr 
pé adiante. 

— Ora, tudo isto éuma corja, tor- 
nou o velho ; mas que remédio ha se- 
não atura-los ? Pois senhor , nós se 
guimos a mesma direcção , e se qui- 
zer faremos a jornada juntos : esta 
Sr.* é minha Mana, e no mesmo ins- 
tante se voltou para mim um carão 
sorrindo-se com penca de palmo e 
meio , e sete dentes de menos , e me 
disse , chegando aos olhos uma lune- 
ta — tenho o gosto de lhe apresentar 
a filha de meu Mano. 

Ah ! velha, velha! Que objecto 
me apresentaste tu? Que rosto , en- 
cantador ! . . Que expressão de ternu- 
ra ! Que faces de rosa aonde ressum- 
brava o pejo ! . . e que bellos olhos 
pretos ! ! ! ah ! . . que olhos tão sedu- 
ctores! . . Ah velha; o que me apresen- 
taste para me enfeitiçar e confundir 
a ponto de só poder balbuciar algu- 



DE COIMBRA. 77 

mas palavras sem saber o que dizia!.. 
, se pertendeste maravilhar-me, bem o 
l conseguiste, e lua Sobrinha conheceu 

tanto a minha perturbação , que bai- 
L xou os lindos olhos que principalmen- 
te a haviam produzido .... 

Continuamos a jornada dando e 
tomando mutuas informações acerca 
de nossas pessoas, familias, e circums- 
tancias: o velho chamava-se Rodolfo: 
era militar antigo, proprietário, ho- 
mem cheio de franqueza e de simpli- 
cidade; ia para Coimbra viver n'uma 
de suas quintas , que tendo andado 
arrendada havia muitos anncs , care- 
cia (como quasi sempre acontece) da 
presença de seus donos para ser ama- 
nhada convenientemente. A velha 
era singela , sem ceremonia , e de 
génio folgasão ; ria-se de tudo , e de 
quanto dizia fazia rir : lisongeava-se 
com a formosura de sua Sobrinha , e 
gostava que rendessem o devido tri- 
buto a sua belleza. Maria se chama- 
va a filha de Rodolfo; tinha dezesete 
annos , raros encantos , frases cheias 
de natural meiguice e innocencia ; 



78 o ESTUDANTE 

rnaneiras affaveis; dizia poucas phu 
vras ; mas com seus eloquentes o).' .. 
expressava muito mais .... Ah ire;: 
leitor, o que ella sentiu ao vêr-ixfe.^ 
náo o sei eu; o que eu sei é o quo 
senti jDor ella. 

Cheo^amos á pousada da noite, 
pousada digo eu pelos outros^ porque 
em quanto a mim nao pousei , nem 
preguei olho até á madrugada; por boa 
©u má fortuna entre o meu quarto 
e od'ella só mediava um tabique que 
me deixava ouvir mesmo a sua res- 
piração: imaginem portanto: os meus 
dezoito annos inflammados com toda 
uma tarde de convivência , em jorna- 
da, que equivale aseis mezes de sala: 
Gs meus dezoito annos incendiados 
com a primeira faísca do amor perto 
do seu thesouro, e sem testemunhal.. 
Eu passeava descalço para não ser sen- 
tido ; encostava o ouvido ás fendas 
do tabique ; traduzia em expressões 
amorosas os mais leves sons do seu há- 
lito ; compunha a meu gosto os seus 
sonhos ; interpretava por elies , como 
José do Egypto , o meu porvir . . . 



DE COIMBRA. 79 

oh ! que formosa camará óptica não 
é uma cabeça de dezoito annos ! . . . 
Leitor , se te lembras de jamais ha- 
ver tido esta idade , estou certo de 
que me não lerás sem inveja. 

No dia seguinte continuámos a 
jornada ; não poupei cousa alguma 
capaz de fazer realçar o brilho de mi- 
nha boa educação; nunca fui tão con- 
descendente;, tãoaffavel, tão circuns- 
pecto; e tive aventura de serem bem 
recebidos es meus desveles; também 
me não descuidei de relatar cem vi- 
vas, e talvez exaggeradas cores, a 
minha aventura do casarão velho, 
o que trouxe comsigo varias outras 
anecdotas, sem dúvida mui curiosas, 
mas próprias para infundir bastante 
terror em almas fracas : bem procu- 
rava eu tranquillisar os pensamentos 
de Maria , desviando-os para mais 
agradáveis idéas , ella cheia, de sus- 
to , por mais de uma vez, supplicou 
seu pai que nào fallasse em similhan- 
tes cousas; mas Rodolfo, militar ve-r 
lho enthusiasmado com a lembrança 
das aventuras da sua mocidade , e 



80 O ESTUDANTE 

dos tempos das suas campanhas, r . 
pondendo-Ihe com uma risada iarv , 
tinuando tão fervorosamente que x . «. 
se tratando de autra cousa , se pas 
sou o resto do dia até que chegámos, 
á estalagem. 

Tudo tem sua maré na vida , e 
esta jornada tinha vindo na maré das 
aventuras: estava eu dormindo asom- 
no solto, na Pátria de Francisco Ro- 
drigues Lobo, ao som d'aquella cas- 
cata do Rio Lix que parece de pro- 
pósito collocada defronte da estalagem 
para adormentar os passageiros , a 
despeito dos numerosos destacamen- 
tos de pulgas e dos colchões macios 
como saccos de nozes; quando fui 
acordado por um berreiro espantoso, 
vindo do quarto aonde as minhas com- 
panheiras de jornada tinham ficado; 
saltei logo pela cama fora , embru- 
Ihei-me no capote , corri , e tão ga- 
lhardamente comprimentei a porta 
que por um triz me não parti de meio 
a meio ao som de novos alaridos^ 

Sem embargo de tudo entrei com 



DE COIMBRA. 81 

fiiria no quarto, e pelo uUimo arran- 
co da lamparina, vi diante de mim 
um vulto branco de hórrida figura, e 
volume gigantesco^ se tivesse tido o 
tempo, e a lembrança de trazer o 
meu espadáo houvera esquartejado o 
tal fantasma, qued'esta vez não erâ 
coruja ; mas como me achasse desar- 
mado f-ui para fugir, quando me so- 
breveio a lembrança de Maria, a quem 
poucas horas antes en<:hêra os ouvi- 
dos de minhas arreganhadas fa<^a- 
nhas-: largando pois o capote saltei na 
tal cousa branca e ella em mim , e 
pegando-nos á unha começámos , sem 
dizer palavra, na mais violenta lucta, 
quando a estalajadeira e seu marido 
entraram com uma luz , e correram 
para nos separar ; mas qual não foi 
meu espanto achando-me ás mãos com 
Rodolfo . . . recuamos ambos no meio 
d'um chuveiro de satisfações, ao mes- 
mo tempo que a estalajadeira , ven- 
do dous homens em fraWa de camisa, 
cobria a cara com a manga do vesti- 
do e que as senhoras de Rodolfo se 
mettêram pela cama abaixo: pergun- 
támos então a causa d'aquelle espa- 



62 o ESTUDANTE 

ihafato responderam-nos cheias de ter- 
ror , que pouco antes da nossa entra- 
da no quarto haviam visto, com 
luz mortiça da lamparina, um fantas 
ma que vagarosamente o atravessi 
ra ; soltámos uma grande risada, a. 
tribuindo aquella visíio ao receio que 
nossos contos da véspera lhes haviam 
causado ; porem ellas insistiram tào 
fortemente , que nos obrigaram a se- 
guir o caminho por onde nos diziam 
que a visào tinha ido : encontramos 
uma escada que conduzia a um sotâo 
que ficava por cima do quarto em que 
estávamos : n'aquelle ponto começou 
uma contenda entre o Patrão , e sua 
Mulher a qual dos dous iria adiante, 
quando eu , pegando na luz lhes dis- 
se : « quem é que tem medo de simi- 
Ihantes cousas « e subi atrevidamen- 
te .. . ora confesso-vos , meu leitor, 
que a alma do outro mundo d'esta 
vez era mais mundana do que todos 
nós; n'aquelle sótão dormia a criada, 
o corpo branco que para lá tinha pas- 
sado era o do arrieiro; quanto ao fim 
que lá o leVava , segundo elle dizia, 
era ir-lhe perguntar se queria algum 



DE COIMBRA.^ 83^ 

recado para sua mãi , que no dia se- 
guinte , lhe havia de passar pela por- 
ta ; segundo ella , interrogada sepa- 
radamente , ia pedir- lhe três tostões 
emprestados para um par de botas; 
segundo o estalajadeiro , devia ser 
alguma cousa diversa, á vista daener- 
gia dos termos com que descompu- 
nha a pobre desconsolada, em quan- 
to a ama a esbofeteava por nào ter 
juizo para saber fazer as cousas ; 
quanto. anos, que éramos novatos na 
casa e não conheciamos nenhuns dos 
actores d'esta scena nocturna , nãOi 
podemos formar idéa alguma , e dei- 
xamos a curiosidade adiada para o 
juizo universal. 

No dia seguinte continuámos a 
nossa jornada: o meu desembaraço 
linlia produzido grande impressão em> 
Maria, en'uma ardente imaginação^ 
é este muitas vezes o primeiro passo 
-qjM€> leva para o coração, sentimen- 
tos poderosos; seus olhos já para mim 
se dirigiam de vez em quando com 
certo ar d interesse e de ternura ver- 
dadeiramente seductor , e quem po- 



É4Í o ESTUDANTE 

deria deixar de receber com enihusias- 
mo tão lisongeiras provas de predi- 
lecção ! . . . 

Nenhum outro acontecimento noo 
occorreu , e estávamos á vista de 
Coimbra; mui curta na verdade ti 
nha sido aquella jornada para meuL- 
desejos , mas que valem nossos dese- 
jos diante da lei da necessidade : bus- 
quei pois occasião opportuna , e che- 
gando-me á bella companheira , lhe 
disse pesarosamente : desculpe , mi- 
nha senhora, a insuíHciencia dos meios 
por que tenho procurado suavisar-lhe 
os incommodos da jornada ; quanto 
a mim , dou-me por muito feliz de 
haver encontrado um tão rico thesou- 
ro . . . mas ah ! . . perde-lo tão cedo,.. 
Maria não respondeu cousa alguma , 
ou para melhor dizer; respondeu mui- 
to por que fitou os olhos em mim , e 
no meio d'essa passageira nuvem cor 
de rosa que repentinamente atraiçoa 
as faces dainnocencia, deixou de seus 
lábios escapar um suspiro que nem 
sequer pertendeu suífocan 



BE COtMBRA. 85 

Estávamos chegados á Portagem 
cadeia, e primeiro edifício da Cidade, 
í]ue em forma demáu agouro se apre- 
senta aos que a entram ; despedimo- 
i nos entre mil demonstrações de sym- 
■j, pathia ; trilwitando-me Rod£»Ifo e sua 
\ IVíana , todas as provas da maior ami- 
" zade e offerecendo-me , ou para me- 
lhor dizer, rogando-me encarecida- 
mente que os visitasse. 



o ESTUDANTE 



IKWt Vm «VMItlVMV Wt Wt VW^IVt VM W«t i«M wv un VM «Vt VM tlt/l Wt WA V\% MK 



CAPITULO VL 



PAPliZi PARA MECHAS. 

! ovamente vos saúdo fagueiras som- 
bras de curvados ramos , que ador- 
nais as margens do Mondego , e a 
vós dirijo um adeus saudoso , derra- 
deiros raios do sol , que vos deitais 
sobre o horizonte de meio mundo, 
para vos alevantardes sobre o horri- 
zonte de outro meio: lá estais, oh! 
aprasiveis e verdes collinas que me 
encobris Maria, a cândida eseducfo- 
ra Maria . . . E meus carinhosos Pais 
tão longe , quando alava da saudade 
me devora ! . . . D'esta arte começa- 
vam meus pensamentos brincando com 
indiíTerença nas folhas os suaves Zé- 
firos do fugitivo Estio, quando um oh 
lá l me fez sair de minha profunda 
meditação com terrível sobresalto, e 



DE COIMBRA. Slí 

Uando-me rapidamente achei Ro- 

ifo próximo de mim , que feitos os 

comprimentos do estilo, se assentou 

u lado sobre uma das lages do 

jso sitio do Encanamento^ aon- 

me achava zz: então , me disse 

está mais descançado, meu com- 

, .fitieiro de jornada? 

— Sim senhor , pelo que toca ao 
corpo; mas o espirito do homem es- 
tudioso nào descança , e mui(o mais 
vendu-se dislante de uma familia ex- 
tremosa , e dos objectos que lhe sào 
caros. 

— Assim é meu bom amigo ; po- 
rém diga-me? porque nos nao tem vin- 
do ver! Ha cinco dias que chegámos, 
e nào tivemos nunca mais noticias 
suas!.. Minha Mana nao se cancã de 
íiillar a seu respeito : minha Filha já 
por duas vezes me perguntou se o Ucào 
tenho visto , olhe que se torna de ve- 
ras muito desejado ! 

— Desculpe V, S.^ essa falta, por 
minha alma . involuntária , pois se 



S8 O ESTUDANTE 

bem que segundanista de Coimbra, 
só este anno éomeu primeiro de Uni- 
versidade: tive que fazer todos os exa- 
mes do Colleçio das Artes , e só ha 
pouco pude matricular-me : o desejo 
de comprimentar sua estimável fami- 
lia náo tem deixado de acompanhar- 
me um único instante , e jamais sou- 
be pagar com ingratidão a honra com 
que se dignam obsequiar-me. 

— O Sr. Académico tudo merece, 
e folgo sabendo que tão longa ausên- 
cia não proveio de doença ; mas ap- 
pareça em quanto nos deixarem por 
aqui estar , pois não sei se durará isso 
miuito tempo, 

— Por que ! . . . aconteceu- lhe al- 
guma cousa que o obrigue a retirar- 
se ? ! . . . 

— A pergunta é boa! . . então igno- 
ra o que se passa com o Silveira ? i . , 

— Que Silveira ? ! . . , 

— O Marquez de Chaves .... 



DE COIMBRA. 89 

— Ao certo que nada sei. 

— Já vejo que não faz caso da nos- 
Poiitica 1 

— Confesso que sempre live nega- 
^ lo para similhante negocio , em que 
diz meu Pai que se não pode fazer 
boa figura , quando se não tem certa 
doze de adulação e de má f é . . . 

Oh ! que verdade ! . . mas admi- 
ro que não leia os jornaes ! . . 

— Para que? para desembrulhar 
uma meada de patranhas , e cançar 
os ouvidos com a leitura de descom- 
posturas pessoaes e nojentas ! ? 

— Não Sr. : mas para saber o que 
vai de novo por esse mundo. 

— Gosto mais de o ouvir em resumo. 

— Bella especulação, pois está bem, 
vá ouvindo : sabe que nas noites de 
26 , para ^27 de Julho o Regimento 
N.** 24 de Infan teria se revoltou em 



90 o ESTUDANTE 

Bragança , tendo prendido o Bispo e 
o Governador , e que pela retirada 
que o N.° 12 de Cavallaria fez , não 
se unindo elle, contra quem marchou 
o general Corrêa de Mello , fugiram 
para a Hespanlia em numero de "Hl 
commandados pelo Brigadeiro de Vis- 
conde de Monte Alegre ? 

— Sim ! . . . e depois ? . . . 

— Sabe que no dia â de Agosto, 
na occasião de se prestar o juramen- 
te em Estremoz , se revoltou o N." 
17 d'Infanteria, e que fugiu para a 
Hespanha commandado pelo Briga- 
deiro Magessi , e acompanhado por 
80 homens de Cavallaria 2 , que es- 
tavam em Villa-Viçoáa ? 

— Tenho idéa d'isso. 

— Não ignora a péssima conducta 
que tem tido o Governo Hespanhol, 
a pezar das representações de nosso 
Governo ; e que animado por isto 
pretendeu o partido revolucionário 
levantar o grito da rebelliào no cen- 



DE COIMBRA. 91 

la Capital , na noite de 21 para 

de Agosto , auxiliado por Caval- 

i í , alguma Infanteria da Policia, 

.aios Soldados de differentes cor- 



— Oh! lá disso sei eu muito bem, 
•rque me achava em Lishoa, e sou- 

oe mesmo que seu plano era de pren- 
derem a Senhora Infanta Regente e 
e os Ministros , para acclamarem Rei 
absoluto D. Miguel; mas não levaram 
a sua avante , porque f< -ram desco- 
bertos , e na mesma noite presos e 
desarmados. 

— Pois, meu amigo, não duvide 
que a pezar de tudo , vai medrando 
a serpente da rebelliáo : uma procla- 
mação incendiaria em nome de Rai- 
nha Carlota e de D. Miguel , distri- 
buída pelas influentes mãos da famí- 
lia dos Silveiras vai exaltando os âni- 
mos pelas províncias , e diz-se que 
houve um levantamento na Praça de 
Almeida cuja guarnição fugiu ioda 
para a Hespanha , e que no dia õ de 
Outubro levantou o Marquez deCha- 



9â o ESTUDANTE 

ves O grita da revolta em Villa-Reai 
de Tras-os-Montes, vendo-se obriga- 
do a fugir ao depois também para a 
Hespanha com mais 7 ou 8 pessoas, 

— Isso não é na verdade das me- 
lhores cousas. 

— E se fosse somente isto , mas 
parece que em Villa-Real do Algarve 
se amotinou o N.° 14 de Infanteria 
com umas 500 praças , e que reunin- 
do-se-lhes 84 homens de Caçadores 4, 
marcharam sobre Tavira onde esta- 
beleceram certo governo provisório 
em nome de D. Miguel , que procla- 
maram Rei Absoluto debaixo da re- 
gência de sua IVIái , á testa de cujo 
governo' pozeram um certo Manuel 
Christovào de Mascarenhas. 

— E que faz o Governo no meio 
de tudo isto? 

— Eu lhe digo : parece que o Con- 
de de Alva, M. de Souza Coutinho, 
e o Bispo de Faro já vão sobre os re- 
voltosos , e que tendo pedido soccor- 



{ DE COIMBRA. 93 

^To , de Lisboa já, por mar, se lhes man- 

('-doróin tropas nas fragatas Pérola e 

azona, e que o mesmo Ministro 

^r. Ouerra , General Saldanha , os 

vai com forças auxiliar por terra. 

— Nesse caso não temos que recear. 

— Julga isso, quero suppo-lo; mas 
a que lastimoso estado não deixam 
elles reduzidos os cofres públicos , e 
os togares por onde passarem ! creia 
porém que temos ainda muito que 
vêr : essa gente que tem fugido , e 
que diariamente vai fugindo é a tro- 
voada que no horizonte se está for- 
mando, O Gabinete Hespanhol leme 
a liberdade , e mui perto a acha elle 
para que náo prepare mais ou menos 
directamente a sua queda , protegen- 
do os desertores , e quem o sabe , de- 
clarando-nos uma guerra : ah ! quei- 
ra o Ceo que me illuda , mas o raio 
não tardará em cahir sobre nós. 

— vSanta Barbara ! São Jerónimo ! 
longe vá o seu agouro . . . 



.^4s o ESTUDANTE 

— Eslá zombando?! pois lembre- 
se do que líie digo hoje... Mas a 
propósito , nao reparava que era íào 
escuro, e parece-me que seria bom 
que nos fossemos chegando. 

— Também o julgo acertado , e 
mesmo porque o ar arrefeceu com a 
noite. 

— Então diga-me quando nos fará 
o favor de sua visita. 

— Receberei esse favor amanhã. 

— Bello, estimarei muito, adeus 
meu amigo , veja que não falte. 

— Rodolfo partiu, e persuadido tal- 
vez de que me havia insteressado sua 
conversa ; duas únicas palavras ti- 
nham sido mais lisonjeiras, para mim 
do que o Marquez de Chaves e seus 
satellites , e o Governo com seus d^ 
cretos: essas duas palavras resoavam 
ainda no intimo de meu coração: Jiè- 
nha filha ^ disse elle , me perguntou 
por duas ve%es se o não tinha visío„ 



DE COIMBRA. 95 

"Oh! tcstimunho de saudade, oh! ex- 
•es^^ao iiiais interessante do que os 
atines do mundo inltiro ! . . B^aria 
se esqueceu de Uiim . , . Maria 
deseia vêr-nie. . Iiicoii paravel dita!., 
'■^ 'Cnho lido a ingratidão e o descuido 
»iào a procurar ! . . . Devo correr 
iallar-lhe, a expor-lhe o motivo de 
minha falta e pedir-lhe desculpa ; sua 
/alma tão cândida e sensiveJ me per- 
doará . . . Amanha , sim logo ao rom- 
per da Aurora partirei a reparar co- 
mo puder o erro que náo devera ter 
commettido. 

Embebido n'estas reflexões me 
fui deitar, passei amais desassocega- 
da noite de toda a minha vida , es- 
perando pela madrugada como o nau- 
fragante affiicto pelo porto da salva- 
ção, cada instante me parecia um 
século , e apenas começou a despon- 
tar o dia , vesti-me e puz-me a ca- 
minho. 



D 6 o ESTUDANTE 



WV«M VWt «M «U««»%«VM*«m«W«MfMIM«V«MWMl««\ ««t VM «M '»%««Vt V«^ 



CAPITULO VII. 

A VISITA. 

.travessei Coimbra sem vêr pessoal 
alguma ; sahi pelo arco da Sofia e 
não tardei em achar-mes na Ribeira de 
Cuzêlhas : esta Ribeira que vai peiv 
der-se no Mondego corre por alguns 
dos mais amenos subúrbios da Cida- 
de ; atravessa vastas e fertilissimas 
planícies , rega pomares e jaitiins , 
corre pelas fraldas pedreg<^^ de va- 
rias collinas , e derrama «om^eu do- 
ce murmúrio a alegria nos logares 
circumvisinhos : próxima d 'es te sitio 
de delicias se achava a quinta de Ro- 
dolfo, d'extraordinaria grandeza, po- 
rém consideravelmente maltratada , 
assim como a casa, que a ser no tem- 
po em que tudo fallava , gritaria que 
lhe acudissem j mais ainda enternecia 



DE COIMBRA, 97 

ao admirador solitário, o poder que 
o (empo havia lido contra as escadas 
da casa collocadas pela parte de fora 
e prin>itivamejite de pedra ; bem se 
poderia dizer — Campus nhi Trcja 
fuit' — De mais de 20 degrács , ape- 
nas restavam dous , ou três , e esses 
mesmos , Deus sabe como \ porém 
que me importava quinta^ casas e 
degráos, quando ia vêr Maria! . . Que 
me importava arrojar-me áquella es- 
pécie de rochedo escarpado, minado 
de bicharocos , e de perigosos prcr 
cipicios , e quebrar as pernas , se 
Maria em breve estaria próxima de 
mim fallando comigo!., qne chda- 
mãos ha que amor não v€?iça} . . Fui 
para diante sem hesitação; escorre- 
guei aqui, agarrei-me acolá, estive 
por muitas vezes quasi a perder o 
equilibrio , e a vir dançando pelo ar 
quebrar os narizes no meio do chào; 
mas lá me segurei conforme pude, e 
recobrando animo cheguei finalmen- 
te á porta... Seis horas da manha soa- 
vam em Santa Cruz. 

Todas as janellas da casa esta- 
vam fechadas ^ acreditei por isso que 

TOMO I. Ò 



98 o ESTUDANTE 

dentro dormiam ainda asomno solto... 
era bem de admirar , quando faltava 
um quarto de hora para nascer o sol! 
Fiquei irresoluto se bateria ou nâo ; 
pouco discreto me parecia incommo- 
dar tâo cedo; mas estalava em desejos 
de bater . . . Maria tinha perguntado 
por mim duas vezes , e que razão 
mais decisiva para dar um rebate de al- 
vorada i . . Resolvi-me , bati , e devo 
confessar que meu coração batia mais 
forte do que eu: esperei cousa de um 
quarto de hora... tornei abater... tor- 
nei a esperar... ninguém me respon- 
dia . . . repeti com mais fúria já meio 
assustado com a tardança, quando me 
perguntaram com voz de trovão . . . 

— Quem diabo está ahi batendo a 
estas horas como um surdo ! ? 

— Sou eu, respondi aífectuosamen- 
te. . . 

— Qual eu nem meio eu , vá pro 
diabo . . . 

— Desejava fallar ao Sr. Rodolfo... 



DE COIMBRA. 99 

Acabadas estas palavras se abriu 
a porta , e um homem de 6 palmos e 
três pollegadas com péssima cara se 
me apresentou: apenas me viu come- 
çou a dar innumeraveis satisfações , 
mandan<lo-me entrar para a sala em 
quanto ia participar a Rodolfo a mi- 
nha chegada : era esta espigada crea- 
tura um dos «riados que tinham fei- 
to a jornada comnosco. Rodolfo nao 
tardou , esfregando ainda os olhes, e 
dando-me excessivas moslras de con- 
tentamento. 

— Seja bem vindo, me disse elle, 
8 muito folgo que chegue a horas de 
almoçar n^esta sua casa. As Snr.^', 
que se estão vestindo, não tardarão 
aqui , mui grata lhes foi a noticia da 
sua visita, e senão veja , veja ... — 
Abria-se uma porta .... Por cima 
das verdes coUinas do nascente rom- 
pi ão os primeiros raios do sol . , . Em 
casa de Rodolfo apparecião os encan- 
tos da serena Aurora com as graças 
de Maria. 

— Minha filha, disse o bom do Ve- 

5 * 



100 o ESTUDANTE 

lho aqui está o nosso companheiro de 
jornada. 

— Sim , minha Snr.* , venho pr 
dir-lhe perdão da minha falta, e c',í 
impolitica que tenho comettido ; mas 
as minhas occupações .... 

— Já o Papá me disse tudo , e não 
vejo que V. Sr.^ tenha motivo algum 
que o obrigue ao incommodo de vir 
vêr-nos não sendo do seu agrado .... 

— Eu sempre tive por dever pro- 
curar as pessoas que meobsequeiam, 
e quando ellas são dotadas dos mere- 
cimentos que em V. Ex.^ se reúnem, 
esse dever se converte no maior dos 
gostos. 

Maria abaixou os olhos e corou, 
mas tudo aquillo com uma expressão, 
que se ali estivera Rafael, a aprovei- 
taria para modelo de uma virgem no 
acto da annunciação , e imagem se- 
ria que até os Ímpios a adorassem ; 
Rodolfo deixou escapar um leve sor- 
riso; e de uma porta que sg abriu 



DE COIMBRA. 101 

appareceu a veJha do nariz maravi- 
lhoso e dos sete dentes de menos, 
olhando a travéz da luneta , e gritan- 
do — Ora viva , seja bem vindo , já 
o fazia peJo menos a três quartos de 
caminho na estrada do Céo. 

— Já lá cheguei, minha Snr.^, lhe 
respondi affectuosamente 

— Depois d'esta primeira entrevis- 
ta , na qual pouco mais se disse, Ro- 
dolfo , tomando seu ar serio ia come- 
çar com discursos políticos , quando 
para evitar nova pagina ccm.o a da 
véspera, fiz ouvidos de mercador, e 
olhando para um piano , perguntei 
se a menina tocava: Rodolfo respon- 
deu inclinando a cabeça com ard'im- 
portancia, e abrindc-o convidou IVla- 
ria a cantar, o que ella fez desempe- 
nhando perfeitamente cem voz divina 
uma peça de Tancredi. Pergunta- 
ra m-me depois se também eia curio- 
so, ao que lhes respondi que desde 
meus primeiros annos me dera apai- 
xonadamente á musica , porém que 
a voz me não ajudava : esta resposta 



103 O ESTUDANTE 

bíistou para que me obrigassem a ca? 
íar , improvisando a modinha segui 
te, que Maria só me dictou. 

Maria no Céo impera 
Próxima a um Deos Soberano; 
Maria desceu á terra 
Mas seu rosto é mais que bumano. 

Move co'a voz o culpado. 
Tira-o d 'onde se perdeu , 
Quando os olhos lhe dirije^ 
A graça lhe traz do Céã 

Baixando Maria á terra. 
Baixou com ella a Clemência; 
Veio dar-nos a virtude 
Formar almas d'innocencia. 

Pedir pelos desgraçados 
Que se culpam sem razão; 
Fazer que se lhes perdoe 
Porque merecem perdão. 

Quando acabei applaudiram-me 
com enthusiasmo , e Maria sobre tu- 
do que muito bem percebeu o senti- 
do dos últimos dous versos. 



DE COIMBRA. 103 

Trouxeram então o almoço, que 
não deixava de vir a propósito, por- 
que o amor a pezar de tudo nâo en- 
che a barriga : aqui pudera eu , mas 
não quero, entrar n'outra digressão 
á cerca dos amantes das novellas , 
dos quaes nunca se fez menção que 
bebessem nem comessem, exceptuan- 
do unicamente os das novellas Ingle- 
zas que almoçam, jantam, merendam, 
ceiam sempre com a competente re- 
ga por não desmentir o caracter na- 
cional', constava o nosso de bello ca- 
fé com leite , ovos , e bem pão com 
manteiga. Rodolfo me fez assentar á 
sua direila, a Veliia á sua esquerda, 
e d'esta sorte ficava Maria defronte 
de mjm : confesso que se aboca pre- 
cisasse dos olhos para comer, teria co- 
mido menos, porém como partes in- 
dependentes, alimentava sem fastio 
com a boca meu corpo, e com os olhos 
meu espirito. 

Depois do almoço disse a Velha 
que seria bom dar uma volta pela 
quinta antes que o Sol espertasse mais: 
a sua lembrança feliz foi solemnemen- 



104 o ESTUDANTE 

te approvada. Puzemo-nos em mar- 
cha, e com difficuldade pudemos des- 
cer a perigosa escada , mas tendo-c 
conseguido, comec^ámos o passeio dan- 
do eu obra<}o direito ao appendice da 
velha , o esquerdo a Maria , e levan- 
do o amigo Patrão na frente , fallan- 
do pelos cotovelos sem que todavia 
eu pudesse entender-lhe uma só pala- 
vra. Andámos um bello quarto d'ho- 
ra , por cima de malvas , d'escalrai- 
5o e de carrapateiros... que perda nâo 
foi para um dos profundos economis- 
tas do nosso tempo nâo topar com si- 
milhante achado para corroborar sua 
opinião , de que se não precisam lu- 
zes de gaz , n'um paiz que produz 
tanto carrapato ; e o mais é que o 
homem tinha razão; que importa que 
a luz seja mais clara , ou mais escu- 
ra, na hora destinada ao descanço, 
e no momento em que poucos deixa- 
rão de andar ás escuras ? . . . De ca- 
vernas sombrias , de cárceres medo- 
nhos sahiram muitas vezes os voos da 
sciencia , que muito é que na escu- 
ridade da noite, medre entre nós um 
ramo d'industria , qualquer que elle 



DE COIMBRA. l05 

seja, quando todos os dias vemos cou- 
sas mais curiosas medrar ás claras?! , 
deixemos que haja boa iuz nos paizes 
da gente que tem os olhos encataracta- 
dos, por causa dos ladroes nocturnos, 
para que os lombriguem , catrafilem^ 
e dependurem , ou esganem ; quanto 
aos nossos tem tão boas qualidades 
que nunca se lhes acham crimes , 
d'aonde resulta que andem fazendo 
galantarias , por essas ruas , cojno o 
diabo no dia de S. Bartholomeu .... 

A mana de Rodolfo , começan- 
do a sentir-se cançada , foi-se assen- 
tar ao pé do poço da nora ; o velho 
foi fallar com o caseiro, e trabalha- 
dores, que a pequena distancia esta- 
vam , Maria não me largando o bra- 
ço se foi deixando L var, como em 
passeio, sem que no entanto nos afas- 
tássemos de modo que não fossemos 
vistos pela velha , que de quando em 
quando nos deitava a luneta. 

— A menina tem muito máu cora- 
ção , lhe disse eu , causar-me tanla 
penal... ílu e:. 



lòè o ESTUDANTE 

— Não sei no que lhe tenha feito 
iiial!..? 

— Acreditar que me é indifferen- 
te vir a sua casa ! 

— Esteve tanto tempo sem visi- 
ía-la .... 

— Certamente ; mas as minhas 
obrigações . . . 

— Pois nem uma hora quando lhe 
pareceu tào cedo separar-so de mina 
depois de dois dias ! ! ! julga que me 
nào lembro de suas palavras ? 1 

— Ah . . . deveras reparou no que 
eu lhe disse ? . 

— O Snr. figurou-se-me tão bom! . . 
tão sincero! . , . 

— A menina é um Anjo, repliquei 
no mesmo instante com arrebatamen- 
to, e chegando sua mão a meu pei- 
to ; sinta , sinta , lhe disse , o que eu 
mesmo nunca senti , veja como bate 



DE COIMBRA.' Í07 

meu coração , duvide , se pode , da 
impressão que produziu em mim . , . 
ia dizer-ihe mais quando Rodolfo 
aproximando-se , nos deu indicies 
de contamento j^la obra de seus tra- 
balhadores , e nos aconselhou , ven- 
do que o sol aquecia , que nos reti- 
rássemos , conselho que por fortuna 
seguimos im mediatamente, sem o que 
teríamos achado a velha , que dermia 
a som no solto, de molho dentro do 
poço da nora. 

Chegados a casa , despedi-me , 
Deus sabe com que pesar, de meus 
hospitaleiros amigos , e da ingénua 
e seduclora Maria, que não tinha po- 
dido disfarçar para comigo os fervo- 
rosos sentimentos que um só momen- 
to despertara em sua alma : promet- 
ti-lhes que voltaria amiudadas vezes, 
e não deixei de melhor ainda satisfa- 
zer esta promessa por meio da qual 
ganhei successiva e completamente 
o affecto da Tia , do Pai , e o cora- 
ç"o da Filha, na qual se arreigava/:: ^ 
cada vez mais , es puros s< ntimcnlos 
de uma primeira inclinação. 



los o ESTUDANTE 



itAAVWtVMMMM.M/I^MX^l^m^MVMVMVM/MIXlWtVWWfVUVVXlM^MItWM 



CAPITULO VIU. 



MAIS UMA PAGINA DHISTORIA. 

'or caminho para mim de flores ia 
correnio o carrancudo velho que nun- 
ca morre, o incançavel tempo, quan- 
do veio o terror amedrontar os habi- 
tantes de Coimbra : algum Profeía 
havia fallado pela boca de RodoSfo: 
os desertores Portuguezes que se acha- 
vam na Hespanha, protegidos clan- 
destinamente pelo Governo Castelha- 
no tinham assaltado , e assolavam as 
províncias de Traz-os-Montes , e da 
Beira, cujo populacho, verde ainda pa- 
ra a liberdade, com elles fraternisava 
todo em sentimentos. O Marquez de 
Chaves , á frente de dez a onze mil 
homens , com a artilharia que tirara 
da praça d' Almeida corria, qual faisca 
eléctrica , pelo norte de Portugal. 



Wc 



DE COIMBRA. 109 



Jm exercito Hespanhol , denomina- 
o de observação , mas com fins mui 
duvidosos cobria a retaguarda dos 
insurgentes. Precipitadamente se ar- 
mavam os Académicos para formar 
em um batalhão pessimamente disci- 
plinado ... Os Académicos , excepto 
eu e mais alguns , que professando 
idéas liberaes , reflectiamos com tudo 
nos verdadeiros fins que nos haviam 
levado a Coimbra, e náo queríamos 
voltar de lá sabendo contramarchar 
á direita , e cá esquerda , ou marchar 
a três de fundo , servindo-nos de pre- 
texto o patriotismo para ficarmos toda 
a vida feitos ursos racioiíaes , ou ir- 
mos dando os tenros ossos a pequena 
porção de Ilhistres Pe^^íioiíageíis jiara 
fazer com ellesdegráos na escada po- 
litica de suas ambições. 

Apenas formado saiu o Corpo 
Académico de Coimbra com umas 
500 a (500 praças, e foi reunir-se ás 
forcas do General Conde de Villa-Flôr 
que tinha esLafcelecido seu acampa- 
mento ao pé de Coruche da Beira : 
no dia 9 de Janeiro atacou este Ge- 



IID o ESTUDANTE 

neral as forças rebeldes superiores em 
número, e posições nas montanhas 
próximas á Serra da Estrella: a acçào 
durou desde a uma hora até á noite, 
e nessa occasiãa se terminou com ter- 
ror dos rebeldes pela noticia do de- 
sembarque de forças Inglezas em Lis- 
boa; á a6 mil bifsteks acabavam de 
desembarcar effectivamente , e 189 
bocas de fogo , artiliíeria sufficiente 
para ^25 , ou 30 mil homens : parte 
d'esta gente, que o incomparável Be- 
resford commandaria se o tivessem 
querido acceitar, vi eu entrar em 
Coimbra no dia 19 de Janeiro de 1827, 
aonde foi estabelecer o seu ponto de 
observação. 

Pequena trégoa produziram taes 
acontecimentos , que muitos dos ini- 
migos chamou ás fileiras do sempre 
leal Villa-Flôr; á frente de novos su- 
blevados entrou arrogantemenie em 
Traz-os-Montes o Marquez de Chaves 
no dia 25 de Fevereiro com mandan- 
do uma Divisão composfn de 4 mil 
Iníaníes, iM){) cavallos , 10 bocns de 
fogo, e graiide número de guerrilhas: 



BE COIMBRA. 111 

occupou Chaves, e adiantou-se alé 
ao Miniio aonde se defendeo corajosa- 
mente o Coronel Zagallo com 400 ho- 
mens por espaço de 4 horas^ retiran- 
,do-se por íira com grande risco dian- 
te de forças táodesiguaes, erefugian- 
do-se no Porto. [*] 

O Marquez de Chaves , e sua 
Mulher , que muito se interessava no 
bom êxito dos projectos de seu Mari- 
do , avançaram a (íuimaràes , e Bra- 
ga , e fizeram alto para darem alen- 
to ás tropas, cobrindo-lhes Telles Jor- 
dão (que Deus tenha na santa Gloria) 
o flanco esquerdo na ponte deMurça. 

O Porto distava só 10 milhas do 
Marquez: muitas proclamações foram 
espalhadas n'aquella cidade promet- 
tendo segurança e ordem no caso de 
submisscào , ou ferro e fogo em caso 
de resistência ; n'ellas se asseverava 



j[*] Eis o que geralmente se publicou 
acerca d estes factos, aos cjMae- não aJMnlo 
commento aljínm , para não sahir do6 íiuú- 
tes d'lliblwriador imparcial. 



lis o ESTUDANTE 

que pelo primeiro tiro dos Inglezes 
entrariam im media ta mente em Por- 
tugal 30 mil Hespanhoes ; no entan- 
to o General Stubs, Governador do 
Porto , mandou preparar tudo para a 
defeza; 1*200 homens de linha lhe fo- 
ram enviados do Corpo do General 
Conde de Villa-Flôr, muitos volun- 
tários se armaram , e juntos alguns 
contingentes bem de pressa appare- 
ceram combatentes não só para a de- 
fensiva , mas até para a ollensiva. 

No dia 2 de Fevereiro se reuniu 
a Vilia-Flôr, chegado de Penafiel , o 
Marquez de Angeja , e marcharam 
sobre Guimarães e Braga , aonde en- 
traram no dia 3 , e a i na Ponte do 
Prado , para além da qual se havia 
entrincheirado o centro das forças ini- 
migas : a linha dos rebeldes foi ata- 
cada pelas tropas do Bravo Conde de 
Villa-Flôr, que, apesar de lhe terem 
cortado um dos arcos da Ponte, obri- 
garam á fuga os insurgentes até á 
Ponte da Barca , aonde o 1 7 de linha 
se defendeu todo orestod'aque!le dia, 
pago pelos inimigos a troco de âGO 



DE COIMBRA. 113 

mortos , feridos e prisioneiros , e 4 
peças de Artilheria : no dia seguinte 
foi batida a retaguarda da divisão da 
esquei*da pelas forças do General Cor- 
rêa de Mello , sem que eila tivesse 
tempo de effectuar a ordem que aca- 
bava de receber de se refugiar na 
Hespanha. 

D'esta sorte só restava a retira- 
da aos revoltosos , a quem os rigores 
da estação e fadiga das tropas leaes 
favorecia, e o corpo Académico, que 
tinha dado seu passeio , e segundo 
dizem asmas línguas, papado muita 
somma de gallinha de mofo , a ponto 
mesmo de alcunharem esta sua cam- 
panha , a campanha das gallinhas , 
chegou a Coimbra coberto de pennas 
e de lama : com menor enthusiasmo 
se dissolveu do que se formou , e re- 
cebeu como gratificação de sua gloria 
a mui grata noticia de que não se- 
riam abonadas as faltas dos illustres 
Campeões que haviam trocado a ba- 
tina pela espada : tanta força d' ingra- 
tidão revoltava oespiriío; masrevol- 
tasse-se ou não , teriam elles perdi- 



114 o ESTUDANTE 

do o anno , se não fosse o patrocínio 
do General Saldanha , Ministro da 
Guerra. 

Tudo parecia ter acabado, c/uan- 
do Telles Jordão com uns 1:500 ho- 
mens passou o Tâmega na Ponte de 
Amarante, destroçou as milícias de 
Basto , tomou Canavezes , e se adi- 
antou até poucas léguas do Porto; 
mas Corrêa de Mello, vindo de Bra- 
ga , bem promptamente o forçou a^ 
dar-lhe as costas , e a passar fugiti- 
vamente no dia 14 de Fevereiro pela 
ponte do Cavez , para se achar pou- 
co depois em Chaves tramando com 
os demais collegas nova insurreição: 
quando no dia 20 , pela discórdia dos 
Chefes, e insubordinação dos Soldados^ 
se declarou formal revolta , na qual 
pediam alguns corpos, as cabeças áe. 
Telles Jordão, e Teixeira: tão ines- 
perado acontecimento veio pôr ter- 
mo a seus nefandos projectos , e obri- 
ga-los á fuga , dafndo ás íropas libe- 
raes satisfactoria enirada em Chaves, 
aonde muitos dos inimigos passaram 
a ser irmãos d'armas» 



DE COIM-BRA. 115 

Por espaço de vários dias , só 
guerrilhas appareceram em pequeno 
número , nào deixando todavia com 
isto d'incommodar nossas tropas por 
meio de marchas , e contramarchas; 
até que se soube que no Outeiro se 
achavam reunidos os rebeldes em nú- 
mero quasi de 3 / 000 : sobre elles 
marchou immediatamente o General 
Corrêa de Mello, que os dispersou, 
obrigando-os a fugir para a Hespa- 
nha , cujo governo por então havia 
ordenado que desarmassem os trans* 
fugas , e que os afastassem das fron- 
teiras , medida que temporariamente 
pôz um termo á guerra civil. 

Terminou a guerra civil ! ! ! ora 
pois ! , . . muito obrigado ! ! I deixa- 
ram os Portuguezes de se matarem uns 
aos outros sem saber porque! . . por- 
que ? . . . tem bem que vêr . . . para 
manutenção do altar , porque se pre- 
cisam para esse fim homens no cam- 
po de batalha expostos ás balas e ao 
fogo , tão máu cá neste mundo como 
sem dúvida o do inferno o é no ou(ro; 
e para o Céo as almas de algumas. 



116^ O ESTUDATíTE 

Santas feitas pelos piedosíssimos Pa- 
dres e por elles conduzidas com a ca- 
ridade aos encomodos das esperanças 
em quanto seus Pais, Maridos, ou Ir- 
mãos vão fazendo rosários de Ave- 
Marias de chumbo com Padre Nossos 
de ferro , e Ladainhas de pragas , e 
dando seus passeios de sete léguas por 
dia!... Sem saber porquel Galante é 
essa! porque não pôde cada qual dei- 
xar de ter sua doze de distracção no 
mundo, e assim se diverte o mesqui- 
nhíssimo , e rasteiro plebeu , como o 
elevadíssimo Senhor; aquelle com fo- 
gos de vistas, arlequins e touros; este 
com touros algumas vezes, pondo em 
outras tudo a ferro, e a fogo; movendo 
massas enormes , destruindo cidades, 
e sacrificando exércitos : ora no meio 
d'estas festas é que sempre apparece 
o bom e o bonito. . . Dizem as gazetas 
que o General Escala Favaes desí)a- 
ratou , aprisionou , queimou , subju- 
gou e matou a um fuão de anzoes , 
fazendo-lhe dez mil estrepolias entre 
mortos e feridos , sem que perdesse 
dos seus mais do que um, morto apo- 
pletico e outro de medo . , . óptimo... 



DE COIMBRA. 117 

examinemos porém a cousa : o dito 
heróe esteve olhando para o combate 
por um elegante ocul» , na distancia 
de duas léguas ^ os miseros Soldados 
expondo o peito aos pelouros e á me- 
tralha , morrendo como mosquitos 
(apesar das farofias dos Sr.® Fanfar- 
rões Gazeteiros, fecundos n'essa dro- 

E as danças pr'a o Soldado, e a final, 

Lá se foi dando o premio ao General! 

Voilá mes amistoid ce que Je sais. 



118 o ESTUDANTE 



1l«tM««M«««A««M«M«M«M«M<tlMnWM)MMni«MW«VWV«/MW«t««VtlM««» 



CAPITULO IX. 



VENTURA, E DESVENTURA. 

©entimento mais entranhado do que 
o amor não cuido eu que no homem 
o possa haver, e com tudo nenhum 
sae mais patente por mostras do qut; 
este : quanto mais se julga enco- 
brir esta febre, esta loucura, os pra- 
zeres e desgostos que pelas horas a- 
diante se nos vão revezando tanto 
mais os nossos gestos, e a mais insi- 
gnificante de nossas palavras nos atrai- 
çoam: eis o resumo fiel do que se pas- 
sava entre mim e Maria; tanlo subi- 
ra de ponto o nosso amor que por de- 
mais houvera sido querer disfarça-lo 
aos olhos do Pai . . . Oh que sim . . . 
adorava-me extremosamente! . . como 
lhe havia de eu pagar com ingrati- 
dão ? ? ? Muitas vezes me deixou Ro- 
dolfo Ter nào só, que tudo percebia; 



DE COIMBRA. 119 

como também que se não oppunha a 
esta ardente e mutua inclinação por se 
fiar nos meus nobres sentimentos, boa 
criação, e probidade: similhante con- 
fiança bastava a conter qualquer ho- 
mem de bem nos devidos limites, sen- 
do o seu amor, qual o meu o era, não 
aquelle de que se pagam os senti- 
dos , e que fenece no prazer*, mas o 
que levanta a alma até á esfera do 
sublime , que anima suas acções , e 
as ennobrece , que enche de fogo as 
palavras, e as despede envoltas n'um 
raio de luz celeste: em quanto a dis- 
córdia, fiiha primogénita do capricho, 
e da ambição estava por um lado in- 
flammando corações mesquinhos, e 
tingindo a terra de innocente sangue, 
para nós corriam por outra parte as 
horas no regaço da paz , fazendo os 
mais doces protestos de nos unirmos 
para sempre : Maria era o único ob- 
jecto que eu sinceramente ambicio- 
nava; por ella agradecia á natureza 
de me haver dado a vida, e se a des- 
graça o exigisse houvera dado ávida 
por ella: estuda, me dizia muitas ve- 
zes a rainha interessante companhei- 



I 

igO o ESTUDANTE 

ra, conclue dignamente o ramo ao 
qual te dedicaste , meu Pai é bom, 
conhece tuas boas qualidades, easde 
tua familia, sabe que nos amamos, e 
será feliz, satisfazendo nossa mutua 
inclinação: eu seguia religiosamente 
seus dictames; exigia que estudasse, 
nunca tive occupação mais agradável 
do que o estudo^ quando dava uma 
boa lição corria adizer-llio; tinha um 
instante de liberdade ia-o passar jun- 
to d'ella; todos me olhavam com es- 
tima, todos elogiavam meu compor- 
tamento e a etíima e os elogios de 
todos não valiam a meus olhos tanlo 
como um sorriso de IVlaria. 

D'esía sorte se passavam rapida- 
mente os mezes; já estávamos no ve- 
rão, quando veio um desastrado acon- 
tecimento amargurar meus dias : a 
inesperada morte de meu Pai, do me- 
lhor , do mais verdadeiro amigo ! . . . 
n'esta occasião tenebrosa, é que Ro- 
dolfo e toda a sua -familia me oflere- 
ceram as maiores provas de verdadei- 
ra amizade: na hora em que o coração 
afflicto se fecha a tudo quanto oro- 



DE COIMBRA. 121 

deia, éque as vozes do amigo, vozes 
por sua celeste doçura Ião estranha- 
das sobre a terra, sào a única c(.usa 
que tem virtude para o repassar até 
ao intimo como bálsamo consolador 
de suas feridas: vi correr aslagiimas 
da amizade, do airor e da inncctn- 
cia; rebentaram as mini as cem n.ais 
/orça; mas r>omisti;rar-se cem r.Cjuel- 
las se fcram suavisando. Maria , cu- 
jas mãos eu nâo c usara com meus lá- 
bios profanar, apertcu e beije u asmi- 
nhasl . . . oh! caricias tào consí laderas, 
desusadas, novas inteiramente para 
mim ! . , novas ! . . que digo eu ? ! úni- 
cas na minha vida ! 1 !Ah cjuaníosuas 
vozes exhalavam dobrada meiguice 
no meio de minha insoíTrivel afílio- 
çào ! . como sollicita se esmerava em 
di^lrahir me ! . . IVIaria era um Anjo, 
náo creatura terrestre. 

Entretanto se pôz o ponto na 
Universidade, e começaram os actos; 
fiz ambos os meus mui dignamente, 
Maria e^xullou de prazer; mas chegava 
a hora de eu partir para Lisboa nas 
yiCm^itis grandes : que pesar o ter de 
:\io 1, G 



v^ 



122 O ESTUDANTE ,Í 

curtir longe , e tão longe d'aquelle=. 
estimáveis entes dous eternos mezes 
de amargura e de saudade ! . . dous 
mezes?!. não!... dous mezes é fraze que 
só um feliz pôde empregar; não eran^ 
dous mezes, eram sessenta dias, eram 
mil quatro centas e quarenta horas, 
quer veladas quer dormidas , todas 
cheias de penas cruéis , de dezejos 
vãos, d'esperanças incertas, de quan- 
tos tormentos Satanaz manipulou pa- 
ra mantimento e veneno de namora- 
dos. 

Parti finalmente com a promessa 
e certeza de ser correspondido por 
escripto : alguma cousa era isso , 
mas em comparação do que eu até 
ali gozara! ! ! ah ! que de todos os mo- 
dos de amar nenhum ha mais atroz do 
que o amar pelo correio ! . . Quando 
cheguei a casa senti ao entrar, aba- 
lar-se-me o coração; quanto me cer- 
cava era luto e tristeza; mas a mi- 
nha alma tinha nascido temperada 
para os revezes que tão profusamente 
a aguardavam por toda a estrada da 
vida. -V?^ 



DE COIMBRA. 123 

Passei as ferias buscando distrac- 
ções, enão encontrando senào saitda" 
4es^ saudades do melhor dos Pais, e 
saudades de Maria , táo tecidas , tào 
inseparáveis umas das outras que nun- 
ca se me apresentavam umas , sem 
que as outras asnào viessem realçar. 

Apenas cheguei, já uma carta 
de Maria me esperava: oh ! quanto 
com ella se melhorou o meu cruel es- 
tado! . toda respirava a verdade; ctn- 
tinha poucas frazes , mas sinceras, 
e nenhuma d'essas estéreis expres- 
sões de que se servem os amantes da 
moda; li-a, e reli-a mil vezes imprimin- 
do-lhe meus lábios , e guardando-a 
depois junto a meu peito : da minha 
longa ausência se queixava ella sus- 
))irando anciosa pelo momento de me 
lornar a ver: lambem me escreveu 
Rodolfo com franqueza e amizade, 
pedindo-me que lhe mandasse dizer 
alguma cousa sobre o estado de Lis- 
boa; confesso, que trazendo na mào 
estas duas cartas não pude deixar de 
me rir ao comparar a substancia eno~ 
t' 6 ii 



1^4 o ESTUDANTE 

ta de ambasj parecia-me estar vendo 
um jornal, onde Rodolfo escrevera o 
artigo de fundo, e Maria o chamado 
de folhetào, ou de folhetim; ou antes 
para foliar mais segundo meu cora- 
ção, o de folhetim ou folhetào, ou o 
que quer que seja, era o de Rodolfo, 
e as adoráveis paginas de Maria o ar- 
tigo de fundo. Muito me enfadava o 
ter de responder a uma consulta Po- 
litica; mas que remédio? Quem se o- 
brigou a amar diz o rifíio, que se ob- 
rigou a padecer , o que outro rifão 
confirma, se é que o confirma dizen- 
do : que quem ama o frade , ama o 
capêllo, e outro: que se ntão pescam 
trutas a bragas enxutas , e por fim 
outro que é: quem quer uste que lhe 
custe: respondi-lhe pintando- lhe a agi- 
tação da Capital, onde parecia que só 
se esperava pelo grito da rebellião, 
preparada já por muitos Padres que 
abertamente declamavam contra a 
forma de Governo estabelecida , fa- 
zendo-lhe vèr o vergonhoso descara- 
mento com que se deixavam os crimes 
impunes, pelaapathia, capricho, in- 
capacidade, ou indigna currupção das 



DE COIMBRA. 125 

authoridades: disse-lhe que sefallava 
«'unia conspiração sem que se dessem 
as providencias para a prevenir ; e 
muitas outras cousas das que me pa- 
reciam mais interessantes , não pou- 
pando qunlquer d'aquellas que podas- 
sem dar-lhe claro conhecimento do 
estado critico da época. . . 8im, meus 
leitores, d'aquelle estado a que sempre 
se reduzem csPaizes, quando nutrem 
dentro de si a fúria das revoluções, 
6 a vingativa inimizade que lesulta 
dos diversos partidos. 



1%& o ESTUDANT& 



'ai>%«w»*»«iW^<^W'>%»*»«|vv><<»%«^%i<i «i »wtw»Mi%«^M>i»>» ^ » w <w«^wi»>w»^ 



CAPITULO X. 

«fiMOS OBRA. 

amos meu senhor, toque para Coim- 
bra e chegar depressa que tem razões 
para isso; poupe-se, e poupe-nos a des- 
cripçào das terras, esuccessos da jor- 
nada y trate por ora só de desabafar 
da falta de arque sentiu quando che- 
gou á quinta de Rodolfo, vendo certa 
cara desconhecida e aziaga, certa ca- 
ra de lua cheia de um rubicundo Por- 
dre mestre , cara que era digno ap- 
pendice , a um chorudo cachaço , e 
hemisférico ventre criado nos jejuns 
do claustro, e nas mortificações da 
penitencia : fradinho consolador que 
acompanhava a Maria para todos os 
lados, que no piano elogiava a ligei- 
reza de seus lindos dedos , no basti- 
dor se extasiava com o primor de seus 



DE COIMBRA. 1^7 

debuxos, e por toda a parte a seguia 
e perseguia com o apostólico fim de 
a converter .... Estou certo de que 
ninguém duvidará nem do comporta- 
mento de Maria, nem da perseveran- 
ça de sua Reverendissima. 

Procurava Rodolfo todos os meios 
de despedi-lo por bons modos, esuas 
moças de pau; mas enganava-se, por- 
que o negocio era para pau sem mo- 
ças, como o êxito delle o veio a de- 
monstrar : em quanto a mim o que 
senti , nem o posso descrever , ntm 
bem o sei ; o que estive por instan- 
tes foi para saltar no frade e engu- 
IJ-Io. 

Nem um só dia se passava sem 
sua Reverendissima vir a casa de Ro- 
dolfo; jjxem um só dia se passava sem 
eu me arrufar cem Maria e haver de 
parte a parte boa doze de cara de 
réo : o certo é no entanto que nenhu- 
ma razão havia para eu a increpar, 
porque só Rodolfo era o culpado: bus- 
quei por isso occasião opportuna e 
fallei-lhe sem rebuço: 



123 o ESTUDANTE 

— Mi3U amigo, me respondeu ove- 
lha, por muito que deteste essa gen- 
te, não a odeia como eu; são homens, 
gerahnente fallando, que á sombra da 
Ktíligião se nutrem do alheio ; que 
por toda a parte seduzem as filhas, 
enganam os maridos, e arruinam as fa- 
mílias-, que tramam revoluções e por 
meio do confessionário as levam aef- 
feito ; qae tudo espiam , que atrai- 
çoam a todos, e que debaixo da capa da 
Santidade eda Abstinência, praticam 
toda a sorte de Intemperança ; estes 
são por nossos peccados os degenera- 
dos frades de que mais abunda esta 
depravada época *, taes se tem feito 
com a riqueza , com o luxo , com a 
ociosidade , com a convivência das 
grandes cidades , com a ingerência 
clara ou occulta em todos os grandes 
negócios , estes filhos bastardos d'a- 
quelies Varões Religiosos, que do fun- 
do dos seus desertos ajudavam e aben- 
çoavam o mundo; enchiam o Céo de 
almas , e deixaram recheadas as his- 
torias de tantas mostras de si era to- 
do o género de virtudes e talentos: 
são como os fidalgos , que entendera 



DE COIMBRA. 129 

poder dormir á sombra de suas arvo- 
res Genealógicas , e por isso mesmo 
qu,eseus predecessores fizeram muito, 
julgào passar agora a vida sem elles 
fazerem nada que bom seja : alguns 
frades ha ainda em verdade, e eu os 
conheço e respeilo, dignos de Ioda a 
veneração; mas esses confirmam porsua 
boca o mesmo que eu acabo de dizer, e 
quanto mais n'elles pozermos os olhos, 
mais devemos detestar aquelles, que 
por seus vicios e crimes de tào boa 
e saudável instituição fizeram um ver- 
dadeiro flagello que tào assolados traz 
os reinos, e nenhum mais do que o 
nosso. Perguntar- me-ha , continuou 
Rodolfo, porque em minha casa con- 
sinto este, responder-lhe-hei que é fi- 
lho d'um meu amigo intimo de outro 
tempo, eque não posso sem mais nem 
menos po-lo na rua. 

N'sse mesmo dia, achando-se pre- 
sente Frei Barnabé puxou Rodol ib a 
conversação para a maledicência , e 
ponderou que haveria sem duvida al- 
guém que censurasse as amiudadas 
visitas que elle fazia a um logar pro- 



130 O ESTUDANTE 

fano , buscando tanto as distracções 
do inundo depois de se haver votado 
^ Deus, e ao Altar ; que não lhe fe- 
chava a porta ; mas que lhe parecia 
acertado que viesse menos vezes, por 
que os homens buscam sempre des- 
figurar as cousas , e tornar em ridi- 
culas as mais innocentes : ouviu se- 
renamente o Padre Mestre estas pala- 
vras, e levantando para o Ceo os olhos 
exclamou com as mãos postas: — Fa- 
ça-se a vontade de Deus . . . fiat vo- 
luntastua^ — e começou a vir menos 
vezes demorando-se mais de cada vez, 
nâo deixando por isso de me fazer an- 
dar com a cabeça a tombos; em quan- 
to por outro lado produzia a Politica 
o mesmo eífeito na dos outros Estu- 
dantes, que por meio de duas illumi- 
nações festejavam o juramento de D. 
Miguel á carta Constitucional. (*) 



[*] Estas duas illumi nações forâo feitas 
á custa, uma dosConstitucionaes, na Trin- 
dade ; e a outra dos Ilealislas nos Lóios ; 
de cada uma d^ellas se deitaram foguetes 
como em desafio na direcção da outra. 



©E COIMBRA. 131 

Nâo ha sentimento mais terrivel 
do que o ciúme. . . . Adoeci e nâo sei 
se houvera escapado, anáo serem os 
soccorros de Rodolfo, e de sua famí- 
lia ; depois de restabelecido fui logo 
visita-lo ; antes nào fora , porque lá 
torneia achar o Frade maldito. Rodol- 
fo conheceu o que se pagava em mim, 
e querendo socegar-me disse. — Mui- 
to gosta o Snr. Frei Barnebé d'estes 
sities ! . . Pois náo creio que os ares 
d 'aqui lhe aproveitem, nem desejara 
que o prazer de vir ver-nos lhe rou- 
basse tantas horas a suas occupações 
Religiosas. 

Frei Barnabé deu um sorriso ama- 
rello , e eu que não quiz perder tão 
beila occasião de desabafar , aceres- 
centei. « Tantos Frades ha em Portu- 
gal , que não pode cada um d'elles 
ter muito que fazer » 

Frei Barnabé lançou-me um olhar 
colérico, erctirou-se depois dehavep 
por algum tempo aífectado meiga jo- 
vialidade; deixando-nos na certeza de 
que nâo tornaria. 



13£ o ESTUDANTE 

Commentámos entàoomáu esta- 
do (los Negócios Políticos pela recen- 
te acclamaçào de D. Miguel Abso- 
luto; o chuveiro de prisões, e demis- 
sões , de grande numero de officiaes 
de todos os graus , e capacidades ; a 
sabida do Reino dos Condes de Villa- 
Flôr , da Taipa , e do General Clau- 
dino-, eoattentado horrível d'um pu- 
nhado d'Academicos contra seus pró- 
prios Lentes . . . Fomos dar um pas- 
seio pela quinta , e sendo noite reti- 
rei-me para casa. 

Com as DiíTerenciaes , e ínte- 
graes de Mr. Bezout , e os raios Lu- 
minosos , e as Centelhas Eléctricas 
do empoado e carunchoso Dolabella; 
ou próximo da encantadora Maria, 
ouvindo como extasiado mil protestos, 
mil suaves e animadas expressões , 
fugiam os mezes sem que eu o per- 
cebesse *, quando pela Cidade se es- 
palhou a noticia de haver no Porto 
rebentado uma revolução : dizia-se 
que Francisco José Pereira , Coronel 
do 6.° Regimento de linha , constan- 
do-lhe que estava para ser preso , e 



DE COIMBRA. 133 

desligado fizera uma falia a seus sol- 
dados , e marchara á frente d'elles 
para o Campo deSanío Ovidio , dan- 
do vivas ao Snr. D. Pedro, a Sua Au- 
gusta Filha, e áConslituiqào ; e que 
n'esse campo se lhe haviam reunido 
os Hegimenlos 18, 4 de Artilheria, 
e vários outros, formando seus Che- 
fes uma junla m ditar em nome da 
Snr * D.Maria Segunda, Rainha de 
Portugal, e da Constituição outor- 
gada por seu Augusto Pai. 

A pesar de eu escutar sempre 
uma voz que me dizia : ioma caute- 
la , toma cautela , meu amigo : par- 
tidos são um ramo de Industria e um 
jogo aonde separa a vida contra o po- 
der. A pesar do pouco abalo que me 
dava a politica tanto Nacional, como 
Estrangeira*, só por que Rodolfo se 
interessava n'ella , corri logo adizer- 
Ihe o que acabava de se divulgar; 
mas com quem esbarraria eu quando 
cheguei alagado em suor , senão com 
Frei Barnabé ! ' ! ! Ah ! que não sei 
de nqjo como o conte ; quem olhasse 
par a minha cara n'aquelle instante. 



134 O ESTUDANTE 

não deixaria de me tomar por algum 
Pharizeu de Xabregas. 

Rodolfo dormia a sesta , porém 
eu que trazia comigo óptimas noti- 
cias , isto é , excellentes armas para 
ferir porfundamente o meu rival, co- 
mecei a gritar: — venha cá meu ami- 
go , venha cá . . . Rebentou no Por- 
to uma revolução — (e para metter 
ainda inais o ferrinho no Frade , ac- 
crescentei : ) — Dizem que por um 
Decreto vão ser abolidos todos os Con- 
ventos e secularisados os Frades. 

Rodolfo acordou , e veio a meus 
gritos , e Frei Barnabé fazendo-se 
mais vermelho do que um pimentão, 
exclamou : — Que é isso lá de Con- 
ventos! ! ? Quem será o impio que se 
atreva a manchar a Santa Religião, 
e a perseguir seus Ministros ! ! ? 

— Snr. Frei Barnabé , lhe tornou 
Rodolfo , que acabava de chegar es- 
fregando ainda os olhos , nao é por se 
abolirem os Conventos que se ataca 
a Santa Religião , nem por esse mo- 



DE COIMBRA. 135 

dò se perseguem seus Ministros : a 
Religião Christã é inatacável pela pu- 
reza de suas base<, nem foi aos Con- 
ventos confiada a manutenção do Culto 
Religioso do Estado. Os seus Ministros 
náo se atacam abolindo os Conventos, 
porque náo deixam, secularisando-se^ 
de ficar sendo Ministros da Keligiào, 
e livres de desempenhar os cargos de 
seu Minisíerio conforme' lhes dieta r 
a consciência. 

— Certo é, respondi eu, que mor- 
ria por me engalfinhar no Reverendo; 
e os Conventos servem só para man- 
ter á tripa forra uma chusma de man- 
driões. 

— Ora admiro, disse o Frade com 
algum calor , como consente o Snr. 
Rodolfo que ponha um Estudante os 
{lés em sua casa ! 

j. 

— E porque não , tendo tão boas 
qualidades ! 

— Olhe que são frescas ! . . pode- 
as tomar por modelo ... 



136 O ESTUDANTE 

— Sabe que mais, disse eu ale- 
vantando a voz, entre um Estudan- 
te e um Frade pouca diflferença exis- 
te ás vezes nos trages : no cumpri- 
mento dos deveres sociaes, na honra 
e na vergonha talvez que nào deixe 
de haver bastante differença . . . 

— O Snr. Académico é um inso- 
lente, e se nào íosse respeitar esta 
casa . . . 

— Já o Snr. a respeita pouco insul- 
tando a quem eu prezo como meu fi- 
lho . . . 

— Como seu filho! ! ! ah! , . ah! . . 
ah!. . 

— O Snr. pensa que brinca comi- 
go?!! 

— Eu não brinco , rio-me do que 
diz . . . 

— Oh ! grandissimo maroto . . . 

— Meu Pai . . . Meu Pai . . . 



DE COIMBRA. ] 37 

— Meu Mano . . . Meu Mano . . . 

— Ponha-se já no meio da rua . . . 

— Tào bom , é você como elle . . . 

— Rua . . . rua . . . pedaço de ma- 
riola — e Rodolfo pegando logo no 
banquinho do Piano, começou a obse- 
quiar o monstruoso dorso do Reveren- 
do com a amiudadas tangentes, a que 
eu fui batendo por outro lado o compas- 
so com certo cabo de vassoura quen' um 
canto achei muito azado. Frei Barnabé 
tratou immediatamente de se pôr ao 
fresco- mas no meio de tanta confusão, 
que se esqueceu do máu estado da es- 
cada , e cahiu por cima do Caseiro 
que ao som d'aquelle barulho vinha 
correndo com uma fouce roçadoura, 
e que debaixo de táo enorme grana- 
da foi de ven'as a terra pedindo em 
altas vozes misericórdia. O Frade, 
posto que mui bem convidado, le- 
vantou-se logo , e bofou a correr em 
quanto no meio do chào berrava o 
Caseiro , e a seus berros acudiam os 



138 O ESTUDANTE 

trabalhadores , que vendo o Frade a 
fugir o seguiram por algum tempo 
grilando. . . agarra^ agarra, agarra, 
que é ladrão : porém Frei Barnabé 
já se tinha adiantado muito, e ven- 
do os homens que o não poderiam 
apanhar pararam , deixando desgra- 
çadamente o meu rival , livre de sua 
perseguição , e recolhendo-se, ao se- 
guro , e asyio de seu mosteiro , a 
afogar como certo Sargento de entre- 
mez a vergonha da derrota no fundo 
de um odre, cabrão sem cabeça, mas 
fiel , e secreto Conselheiro de §uaa 
vinganças. 



DE COIMBRA. 139 



CAPITULO XI. 

AS OIRCVNSTAMCZAS F AZZM O HOMEM. 

ÍBlíu tinha, depois da aventura pas- 
sada com Frei Barnabé, vindo para 
easa acompanhado , jid cautelam pe- 
los homens de trabalho , e relatado a 
meus companheiros aquelle extrava- 
gante acontecimento que os fez de 
hoa gana ; mas poucas horas eram 
passadas , quando a toda a pressa 
chegou um criado a dizer me , que 
Rodolfo acabava de ser preso e indi- 
gnamente arrancado dos braços de sua 
familia: n'um bilhete que me entre- 
gou de Maria , e quasi indecifrável 
lí a confirmação de sua verdade , se- 
guida de mil contradictorias suppli- 
cas e preceitos , que todos redunda- 
vam em que salvasse , e restituisse 
um Pai a sua filha: respondi-lhe bus- 



140 O ESTUDANTE 

cando mil modos para a socegar, e 
saí em direitura á Portagem. 

Ainda bem não teria dado cem 
passos , quando esbarrei cara a cara 
com a ronda dos Verdeaes, seu digno 
chefe Meirinho , e respeitabilissimo 
Conservador. [^] 

Forçoso me era evitar similhan- 
te encontro peior do ([ixe o àe D. Qui- 
xote de la Mancha , com os moinhos 
de vento: por feliz acaso se achavam 
á minha direita certas casas em que 
andavam obras, pelas quaes me met- 
ti com tanta fortuna que me pude ir 
esgueirando por um buraco que ha- 
via na parede detraz , defronte do 



\jí^ O Conservador é o Juiz privativo 
dos Académicos; o Meirinho é o seu qua- 
drilheiro mor e os Verdeaes sua tropa fan- 
danga: a vestimenta desta guerrilha é a 
seguinte : meia branca , calção amarello, 
colete azul, casaca verde echupéo redondo. 
O armamento nos dias simples é uma espa- 
da , e nos dias de grande gala trazem Al:- 
barda. 



DE COIMBRA. Itl 

qual estava aberta uma porta d'esca- 
da que me serviu de óptimo refugio, 
tendo , já se sabe , a cautela de a fe- 
char com todo o cuidado , e com pe- 
na de não poder ser hermeticamente; 
mas o Sr. Meirinho que vira o vulto 
e a sombra quiz que se fizesse a des- 
coberta , e mandou , seo;undo ouvi, 
a alguns Verdeaes que fossem exami- 
nar o sitio, o que elles nào fizeram, 
ponderando que bom seria ir a ron- 
da em pezo para supportar qualquer 
ataque: por este motivo se travou re- 
nhida altercação , que me obrigava 
a conservar-me na minha toca em 
ar de coelho; até qite finalmente me 
pareceu que se vinham aproximan- 
do .. . Mas o diabo que muitas vezes 
nos protege , não por nós , mas pelo 
que se ri á custa da humanidade, com 
aquillo que fortuitamente nos servira; 
pregou tal ferroada no estômago de 
um cão de certo visinho rico, que 
por amizade o trazia em eterna dieta, 
e fez-lhe dar tal uivo , que os meus 
amigos da chuchadeira deram costas 
ao negocio e metteram pernas a ca- 
minho , fazendo com as botas pela 



142 o ESTUDANTE 

rua fora maior estrondo do que um 
terremoto. 

A penas me vi a salvo de tào pe- 
rigoso lance , tornei a levantar anco- 
ra com o fito na mesma paragem pa- 
ra onde poucos momentos antes , me 
houveram contra minha vontade le- 
vado os Verdeaes , isto é , para a ca- 
dêa da Portagem ; bem náo tinha 
chegado ainda ao fim da Couraça de 
Lisboa , quando a sentinella me man- 
dou passar de largo. 

— Camarada , lhe disse eu, dese- 
java fallar com o Commandante da 
guarda. 

— OSior cabo d^ esquadra nãos'in- 
commoda a estas horas para fallar a 
ninguém. 

— Ora diga-me , não foi trazido 
ha pcuco para aqui um preso? . , su- 
jeito d' idade . . . decente . . . 

— Tem vindo mais de um quar- 
teirão , . , 



DE COIMBRA. 143 

— N*esse caso preciso infaliivel- 
mente falJar ao carcereiro. . . 

— Em? 

— Se me fisesse o obsequio de cha- 
mar o carcereiro ? . . . 

— Nem^QueVossê fosse ahioGrâo- 
Turco , oii o Diabo , em pessoa , ou 
o Sior D. Miguel ; não lhe chamava 
eu agora cá o carcereiro ; e acabou- 
se , vá cortando . . . 

— Ora camarada , veja por quem 
é , se me faz o que lhe peço . . . 

— A modo que me vai azoinando 
muito os ouvidos . . . arreda , arreda, 
com dez mil diabos .-. . 

— Acredite que o meu agradeci- 
mento . . . 

— Ah . . . você não ouve . . . você 
está bêbado . . . ora espere . . . 

Disse , e calando baioneta , cor- 
reu direito a mim , que houvera sido 



144 O ESTUDANTE 

atravessado se me não valesse das 
ptrnas. 

D'esta sorle ficaram frustradas to- 
das as esperanças, e eu sem saber nt m 
-sequer se Rídolíb alli se achava : a 
minha impaciência era tanto maior, 
quíinio a hora da noite tslava andian- 
lada ; a imprudência cu bt bedeira da 
sentinelhi linhcV^sido exfrtma-, e o de- 
sassocego de Maria, quero dizer o 
meu desassccego devia ser inexplicá- 
vel : por este modo ia caminhando 
vaí2arcsamente e per acaso talvez em 
direitura para minha casa , revolven- 
do no cérebro mil idéas que s^iravam 
todas n'um circulo vicioso, similhan- 
te áquelle que volve de continuo nos 
,niiolos de certos administradores de 
thesouros arruinados , ou na dos pro- 
curadores de causas perdidas; quan- 
do veio um vulto por tal modo met- 
ler-me a cara que me fez sair das 
minhas ccoitaçòes profundas, ao som 
da mais soiemne cabeçada, com que 
lhe puz em ped.iços as cangalhas de 
que usava por extrema necessidade, 
depois de as haver usado por peralve- 
lliice e toleima ; e disse-me : 



DE COIMBRA. 145 

— Oh ! . . . és tu ? Muito folgo . . . 
Em tua busca andamos uns pou- 
cos ... 

— Em minha busca!., e para que?., 
já nâo ha quem queira ser Ministro?!! 

— Não zombes ... O negocio é 
mui sério. ... A tua casa esíá cer- 
cada pela* ronda em peso. . . Querem- 
te prender . . . 

— Prender-me. .. essa é melhor,., 
estás zombando . . . 

— Oxalá que assim fora ; mas se 
duvidas vem comigo, e de longe o 
verás ... 

— Pois deveras ? . . . querem-me 
prender ? . . , 

— Querem sim, meu amigo, po- 
rém a Providencia vigia sobre ti , e 
venho por seu mandado para te pre- 
caver . . . 

— Vens por mandado da Providen' 
TOMO I. 7 



146 o ESTUDANTE 

cia ! ? . . não sabia que estarás tâo 
"bem relacionado . . . 

— Ainda estás zombando ? . . eu te 
faço já pôr sério; sabe que foste de- 
nunciado e mais o teu amigo Rodolfo 
como Pedreiros Livres . . . 

— Oh ! . , . essa agora é que é mais 
fina ! . . . era o que me faltava . . . 

^ Ah ! . . . já não brincas ? . . . 

— Não de certo-. . . Havia de ser 
sem duvida o desavergonhado do Fra- 
de .. . Mas como soubeste o que aca- 
bas de me dizer!... conheces Rodol- 
fo .. ? 

— Se conheço. . . Foi preso esta noi- 
te. 

— Certo é ! . . . neste momento vi- 
nha eu de ver se lhe podia fallar . . . 

— E não podeste ? . . . Pois foi um 
anjo bom quem te salvou . . . Descan- 
sa , Rodolfo será solto muito maisce- 



DE COIMBRA. 147 

do do que presumes .... acompanha- 
me . . . 

— Para onde; para que ? . . . Serás 
porventura oofficial de diligencias?... 

— Anda... anda, vem tu verás 
aonde te levo . . . Disse : e pegando- 
me pulo braço, cuitjndosamenle fcnios 
indo alé á eh amada CoKiaça dos j4poS' 
tolos ^ qne nunca usaram deccuraça, 
aonde me fez entrar m}s(eriosamcníe 
por certa pequena poria , dizendo- 
me » silencio, prudcncia meu Cclle- 
ga . . . Vais á Providencia «... 

Ouvindo estas palavras, nao du- 
videi que alguma guapa cachopa, en- 
feitiçada de meus interessaníes aítra- 
tivos me tivesse até ali servido dé 
Anjo da Guarda, e que essa cachopa 
chamada Providencia^ me' valesse n'a « 
quelleconílicto: por isso fui arranjan- 
do á pressa os meus collarinhos , e o 
cabello , e traçando a minha capa 
acasquilhadamente. Pobre Maria! Po- 
bres mulheres! es mais fieis somos io- 
dos 'assim ! 1 ! mas qual nao foi a mi- 
V ii 



148 O ESTUDANTE 

nha surpreza quando me vi no meio 
d'uma casa pouco allumiada , cheia 
á róda de vários Lentes , Proprietá- 
rios, e Estudantes-, e sobre tudo quan- 
doouvi da bocado meu conductor estas 
palavras : achei-o felizmente meus ir^ 
mãos , ei-lo salvo : é apesar de seus 
poucos annos , aquelle digno com- 
panheiro que Rodolfo propoz ha dias 
e que hontem approvamos unanime- 
mente. 

— Seja bem vindo, disse logo um 
dos Srs. Lentes que- presidia aquella 
respeitável associação : muito folga- 
mos vendo entre nós quem assim reú- 
ne os mais nobres sentimentos; trata- 
mos da Salvação da Pátria, e de nos- 
sos amigos; está disposto a participar 
da gloria que nos espera ? . . . 

— Sim, Senhores, respondi eu com 
fervor : a minha Pátria ... o meu co- 
ração ... a minha própria segurança 
mo ordenam ! . 

— E as suas qualidades , e a sua 
prudência nos bastão para afiançar 



DE COIMBRA. 149 

essa promessa : queira sentar-se , e 
tomar parte na discussão. 

Tratava-se de saber se seria mais 
vantajoso esperar pelas tropas que (se- 
gundo participações) marchavam pa- 
ra Coimbra, ou fazer que rebentasse 
a revolução antes de sua chegiada: pe- 
di a palavra para emittir a minha o- 
pinião , e disse: — Que não bastava 
á revolução ter o cunho da força; que 
parecendo ella filha d'um movimento 
espontâneo , ao mundo se mostraria 
a anciã que o Povo Portuguez sentia 
de liberdade; que demais, fervendo 
as denuncias , as prisões, e os vexa- 
mes , forçoso era suspender tão abu- 
sivo flagello, e castigar a audácia que 
sustentava o crime. 

Pequeno saiu o discurso; mas tão 
persuasivo , que arrastou subitamen- 
te todas as vontades . . . Ah I ccmo 
os homens se mudam com o variar 
das circunstancias ? Quem se havia 
de lembrar, nem eu mesmo, ainda 
na véspera , que no espaço de viníe 
e quatro horas me havia de ver tão 



150 O ESTUDANTE 

activamente envolto em negocies po- 
iiticos de que sempre mofara, e agen- 
te poderoso d' uma revolução ! . . . 

Passou-se ao calculo das forças 
disponíveis ; vários Oííiciaes de Milí- 
cias de Coimbra affiancaram o bom 
animo daquelle corpo, e se obriga- 
ram a apresenta-lo apenas conviesse; 
diversos proprietários , e fabricantes 
se comprometteram afazer apparecer 
armados seus trabalhadores , operá- 
rios , e criados ; e os Estudantes fi- 
caram incumbidos de passar palavra 
a todos os coUegas affeiçoados á Causa 
e de reconhecido desembaraço ; e le- 
vantou-se a Sessão tendo-se determi- 
nado que no dia seguinte ás 4 horas 
da tarde soaria o grito da liberdade 
na praça de Sansão ; nome que pela 
nossa febre de heroicidade se nos devia 
de representar então do melhor agou- 
ro; masque afinal deu em droga, co- 
mo tantas cousas de grandes rompan- 
tes, porque se n'aquelle momento nos 
sentíamos Sansãos ou Sansões, ou San- 
saens , que para dizer a verdade não 
sei o plural d'este nome; não tardou 



DE COIMBRA. 151 

que os Philisteus nos não dessem nas 
ventas: é verdade que nós depois tri- 
plicamos, e parece-me, que se as con- 
tas nào estáo já saldas muito pouco 
lhes havemos de dever. 



152 o ESTUDANTE 



MV«WWM<«VVW»««A«WMA««%««%W«VMW«MWM««\MI%Ma«M\l«MI«MWVV«« 



CAPITULO XII. 



A VISITA NOCTUHNA. 

esperança é uma d'aquellas ema- 
nações celestes que se reparte sem 
diatincção por todos os mortaes : tan- 
to se consola com ella o miserável 
sem pão nem asylo, como o Snr. so- 
berbo , e orgulhoso que do seu thro- 
no , quando tem esses dous lenhos 
pregados, e cobertos com retalhos de 
veludo, torce a Justiça , e fulmina a 
humanidadel. .como houvera eu, sem 
o suave néctar da esperança , podido 
mitigar a minha horrivel impaciência, 
e a idéa do abandono , e da desespe- 
ração de Maria . ? . abandono que a 
sua ausência, no meio da minha incer- 
teza, e mesmo da ignorância em que 
me achava acerca de todas as con- 
dições que haviam acompanhado a 



DE COIMBRA. 153 

prisão de Rodolfo, tornava insoffrivel 
para mim ! A noite estava em muito 
mais de meia, e a noite favorável aos 
amantes, convidava-me, ou para me- 
lhor dizer, ajudava o frenesi que me 
impeliia para a quinta de meu amigo: 
resolvi-me a partir , e parti a pesar 
das vivas instancias de meus compa- 
nheiros para que o não fizesse ; seis 
d'entre elles me quizeram acompa- 
nhar depois de nos havermos preca- 
vido cada um com duas pistolas, uma 
espada , e alguns cartuxos embala- 
dos. 

Atravessámos a Cidade pelo meio 
das trevas; jazia tudo em socêgo; tu- 
do nâo digo bem porque de quando 
em quando resoava ao longe, o altivo 
canto do gallo velador , e a branda 
ullulação dos arvoredos , com que os 
Zéfiros brincavam: por mais que an- 
dássemos apressadamente redobravam 
em mim a cada passo os fervorosos 
desejos de chegar: são realmente inex- 
plicáveis esses presentimentos do fu- 
turo em muitas cousas que nossos 
olhos longe estão de decifrar, quando 



Ibi o ESTUDANTE 

Já O coração as adivinha ; o meu ba- 
tia eníào com aquella irregular vio- 
lência, filha do receio, e nao sem fun- 
damento batia elle. .. 

Ao aproximar-nos da casa de 
Rodolfo distinguimos a travez da ra- 
magem vários vultos que nos pergun- 
taram : — Quem vem láí . . e acom- 
panharam esta pergunta com um ti- 
ro que levemente me feriu no braço 
esquerdo! .. Náo eram por certo ami- 
gos quem d'esta sorte nos recebia, e 
sem mais prefacio , nem advertência 
alguma todos repostamos com tào una- 
nime descarga, qujt3 aterrados os ini- 
migos, debandaram quando próximos 
estávamos de lhes dar segunda cêade 
ameixas de chumbo. 

A' vista do inimigo em fuga re- 
dobrou em nós o valor ; corremos 
atrevidos dando gritos espantosos pa- 
ra mais o amedrontar : carregamos, 
e disparamos, alguns tiros sem alvo, 
mas comaquelle mesmo intuito, e fo- 
mos pela casa dentro, deixando sem- 
pre, pelo sim pelo não, dous dos nos- 



DE COIMBRA. 155 

SOS de vigia . . . Era bem tempo de 
chegarmos. . . Maria estava desmaia- 
da no meio do sobrado, e a pobre da 
velha , quasi afogada por certa espé- 
cie de mordaça que lhe tinham posto 
na boca, escabeceava sobre um cana- 
pé aonde a haviam prendido de pés e 
mãos: meus companheiros voaram a 
socorre-la, deixando ah lha de Rodolfo 
entregue a meus desvelos... a que me- 
lhores màos poderiam entrega-la ? ! í 
com muito custo foiella tornando a si, 
e quando me reconheceu, e viu tão 
perto, exhalando um prolongado sus- 
piro , se deixou cahir nos meus bra- 
ços , que ternamente a receberam, e 
apertaram. . . 

Depois de se terem desvanecido 
mais CS receios , e oseíleitos dacom- 
moçáo , nos relatou a mana do meu 
amigo o que se havia passado; disse- 
nos, que Frei Barnabé pertendêra rou- 
bar-lhe o que de mais caro possuía no 
mundo; que essa víbora disfarçada 
quizera raptar Maria durante a au- 
sência de seu Pai ; que tinha vindo 
com vários indivíduos armados , sur- 



156 o ESTUDANTE 

prehendido o Caseiro , e homens da 
malta, que dormiam a somno solto, e 
que depois de os haver maniatado a 
todos , fora pelo interior da casa ter 
com ellas , quasi certo de conseguir 
seus intentos. Mal que Maria pôde 
fallar me perguntou por seu Pai , e, 
por tardia, se desgostou com a espe- 
rança de só o abraçar no dia seguin- 
te; no entanto voltaram meus com- 
panheiros em companhia dos homens 
da malta, e do Caseiro, aquém tinham 
ido desprender , e pelos quaes , cer- 
tos nós de sua capacidade, distribui- 
mos armas , e munições , não só de 
guerra, como de algibeira, munições 
estas mais terriveis do que as de mil 
calibres diversos que se fundem e se 
fabricam para melhorar o mundo que 
todavia vai de mal a peior. 

Nâo era momento aquelle de per- 
der muito tempo com palavras. — Fo- 
ra, fora, bradaram meus companhei- 
ros; cuidemos agora soda segurança 
d'estas Senhoras, que por certo não 
ficariam aqui bem. 



DE COIMBRA. 157 

— E' verdade, lhes tornei; mas pa- 
ra que log-ar as levaremos? . . . 

— Para casa de meu irmão, respon- 
deu o Caseiro; sua mulher foi ama da 
Snr.* patroa quer-lhe como aos seus 
rapazes . . . nós guardaremos as Se- 
nhoras por lá , e agora que ficamos 
álerfa, e armados , pôde vir o tal fi- 
gurão negro do frade que irá bem 
convidado . . . não me chame eu Ma- 
nei Gaiteiro, se com esta pistola lhe 
não puzer os miolos ao relento. . . 

Abraçámos aquella idéa sem o 
mini mo receio, por conhecermos a pro- 
bidade do Caseiro , cuja afifeiçào por 
8eus Patrões era sabida, e escoltamos 
as Senhoras até ao mencionado sitio 
aonde foram respeitosa, e lisongeira- 
mente recebidas. 

Já por cima das verdes Collinas 
que ficavam para o lado de Coimbra 
começava n'este tempo a despontar a 
Aurora, e como com a sua luz sere- 
na se anima a natureza assim se ani- 
mava em nós o Sagrado Clarão da Li- 



15« o ESTUDANTE 

berdade. No entanto era forçoso se- 
parar-me de Maria, custasse embora 
quanto custasse: seu Pai jazia debai- 
xo do peso dos ferros que nosso gri- 
lo devia despedaçar: eu mesmo estava 
coliocado na mais critica posição^ 
procuravam-me para me prender, e se 
o conseguissem descarregariam sobre 
mim todo o rigor vingativo do ciúme, 
e da má índole de Frei Barnabé, que 
selisongeara de me queimar vivo pe- 
lo menos, applicando-me essa pena, 
a mais suave da Santa Inquisição^ 
d 'esse tribunal divino Parto Piíilan- 
tropico doSantissimo Padre ínnocen- 
cio N."" 2. 

Muito poderia dizer n'este logar 
o Snr. Estudante se pertendesse fal- 
lar em Religião; mas o dito Snr. se 
bem que rapaz, é pássaro velho; o nos- 
so amigo Académico deseja que o 
leiam sem escrúpulo de consciência, e 
para isso não quer dizer cousa que pe- 
se sobre aquelles mesmos que fariam 
maior caso de o ler, do que poriam du- 
vida de esganar um homem, ou de met- 
ler as suas bentas unhas na fazenda 



DE COIMBRA» 1 5r9 

alhêa: demais períende sua pater- 
nidade que as meninas lhe peguem, 
que sintam dentro de seu coração al- 
gumas coceguiniias, ao passo que fo- 
rem vendo as alternativas felizes, e 
desgraçadas de seu extremoso amor^ 
ora em vez de lagrimas de ternura, em 
vez do mais favoraveJ interesse por 
suas desgraças, náo deixaria nosso ami- 
go Escolástico de ser o aivo mais infal- 
livel de pragas e vitupérios, se se met- 
lesse em questões religiosas. . Lá bra- 
daria com vivo calor a suas filhas de 
um canto, aonde reza nas contas uma 
carcomida ex-mulher^ com cara de 
múmia. . . Ah! . . Minhas filhas. . . nào 
lêam esse livro • . . quem o fez é um 
Ímpio. . . é satanaz disfarçado, que 
anda passeando de sapato, e meia. . . 
Lá bradaria o reverendo Ecclesiasti- 
co. . — Ah! . . nào olôam. . . saiudas 
chammas do inferno . . . quem o ler 
nas chammas eternas cairá ... E que 
diria no meio de tudo isto o misero 
editor, que já de longe deita o rabo 
do olho para certa doze de })intos,que 
tem por certo apanhar, quando tives- 
se que vender a obra para mechas 



1 60 O ESTUDANTE 

por causa da guerra aberta que lhe 
declarassem Mulheres , e Frades ; 
guerra aberta terrivel , que fecharia 
as poucas algibeiras dos muito menos 
amigos de ler que passeam por essas 
ruas? ! 1 nada , nada , vamos ao nosso 
assumpto, e poucas graças com gen- 
te que veste saia , e que a pezar de 
ser frágil creatura, tem um sem con- 
to de modas favoráveis para levar o 
homem pelo nariz , até aonde lhe 
apraz. . . Rompia pois amanhã, como 
já vos disse; eis o dia de Gloria^ bra- 
dei a meus companheiros , A Coim- 
bra , amigos . . . A Coimbra . . . res- 
ponderam todos corajosamente: aper- 
tei a convulsa mão de mmba terna 
Maria, disse-me adeus, e partimos..* 



DE COIMBRA. ICl 



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CAPITULO XIII. 



A REVOLUÇÃO. 

ogo que chegámos á Cidade di- 
rigimo-nos para a Calçada: soubemos 
que por ordem do Vice-Reitor se aca- 
bava de fechar a Universidade ; que 
os Estudantes deviam partir para suas 
casas no prefixo prazo de vinte e qua- 
tro horas, e que as Milicias de Aveiro 
tinham vindo pela noite : um mago- 
te de Estudantes Constitucionaes se 
achava alli reunido em certa loja; e 
n'outra defronte , Abrunhosa com 
sua guerrilha arreada segundo o es- 
tilo, com atafaes vermelhos. (*) 



(*) Abrunhosa era certo Bacharel em di- 
reito, que se arvorou em Chefe d'uma guer- 
rilha de Estudantes miguelistas. 



162 o ESTUDANTE 

Logo que os heroes do Rei chegou 
me lombrigaram , grave discussão se 
travou entre elles , e depois de al- 
guns minutos se pôz a quadrilha em 
movimento para o nosso lado; quiz um 
dos amigos marcar-lhe a cadencia á 
marcha, efoi para esse fim assobian- 
do o Hymno Constitucional, convite 
decisivo que animou o colossal Abru- 
nhosa, á frente de seus rubicundos sa- 
tellites a dirigir-se para nós,ealevan- 
tar uma bengala . . . No mesmo ins- 
tante nos lançamos sobre os heroes 
áhs fitinhas encarnadas , que se eva- 
poraram , resoando ao som de mata, 
mata^ vigorosos murros; uma nuvem 
de pedras , e de pedregulhos se des- 
carregou sobre o vasto dorso do Cam- 
peão de Albarda que foi de ventas a 
terra, depois de ter sido por três vezes 
traspassado pelo mesmo ferro d'um 
estoque desembainhado para maltra- 
tar-nos; n'es<as alturas fizeram todos 
os outros è?/c e/a /os, oque haviam feito 
os meus amigos Verdiaes ao ouvir o 
uivo do Cão ; deram cebo ncs calca- 
nhares , parecendo-lhes tt do o terre- 
no pouco para fugir. . . Fecharam-se 



DE COIMBRA. 163 

atrapalhadamente as lojas... Deu uma 
Desinteria no Vice-Reilor; uma Epi- 
lepsia no Conservador ; uma Cardial- 
gia no Meirinho ; uma Hemiplegia 
em cada Verdial , e rapidamente se 
espalhou pela Cidade, que na Cal- 
cada rebentara a revolução, montan- 
do já o numero de mortos a cento 
e tantos ... A estas palavras pòz o 
Vice-Reitor os olhos em alvo ; e sem 
querer esperar por um cozimento 
branco que gratuitamente lhe prepa- 
rava o Boticário do Hospital ; na for- 
ça mesmo do seu destempero se foi 
galopando pela estrada de Lisboa, em 
companhia dos Cofres Públicos, de 
algumas Authoridades sem authori- 
dade , das Milícias de Aveiro , e dos 
esturrados do seu partido, que Hydro- 
picos de pathetica valentia , ás duas 
horas da tarde voavam para a Capital a 
quatro pés , deixando ficar a Cidade 
livre da peste que produziam. 

A's quatro horas formaram as 
Milícias de Coimbra na Praça de San- 
sâo , onde se achavam muitos Estu- 
dantes, e povo reunido; e neste mo- 



164) o ESTUDANTE 

mento vi eu o que o Povo é, por que 
tendo um dos Estudantes arrancado, 
e pizado certa divisa miguelista que 
trazia um dos Capitães de Milicias, 
tudo á excepção do regimento , e de 
alguns Estudantes desamparou a pra- 
^a , fugindo como se a cheia do Nilo, 
ou se a lava do Vesúvio corresse 
atraz d'elles *, e só depois de preso o 
dito Capitão, que pertendeu fugir com 
vários Soldados , é que vieram nova- 
mente chegando á formiga. 

Logo resoaram os gritos : Viva 
D. Pedro^ Viva D, Maria Segunda^ 
Viva a Constituição^ que foram repe- 
tidos com enthusiasmo , não só p^a 
gente que se apinhara na praça , co- 
mo também por varias pessoas, e por 
algumas Senhoras , que não appare- 
cendo nunca, vieram n'aquella occa- 
siâo ás janellas por enthusiasmo , ou 
por curiosidade : nomearam-se Au- 
thoridades Militares, e Civis ; solta- 
ram-se os presos Políticos, e entre el- 
les Rodolfo que fui eu mesmo liber- 
tar , eque acompanhei a abraçar sua 
familia , em quanto se preparavam 



• DE COIMBRA. 165 

festejos, eillumi nações jjara receber 
as tropas Constitucionaes que pres- 
tes deviam chegar do Porto . . . For- 
te mania ! . . Fazer revoluçõt^s com al- 
gazarras ! . . Çustenta-las com luminá- 
rias , versos , repiques de sinos , e fo- 
guetes ! . . A tal preço podia-se bem 
afoutamente aspirar aos officios ren- 
dosos ^ e mesmo a alguma Pasírtsm/ta 
que andasse desgarada .... Por esta 
mesma occasiào socorri o meu bom 
Arrieiro Carreu que maltratavam, e 
traziào preso por lhe haverem acha- 
do correspondências miguelistas: pe- 
di tanto por elle , e afiancei-o de tal 
modo que o soltarão : isto fiz eu , 
em parte por dó, eem parte por que 
sympathisava com o pobre diabo que 
realmente mostrava decidida predile- 
cção a meu respeito. 

Vários dias se passaram sem que 
de nada me occupasse senào de Ma- 
ria, e de seu Pai, apesar de ter sido 
alistado no Corpo Académico ; o que 
vivamente sentia era a necessidade de 
me unir para sempre a ella , porque 
08 inconvenientes desta união eram 



166 O ESTUDANTE 

menos para temer, do que os resul- 
tados que se poderiam seguir, da inti- 
midade sem limites que já existia en- 
tre nós : o meu velho amigo pensava 
bem, estimava-me sinceramente; que 
receios podia ter eu de lhe pedir a 
nicào de Maria ?... Fallei-llie com fran- 
queza. 

Rodolfo annuiú prompíameníe : 
— mas , disse elle , deixemos assen- 
tar as cousas^ deixemos que esse in- 
nocenle amor, se não festeje ao som dcs 
gemidos da revolução-, logo que tudo 
esteja socegado , e nós mesmos certos 
de que nada poderá desunir-vcs ; en- 
lào guiar-vcs-hei aos aliares, e cha- 
mando-vos meus filhos, e aperlando- 
V0S em meus braços , vos tornarei fe- 
lizes unindo-vos para sempre . . . Ma- 
ria querida Maria, já eras minha ! . . 
Já eras minha digo eu I . . Ah ! quan- 
to se illude aquelle que toma por es- 
táveis na vida as venturas que desfru- 
cta , ou as que tem , por certo, de al- 
cançar ! . . 

» 

Pouco a pouco se tinham no en- 



DE COIMBRA. 167 

tanto reunido para o Sul de Coimbra 
for<:as respeitáveis, e formado a sua 
linha , demorando-se algumas sema- 
nas n'aquella posição, sem que hou- 
vesse mais do que uma pequena es- 
caramuça com o Com mandante Sh- 
walbak , que fez noventa e seis pri- 
sioneiros no sitio da Ega : decisivas 
medidas se tomavam no interior da 
Cidade , que parecia uma praça de 
guerra, deixando ver mudados os A ii- 
ihores , em Fiéos-^ eu pelo menos já me 
dispunha para provar as ameixas , e 
te-las-hia provado se náo recebesse a 
ordem de partir immediatamenfe n'u- 
ma escolta encarregada de conduzir 
para o Porto, trinta e quatro presos: 
ÍDem procurei eximir-me, não querendo 
por modo algum separar-me de Ma- 
ria ; mas o dever do soldado é obe- 
decer , e nào me restava senáo des- 
pedir-me d'ella : fui receoso e triste 
participar-Ihe esta noticia que cheia 
de jubilo escutou ? . . — Parte, me dis- 
se, e quanto antes: Coimbra vai a 
ser othealro da guerra; afastando-íe 
estarás longe do perigo; escrever-te- 
hei , e brevemente nos veremos por 



168 O ESTUDANTE 

que também nós vamos para o Porto: 
com íacs palavras se mitigou, em par- 
te o meu tormento , e tendo-nos mu- 
tuamenle despedido com a maior ter- 
nura, vim para o meu quartel, situa- 
do no Palácio que servira ao Vice- 
Reitor; que reflexões não fiz durante 
a noite, sobre as vicissitudes das cou- 
sas humanas ! . . com a imaginação mi- 
croscópica de minha idade, como tu- 
do se me representava em ponto gran- 
de !, . Sim , dizia eu para os meus bo- 
tões, parodiando, como todos os dias se 
faz, osoberbo capitulo deVolnei: aqui 
era ainda hontem um Palácio d'um 
Vice- Rei torl.. Estas escadas agora tão 
desertas ainda hontem uma multidão 
de salafrários debaixo do nome de Len- 
tes as subiam , e desciam a venerar o 
/c/o/o!.. Estas salas, onde se pôde ou- 
vir a carreirinha do rato nocturno, 
discussões miguelistas de authorida- 
des literárias, eanti-literarias, e ©es- 
trondo festivo de chicaras , e colheri- 
nhas , as animavam . . . Sim; aqui on- 
de estou n'este momento , eu obscuro 
Estudante nascido entre as figueiras, 
e alfarrobeiras do Algarve, aqui mo- 



DE COIMBRA'. 169 

rava um dos maiores corcundas que 
jamais cobriu a rosa divina ... Um 
cDrcunda .... Em fim um Corcun- 
da .. . O que é o Mundo 1 ! I O que é 
o Mundo I J 1 



£.X 



TOMO l, 8 



17 o ESTUDANTE 



MMV«l%«M«««lM/VM«MMAM/M«VMIt«MM«VM«M/«VMIVVMI%«M«M«M««» 



CAPITULO XIV. 

PASSEIO EM DOUS DIAS AO PORTO. 

Saímos de Coiíiibra ao romper do 
,S dia ; marchámos sem interrupção até 
alta noite, e fomos descançar algu- 
mas horas n'um logar aonde só havia 
três casas, uma das quaes arvorámos 
em prisão : ao amanhecer nos poze- 
mos novamente a caminho e chegá- 
mos a Aveiro ás três da tarde: os 
presos foram para a cadêa, e nós abo- 
letados: tratei logo de procurar o meu 
quartel , com o qual facilmente dei ; 
o patrão era padeiro, mui rico, e mui- 
to Constitucional , segundo se dizia: 
apenas lhe apresentei o boleto , fez- 
me uma cara de Judas em sabbado 
de Alleluia, e mandou-me entrar para 
um quarto na agoa furtada , cheio de 
gallinhas , pombos , frangos , e patos 



DE COIMBRA. 171 

que me saudaram á chegada com har- 
monioso coro de excellentes guelas: 
o patrão Cidadão fabricante de pão 
aodeixar-mealli empoleirado me dis- 
se : — que fiel ás leis Pátrias , me 
mandaria dar luz, sal, agoa, e le- 
nha, (e nada mais) para me arran- 
jar a meu com modo , e passar bem a 
noite. . . ora quem a passaria mal com 
tão bella companhia!!! Apenas aquel- 
le mortal caritativo, e enfarinhado, 
que tão lisonjeiramente me hospeda- 
va , voltou costas, tratei eu de to- 
mar uma resolução vantajosa para 
mim : a primeira idéa que me occor- 
reu foi saltar nasgallinhas : esla lem- 
brança parecia-me alem de mui natu- 
ral muitíssimo razoável; tinhíi fome 
como trinta , estava pouco endinhei- 
rado, e considerava que não era cos- 
tume ter patrões tão severos em se- 
guir a lei á risca , e que só pela sua 
demasiada mesquinhez merecia elle 
que lhe dessem cabo dafamilia bicu- . 
<3a com que me deixam em santa paz; 
mas que havia de eu fazer se não sa- 
bia cozinliar? ! ! cozer a gallinha em 
agoa e sal? Não era dos melhores gui- 
8 ii 



172 O ESTUDANTE 

sados ; e demais , que triste facto 
não fora este depois da balda , e da 
grande nomeada com que os voluntá- 
rios Académicos , meus antecessores 
tinham ficado de papa gallinhas? ! I ! 
Contentei-me com a resolução de pe- 
dir outro boleto, efui para casa d'um 
rico Negociante que me acolheu de 
bem diíferente modo , não só banque- 
teando-me lautamente, como também 
com mil offertas obsequiosas , e fran- 
queando-me os meios de escrever pa- 
ra Coimbra , e indirectamente para 
Lisboa cujo correio se achava inter- 
ceptado. 

No dia seguinte , recebendo no- 
vamente os presos , nos embarcamos 
para atravessar a lingua de mar, vul- 
garmente denominada Mia de Aveiro'^ 
a viagem foi demorada por falta de 
vento , e só ás onze horas da noite 
chegamos a Ovar , aonde nos entre- 
garam mais três presos , sendo um 
d'elles , certo piedoso ecclesiastico , 
que por caridade se dera á espiona- 
gem : também nos disseram que par- 
tiremos immediatamente para evitar 



3)E COIMBRA. 173 

O encontro de alguns guerrilhas que 
tencionavam surprehender-ncs : em 
marcha nos pozemos logo , pesto que 
mui pouco receosos do que acabavam 
de nos dizer : nosso numero era pe- 
queno ; mas em resolução crescia o 
que em força nos faltava. 

Teriamos andado légua e meia 
a travez d'um pinhal cerrado , quan- 
do a nossa avançada de três homens, 
disparou um tiro de prevenção ; y.c- 
zemo-nos logo em attitude de comba- 
te , atamos os presos dous a dous, e 
três a Ires a differeníes pinheiros , e 
mandamos mais seis camnradas para 
reforçar o piquete avançado , fcando 
oulros seis encarregados de desfechar 
sobre os presos á queima roupa , e á 
primeira voz, e os nove que restavam 
com Sargento , e OíEcial , formando 
o centro das forças ; mal haviamcs 
acabado de tcmar tcdas estas dispo- 
sições , e posições , quando a van- 
guarda rompeu n'um fogo vivissimo, 
e se foi retirando sobre nós , ao mes- 
mo tempo que pelo nosso flanco direi-^ 
to se estendia o inimigo com tal es- 



17^ o ESTUDANTE 

trondo , e apparencia , que mui su- 
perior nos era de certo : suppozeinos 
pelo seu movimento que pertendia 
cercar-nos , vimos que náo havia re- 
médio senào morrer com valor, e des- 
fechamos com elle : n'estas alturas 
começaram por outro lado os presos 
a dar vivas ao seu rei chegou , pre- 
vendo próxima a salvação : esta re- 
volta era na verdade horrivel , e o 
nosso Com mandante receoso de se 
achar ainda com esses inimigos de 
mais , resolveu-se a mandar atirar- 
Ihes ... Já me parece até que a pa- 
lavra fogo lhe subia pelo gasganete 
acima , quando a voz do general ini- 
migo lha suspendeu . . . Ah 1 meu lei- 
tor, que desigual combate nos não 
tinha destinado a sorte ! . . Aquelle 
Exercito numeroso e terrível sobre o 
qual muitos tiros havíamos já de lon- 
ge disparado, era em vez de realista 
hum rebanho de cabras ! . . sauda- 
mos tão consoladora descoberta com 
uma risada geral; geral não digo bem 
por que não ficaram os nossos presos 
com muita vontade de se rir. 



DE COIMBRA. 175 

Ccme^ava o dia quando ncva- 
irenle ncs pczerrjcs cm iraicha: foi 
tnlào quepcdtmcs ver a cara dos três 
novos herots que m s haviam ccnf a- 
do cm Ovar; quando esbarrei cem a 
do espiào senti tào vivo abalo, que 
dei meus bons três pules para traz 
deitando deus camaradas de ventas a 
terra , e outro de pernas para o ar... 
Sim meu leitor... Por certo ccnfes- 
sareis que tive razão .... Era Frei 
Barnabé! ! ! Elle mesmo cm ecipo, 
e alma que ainda alli me vinha m.or- 
tificar I Era Frei Eainal :é que tro- 
cara o caracter de Sacerdote , pelo 
de espia ! í ! 

— Bem vindo seja meu Senhor ! ! í 
por aqui ? . lhe disse eu , cem viva 
gana de lhe enterrar a baycneta no 
coração ... 

— Pois conheces esta peqa?! ! me 
perguntaram vários camaradas. 

— Se conheço , lhes tornei , e fui 
narrando quanto se passara , narra- 
ção que os irritou a ponto de saltar 



176 o ESTUDANTE 

.no Frade ás cronhadas , e bem deci- 
didos a enterra-lo alli mesmo, se eu 
me não oppozesse , pedindo-lhes que 
não praticassem a baixeza de maltra- 
tar um miserável que nos havia sido 
entregue debaixo de prisào. Cliega- 
mos aos Carvalhos aonde nos demo- 
ramos ; pela fresca partimos , e che- 
gamos ao Porto ás trindades : entre- 
gamos os presos a uma escolta man- 
dada para esse fim, e marchamos pa- 
ra a Praça Nova^ a esperar pelos 
l)oletos. 

Facil é de calcular que effeito 
não fariam estes incommodos em pes- 
soas tão pouco affeitas a elles : mor- 
riamos de impaciência pela chegada 
dos boletos que todavia só vieram 
meia hora depois da meia noite ; mas 
por que motivo? . . me perguntará al- 
gum curioso : pelo mais natural que 
pode haver : o Sargento que foi bus- 
car os ditos milagrosos boletos não 
achou o Snr. Juiz que tinha ido para 
banhos , e por isso procurou o seu 
Escrivão ; mas o digno funccionario 
também não estava em casa , nem a 



DE COIMBRA. 177 

sua carinhosa Esposa por causa de 
uma festa de annos ; foi o Sargento 
lá em busca do' dito Snr. que pediu 
vista em quanto dançava uma contra- 
dança , e que depois embargou por 
causa de um ataque de nervos que 
teve uma sua parenta aquém foi mis- 
ter soccorro , e que depois appellou 
para aparar as pennas , e que por íim 
sem embargo dos embargos deu os 
boletos, . . ora isto seria na verdade 
para estranhar na Cidade do Porto, 
fecunda em guapa gente, se Juizes, 
e Escrivães , com o perdão de quem 
me ouve , não fossem os mesmos por 
Ioda a parte. 

Coube-me ir com dous dos meus 
camaradas para o mesmo quartel 5 es- 
tava decidido que a fatalidade anda- 
va comnosco a contas n'aquella noi- 
te ... . 

Chegamos á porta da casa , pu- 
zemo-nos a bater como se fosse tocar 
a rebate , e só depois de uma bem 
medida meia hora , é que ouvimos 
surdir de cima do telhado certa rouca 



178 o ESTUDANTE 

semi-voz humana pecguntando-nos : 
quem é ? . . . 

Pôde abrir ; lhe respondemos ... so- 
mos nós. 

— Quem é ? . . . 

— Abra por ordem da lei . . , 

— Nâo conheço . . . não sei quem é. 

— Abra com todos os demónios... 
lhe tornamos enfurecidos. . , 

— O que diz ? . . . 

Então com braveza lhe brada- 
mos ... — Abra a porta á ordem 
d'EiRei, ou lha deitamos dentro-, e 
começámos a dar tantas e taes cro- 
nhadas , que no mesmo instante nos 
disse outra voz: — Ahi bai , ahi bai, 
ajuiedem-se — e vieram abrir dous 
sujeitos a saber : um d'elles gallego 
noviço, e lorpa, segundo parecia, 
espreguiçando-se , e com huma luz 
que 5 de quando em quando lhe cha- 



DE COIMBRA. 179 

muscava a guedelha^ e um sujeito de 
casaca , abrindo a boca , e piscando 
os olhos por causa dos raios lumino- 
sos : este nos perguntou o que per- 
tendiamos , e mal o soube nos come- 
çou a dizer que de modo algum po- 
deria receber-nos por se acharem no 
campo os donos da casa; mas a nos- 
sa paciência estava já esgotada tão 
completamente , que surdos as innu- 
meraveis razões, que nos estava dan- 
do , fomos entrando, e berrando , co- 
mo se tivéssemos o demo no corpo, 
aanedronlando-o tanto por este modo, 
que rapidamente nos disse: — Meus 
Senhores, eu sou unicamente caixeiro 
n'esta casa , e nào posso , pelas or- 
dens de meu Patrão, receber n'ella 
pessoa alguma ; mas venham V. S*^. 
para uma boa hospedaria , aonde fi- 
carão por nossa conía alé que pela 
minha parte receba de meu Amo as 
instracções que elle me der : annui- 
mos com satisfação ao que nos pro- 
punha , e fomos para uma hospedaria 
exctíllente aonde, tratados ás mil ma- 
ravilhas, nos conservamos todo o tem- 
po que estivemos no Porto. 



180 O ESTUDANTE 



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CAPITULO XV. 



QUINZX DIAS DE ORATÓRIO. 

Cidade do Porto, segunda de Por- 
tugal pela sua grandeza, e commer- 
cio, situada a tantos gráos de latitu- 
de, e tantos gráos, e tantos minutos, 
e tantos segundos de longitude, tem 
casas, ruas, becos, travessas, praças, 
e quanto nas outras se encontra , sem 
cousa alguma extraordinária ; seria 
pois enfadonho fallar por mais tempo 
a este respeito: bastará dizer que me 
fartei de passear , de jogar o bilhar, 
de ir aotheatro, e de consumir meus 
limitados fundos por este modo , du- 
rante os 15 dias que passei n'aquella 
Cidade, esperando com anciedade no- 
ticias de Rodolfo, e de Maria, sem que 
ellas chegassem para me tirar do de- 



UE COIMBRA. 181 

sespero a que eu já tinha chegado: 
ao mesmo tempo andava tudo nos 
ares peloapparecimento de vários No- 
bres, e Generaes que segundo pare- 
cia, vinham d'ínglaterra para servir 
de Columnas à Sagrada Causa da 
Patina. . . Alguém estranhará afigu- 
ra de Khetorica, dizendo que fracas 
columnas poderiam virda Londrinen- 
se ainda que boas durezas por lá nào 
faltem: é que as ditas columnas eram 
Portuguezas , e vinham de retorno. 

Diz o provérbio que níío ha gos- 
to sem desgosto , e provérbios rarís- 
simas vezes mentem ; houve dias de 
rega bofe, náo ha duvida ; mas nâo 
tardou que se divulgasse a furibun- 
da noticia da chegada á vista dos 
dous Exércitos: apparatosa parada se 
foi fazer, debaixo de chuva, no Cam- 
po de S. Ovidio, para maior escar- 
neo de alguns milhares de indivíduos 
victimas de sua credulidade; ainda 
lá se deram vivas , e se tocou o Hym- 
no Constitucional ; mas tudo por des- 
pedida ás risonhas esperanças que se 
haviam concebido I i ! 



18S O ESTUDANTE 

Os Geiíeraes , com o vapor do 
Belfast, evaporaram-se [*] , e os Oíii- 
ciaes e soldados disputaram palmo a 
palmo o. terreno da retirada, único 
meio de salvação para os poucos que 
tiveram a dita de escapar. 

Eserá porventura necessário re- 
ferir aqui o que se passou ?. . Quem 
haverá que se não recorde da pere- 
e:rinaçào peia Hespanha , da memo- 
rável , e desgraçadíssima viagem pa- 
ra Inglaterra, das privações, piolhos, 
frios e fomes do Barracão l 1 ! [**j 

O Estudante de Coimbra, salvo 
por milagre, com risco de seu pesco- 
ço , que nao fora peco achado para 
uma corda d'esparto miguelista, mui- 
to teria a dizer se pertendesse cen- 
surar os acontecimentos , e apontar 
os Auctores de tantas, e tào Jiorri- 



E*^ Barco <\e Vapor. 
**] Grande telheiro velho que serviu 
de quartel a grande numero d^emigrudos, 
e entre elles os Académicos, quando chega- 
ram a Inglaterra. 



DE COIMBRA, 183 

veis desgraças, ou se fosse este o lu- 
gar conveniente para a narração de 
similhantes íiictos . , . Que bello as- 
sumpto náo perde a guéla incançavel 
de qualquer pregador esturrado ! . . . 
Óptima occasiao de desenrolar uma 
pagina maior do que a do Nacional, 
não de palavreado chocho , mas de 
bellas máximas e considerações rela- 
tivas a pavores , e fragilidades huma- 
nas ; se bem que fora de certo ser- 
mão pregado a hereges : peio que me 
toca , nào perdendo tempo n'essas ni- 
nharias , contentar-me-hei denãoen- 
gulir Maranhões , nem papar mais 
carochas , ainda que venham cober- 
tas de chocolate ; embora por meu 
silencio , me arrisque a deixar de ser 
por ahi algum Visir, Bramir, ou Vice- 
Rei de Marrocos, por se fazerem com 
tanta facilidade Vice-Reis , em tem- 
po de revoluções , como colheres de 
páo , ou frades de sabugo , em tem- 
po de santa paz; ficarei plebeo, mas 
um plebeo casmurro , e assisado ; e 
vamos á vacca fria , que o negocio 
foi mui serio . . . Caiu vendaval ter- 
rível sobre a flor da Naçào ; dictou a 



184 O ESTUDANTE 

Lei a escoria dos Portuguezes , fu- 
giram , e mendigaram o pâo longe 
da Palria , da Esposa , e dos carinho- 
sos Filhos , innumeraveis homens de 
boa fé, e óptimos sentimentos ; ge- 
meram muitos encerrados nos cárce- 
res mais immundos, e terríveis, que 
a mão infernal , e frenética da raiva, 
e da vingança podia ter edificado pa- 
ra flagellar os homens ; com innocen- 
te sangue Portuguez se tingiram os 
cadafalsos , sem que a justiça fosse 
arrancar as victimas das arbitrarias 
garras do abusivo poder ; e dissen- 
sões nascidas só de interesses pura- 
meníe pessoaes, separam homens que 
a mesma causa unira , e que a mes- 
ma desgraça flagcliava. . . Ah ! dias, 
ou antes séculos de horror, ficai gra- 
vados na memoria de todos os bons 
Portuguezes , para que a ambiciosa 
Politica estremeça, equescenas d'es- 
tas se não renovem nunca mais. 

Na tarde do dia seguinte fui man- 
dado para uma avançada a duas le- 
goas do Porto na estrada do Norte: 
não mentirei se disser que me raan- 



DE COIMBRA. 185 

daram de molho para lá, porque to- 
da a noite choveu , sem que eu ti- 
vesse fato para mudar, nem qualquer 
abrigo mais do que uma casinha aon- 
de caberiam doze homens , sendo nós 
talvez mais de mil. 

Grande numero de indivíduos, 
e mesmo de famílias inteiras fugiam 
da Cidade ; eu não sabia o motivo , 
julgava que fosse para evitar os in- 
cem modos do combate , e já forma- 
va meus projectos de defesa para o 
dia seguinte, quando vieram por bons 
dias , dizer-me ( em remuneração de 
meus altos serviços) que tivesse a 
bondade de dar ás trancas para a Gal- 
liza ! . . . Caramba^ que balbúrdia 
pelas fileiras Académicas I ! ! Esta- 
mos perdidos, gritavam uns; esta- 
mos traídos exclamavam outros ; mi- 
nha querida Mai, diziam outros, cho- 
rando , e soluçando *, só nos resta a 
fuga , bradava a maior parle alevan- 
tando para o Céo as mãos fechadas, 
e endurecidas pela raiva; mas eu que 
me não sentia disposto a imita-los, 
fazendo meia volta á direita dei co- 



186 o ESTUDANTE 

migo no Porto, em corpo e alma: as 
ruas estavam desertas ; as janellas, 
pela maior parte , fechadas • es sinos 
só aturdiam tudo , quando ninguém 
ousava dar ao badalo ... Os sinos; 
sim Senhor, movidos pelos Ministros, 
e Ministras de Deus , que se regosi- 
javam com a chegada de tantos mil 
diabos. 

Trezentos passos não teria eu 
dado ainda , quando ouvi , da parle 
do rio , taes alaridos , assobios , e 
zurros , que por avisado me dei da 
entrada triunfante dacavallaria bipe- 
de , n'aquella Cidade : confesso que 
não gostei da graça e com razão, por 
que dez minutos só me houveram per- 
dido, se uma velha caritativa , em- 
purrando-me para dentro de sua casa, 
me não fizesse deitar fardamento, e 
arma pela cloaca abaixo , e me não 
desse ( para evitar o escândalo que 
produziria um homem em fralda de 
camiza pela rua fora) um casaco ve- 
lho de desmarcado lamanho, umas 
calças com dous fundilhos góíhicos, 
um collete de pelle do diabo sem pêl- 



DE COIMBRA. 187 

lo , um chapéu roubado ás curiosida- 
des da Historia Natural^ ou de al- 
guma festa de entrudo , e um lacar- 
rao miguelista, que tinha mais cara 
de tomate que de outra cousa. 

Assim paramentado me vi posto 
na rua , e com a porta bem depressa 
na cara por causa das duvidas. . . Oh! 
Quanto mais feliz não fora Diógenes 
n'aquella occasião tendo ao menos um 
tonel de seu : a mim só me restava 
o desafogo de andar á loa , e esse 
mesmo em quanto mo consentissem: 
então presenciei os brincos de um po- 
pulacho desenfreado , sem Rei nem 
Roque , armado da força bruta , e 
das espirituosas inspirações do vinho: 
invadiam-se as casas , quebravam-se 
as vidraças, e as portas, queimavam- 
se innumeraveis preciosidades, insul- 
tava-se impunemente a innocencia, 
demolia-se , e inutilisava-se o que se 
não prestava ao roubo . . . Mas que 
poderei dizer eu de máu , ou de pés- 
simo , que seja capaz de traçar ape- 
nas os contornos de tâo horrivel qua- 
dro ?: • 



188 o ESTUDANTE 

Soavam sete horas da tarde ; se- 
te horas digo eu .' ? . . Sete infinitos 
séculos de fome ! ! ! fome sem real, 
fome sem amigos , fome sem liberda- 
de sequer de proferir palavra , pelo 
risco de suscitar suspeitas aggravan- 
tes , fome que náo quizera ter outra 
vez , nem que por ella me dessem as 
três commendas , e me fizessem Go- 
vernador da Praça d' Alegria , fome 
em fim que me trazia , e me levava 
fora de mim tão cego que esbarrei 
com certo quidam que de dentro de 
uma taberna saía navegando á boli- 
na, e fazendo incalculáveis bordos. 

Continuava a andar quando me 
senti agarrado pelo braço . . . estre- 
meci ... já me julgava nas mãos do 
Carrasco... Safa... Com a fortuna... 

Não era senão o bêbado que me 
obsequiava, e que me disse: — Dê ja 
Vivas ao JSosso Rei D. Miguel . . . . 
Foi mister obedecer-lhe; qualquer ou- 
tro faria o mesmo; a meus gritos acu- 
diram vários odres que ao ver meus 
trajes , e tomando-me por um dos 



DE COIMBRA. 189 

seus me obrigaram a comer , e a be- 
ber com elles , lembrança judiciosa, 
e muito aproposilada , porque a boca 
nào tem fiador , e a fome nào deixa 
livre a quem a experimenta , senào a 
vontade de comer. 

Apenas me vi de barriga cheia, 
me despedi áfranceza; é bem desup- 
por que os taes beberròes nào dessem 
pela minha falta; mas que faria eu 
para remediar a critica posição em 
que me achava ? ! ! Por que modo sai- 
ria do meio de tantos , e de tão fero- 
zes ursos em terra estranha para mim, 
sem dinheiro, sem amigos ? ! ! Intrin- 
cado era o problema , e d'aquelles 
que só o acaso muitas vezes pôde re- 
solver : assim me aconteceu , certo 
sujeito bateu a uma porta a cuja um- 
breira eu me havia encostado, e per- 
guntou pelo Cônsul Francez ; um raio 
d'esperança me luziu no mesmo ins- 
tante, também eu bati, e perguntei pe- 
lo mesmo Senhor, que me mandou en- 
trar, veiofallar-me, e ouviu com sum- 
ma bondade , e attenção , trazendo- 
me logo duas moedas, e dizendo-me: 



190 O ESTUDA If TE 

— Eis aqui de quanio me é possí- 
vel dispor para lhe valer, queira o 
Céo que possa esta pequena quantia 
salva-lo da critica posição ern que se 
acha... Ah! homem generoso! As 
palavras que proferisle , foram since- 
ras; a tua filantropia verdadeiramen- 
te voluntária : Deus , ou algum An- 
jo bom esculou , e attendeu a (eus 
votos . . . Feliz mil vezes sejas tu meu 
redemptor . . . 



DE COIMBRA, 191 



CAPITULO XYI. 

A RSTIRADA. 

ogo que me separei do Cônsul ca- 
minhei para a Ponle resolvido a sair 
da Cidade,, a todo o custo , e a todo 
o risco , certo de me achar perdido, 
se o nào podesse conseguir durante a 
noile: em galante enleio me houve- 
ra visto por se ter tirado a ponte , se 
não achasse grande numero das bar- 
cas que tinham servido á tropa, e 
aos guerrilhas para atravessar o rio, 
e das quaes nem sequer appareciam 
os donos : metti-me dentro de uma 
das menores, e comecei a remar com 
valentia : tào forte era a corrente, 
que por pouco não saí pela barra fo- 
ra ; isto mesmo foi no entanto o ins- 
trumento da minha salvação , levan- 
do-me para o outro lado do rio a tal 
distancia da Cidade, que fiquei fora 
do alcance dos innumeraveis pique- 



^ 



192 Ò ESTUDANTE 

les , e sentinellas : tractei logo de 
ne afastar, e fui caminhando: tive 
ao amanhecer a ventura de me achar 
no mesmo sitio aonde havíamos pou- 
cos dias- antes descançado com os pre- 
sos : duas legcas me separavam de 
meus inimig^os , depois de ler sem 
duvida corrido mais de quatro com 
incerteza e receio , peia mais terrí- 
vel escuridade: ao ver-me alli ]og:o a 
esperança renasceu na minha alma .. 
Afastei-me da estrada , e agradecen- 
do á Providencia por me haver soc- 
corrido me assentei para descansar, 
e reflectir no que deveria fazer : era 
temeridade seguir a estrada real, por 
que mais facilmente me encontrariam, 
e prenderiam como suspeito ; para 
não a seguir perder-me-hia no cami- 
nho, bem que morresse d'impaciencia 
por chegar a salvo até a casa de Ro- 
dolfo : assim me achava sem saber 
o que fizesse, quando me levantei,' 
e dando poucos passos vi diante de 
mim um cadáver estendido por terra, 
vestido ainda, e uma espingarda caí- 
da, ao lado, o que seria de admirar 
se não estivesse distante dos logaresr 



DE COIMBRA. 193 

transitáveis : pareceu-me ser o corpo 
de al^um guerrilha, fui-Jhe dar bus- 
ca ás algibeiras , e achei ; uma bui- 
la para comer carne, uma (slampa 
de N. Senhora da Buraca, dons bi- 
lhetes de confissão , um rol de fuilos, 
e um papel que dizia — Pó<le transi- 
ta?^ livremente o portador iio serviço de 
Sua Magestade , o Sr. D. Miguel Pri- 
meiro. Ú,uartel emPedreiía ti de Ju- 
nho d^^'28. izi O General Povoas zn 

A' vista d'esíe papel com que 
me recordava ainda do que me haf 
viam contado á cerca do valor dos 
nossos na Ponte do Vouga fiquei al- 
voroçado; batia-me o coração que»pa- 
recia querer sair do peito. . . Guar-tlei 
aquelle achado como se fora o dia- 
mante do Grã Mogol . . . Acredita^ 
meu leitor, que tinha razão... Aquel- 
le presente vinha do Céo ; talvez em 
remuneração de virtudes, e mais par- 
les que concorreram em alguns de 
meus antepassados . . . 

IVl^ais afouto do que nunca me 
puz então a caminho para a quij^a 

TOMO I. 9 



194 o ESTUDANTE 

de Rodolfo , levando comigo a espin- 
garda que se achava carregada ; e re- 
presentando tão soffrivelmente o meu 
papel de guerrilha , que nada me 
occorreu durante a jornada , achan- 
do passagem franca por toda a parte 
apenas apresentava o papel : á medi- 
da que me aproximava das amenas 
margens da Ribeira de Cosêlhas, sen- 
tia dentro de mim uma commoção 
inexplicável . . . Como iria eu achar 
Maria, Rodolfo, e a nariguda Velha?.. 
Meus tormentos se minoravam com 
as agradáveis recordações dos ame- 
nos dias da Primavera , que passa- 
ra ao lado de quem tanto amava , 
e quasi que não sentia meus males, 
formando com a esperança de novos 
dias similhantes, mil idéas de um fu- 
turo fantástico , e lisongeiro ... Já 
estava a poucos passos da casa de 
Rodolfo ; já pisava terras que lhe per- 
tenciam ; já me parecia que terna- 
mente apertava Maria entre meus 
braços .... Mas oh Meu Deos ! . . . 
Aonde estará ella ? ! ! Quem me rou- 
bou o meu thesouro ! ! ! Só, mudas 
lembranças vejo do passado ! J ! Em 



DE COIMBRA. 19& 

vez de casas, um montão deruinas!!í 
Gelou-se-me nas veias o sangue, meus 
oljbos ficaram fixos por algum tem- 
po quaes os do moribundo; té que 
passei repentinamente á loucura da 
desesperação . . . Andei . . . Corri . . . 
Parei. . . Fiz mil exclamações. . . Pra- 
guejei . . . Nem eu mesmo sei bem 
o que fiz, ou o que deixei de fazer... 
Voei a casa do irmão do Caseiro y 
achei-a reduzida a cinzas ! . . Uma 
cabeça humana estava diante da por- 
ta espetada em um páu . . . Recuei 
horrorisado .... Fugi ..... Tornei a 
voltar. . . . Quiz reconhece-la . . . O 
rosto mutilado mal deixava já distin- 
guir as feições . . . Mas ah 1 ! ! Que 
horrorosa descoberta! ! ! meus cabei- 
los se arripiaram . . . Era a cabeça 
do desgraçado Caseiro de Rodolfo. . . 

Perdi inteiramente a razão . . . 
Engatilhei a espingarda , e fui para 
desfechar comigo , quando senti que 
me tocavam . . . Estremeci . . . Vol- 
tei-me . . . Um cão cheio de jubilo me 
afagava ! ! ! Pobre animal , também 
lhe coubera parte na desventura ! . . 
9 * 



196 O ESTUDANTE 

Tinha perdido seu amo; era um or- 
fáo que a fatalidade me obrigava a 
soccorrer , um velho amigo que reco- 
nhecendo-me voara para mim : meu 
coração se enterneceu com a sua inex- 
plicável alegria; tranquillisou-se mais 
o meu espirito, entrei na razão, as la- 
grimas rebentaram de meus olhos ; 
as lagrimas com que tanto se allivia 
em certos momentos a nosso alma , 
como a tempestade se abonança com 
longos , e prolongados chuveiros . . . 
Quantos afagos lhe não fiz ! Quantos 
me não merecia elle que me salvara 
a vida ? ! ! Ah ! . . . Permitti que vos 
confesse estúpida, e orgulhosa huma- 
nidade; maior serviço recebi d'aquelle 
Cão n'um só instante , do que tenho 
alcançado de vós , de vossa moral , e 
decantada filantropia, durante ávida. 

Aos Cães, dizia ElRei D. Aflbn- 
so de Aragão , fallando dos ingratos, 
da-se-lhes sopa, para que não ladrem, 
nem mordam ... D. AíTonso de Ara- 
gão desconhecia os Cães, os homens, 
e talvez a si; se assim não fora, bus- 
cara com mais justiça melhor exem- 



DE COIMBRA. 197 

pio ... O Cào , dizem todos por fa- 
vor , é o amigo Jiel do homem : e só 
amigo jiel ^ lhe chamais?!! Insensa- 
ta humanidade ! . . Considera-o bem; 
desce da cathegoria a que te remon- 
tas com desordenado orgulho ^ procu- 
ra no meio dos brilhantes adornos d'€s- 
sa tua denominada sociedade , senti- 
mentos mais nobres, esociaes na rea- 
lidade do que esses que a Natureza 
prodigalisou a um ciio ! ! ! Ao animal 
que cegamente denominais amigo , 
acrescentando-lhe : Irracional \1l Ir- 
racionaes sois todos vós , homens in- 
sensatos , que vos dilacerais mutua, 
e terrivelmente; que pertendeis sem- 
pre disfarçar refalsados sentimentos 
debaixo de mil tregeitos, e palavras 
astuciosas ; que vos servis da força 
para opprimir, e da fraqueza para 
conspirar ; que denominais Juízo ao 
melhor modo de caminhar do nada 
que sois para o muito que imaginais 
ser; e que supplicantes humildes hon- 
tem, servidos sois hoje, para vos mos- 
trardes ingratos, e traidores amanha!!! 
E ao Cào somente chamareis AmigoWl 
Ah ! tomai-o , tomai-o por modelo ; 



198 Ò ESttJDANtE 

talvez qiíe d'entre vós nem um só 
reúna suas nobres qualidades. 

Depois de se haverem serenado 
rriáis em mim os graves resultados 
d'aquella vivissima commoção , íra- 
ctei de fugir e de alcançar Lisboa. Não 
foi sem custo que pude resolver meu 
Amigo a acompanhar-me; menos cruel 
lhe parecia a miséria, do que a sauda- 
de dos logares do seu nascimento . . . 
Quantos homens nào vemos nós des- 
tituidos d'es(es doces sentimentos , 
que por dous titulos d'essa fantasma- 
goria aristocrática , por um pouco de 
metal sem honra nem vergonha , ou 
para manter paixões exageradas , e 
reprehensiveis , por moda , por estu- 
pidez, ou por capricho, desaprêciam 
tudo quanto é do seu Paiz , vendem 
á terra que lhes deu o ser , e derra- 
mam o sangue de seus irmãos ! ! ! O 
bom Farrusco parava de quando em 
quando , e olhava para traz , como 
supplicando-me que o deixasse voltarí 
só com festas , que despertavam o seu 
reconhecimento , podia novamente , 
dicidi-lo aacompanhar-me. Possante, 



e resoluto tivera Avos naturaes de 
Terra Nova , Pais Portuguezes , e 
vários parentes e Irmãos valentes co- 
mo as unhas , e collocados agora em 
mui brilhante posição social. 

Assim como do Porto viera alli, 
cheguei ao anoitecer (depois de vá- 
rios dias) á margem fronteira de Sa- 
cavém : a barca de passagem estava 
do outro lado, e para esperar porella 
me fui assentar n'um montão de ter- 
ra que pouco distava do logar do em- 
barque : três minutos se não teriam 
ainda passado , quando dous vultos 
se chagaram a mim , e me pediram 
o passaporte : era um soldado da Po- 
licia , armado de baioneta , e outro 
sujeito á paizana com uma lanterna 
que me foi metíendo á cara; pare- 
ceu-me reconhecer aqueilas feições, 
e com efíeito as conhecia : era o La- 
ponio do Casarão velho onde eu tinha 
brigado com as almas do outro mun- 
do , perto de dous annos antes; não 
me dei por conhecido , mas o maldi- 
to lembrando-se de mim , rompeu 
n'um furacão de alambazadas consi- 



200 O ESTUDANTE 

deraçòes acerca de meu vestuário Co' 
tnico-Tragico : — Nada , nada , gri- 
tava eUe ; como é crivei que um Se- 
nhor Estudante de Coimbra se apre- 
sente d'este modo ? . . Ou Você men- 
tiu quando nos disse que era Estudan- 
te, ou mente agora querendo passar 
por fiel vassallo do nosso Rei o Sr. 
D. Miguel . . . Você não é senão um 
Pedreiro livre disfarçado , um Ma- 
Ihado do Diabo , e por isso nada de 
arengas . . • Vonha preso . . . 

Mostrei o milagroso papel que 
possuia, nenhum d'eHes sabia ler^ des- 
enrolei um Santo Sudário de sup* 
plicas , e razoes sentimentaes ^ pin- 
tei o inaudito serviço que lhe pres- 
tara, desencaníando-lhe a casa dos 
Vampiros^ Corujas que tanto medo 
lhe causavam . . . Tudo ouvia com pa- 
chorra ; porem a Qioxla o bruto se mO" 
via , senào a accresceníar o estribi- 
lho . . . Venha preso , Venha preso : 
para encurtarmos razões, engalfinhou- 
se em mim com tanta gana , que por 
um triz me nào deslocou o braço agar- 
rando-se-me por outro lado o mavio- 



DE COIMBRA. 201 

so Policia, que procurava aos beiços 
levantar um apito , para chamar au- 
xilio , sem o poder conseguir pelos 
passos de Solo Inglez que eu fazia 
para me desenvencilhar. 

Sempre é certo que não ha resis- 
tência contra a força , e dous contra 
um , robustos como elles eram , con- 
tra mim delicado e abatido , deviam 
necessariamente conseguir o quequi- 
zessem : já o malvado apito estava 
para largar o terrível som de minha 
desgraça , mais pavoroso que o da 
trombeta final que ha de chamar 
todos os mortaes a contas, pondo com 
isso muitos a razão de juros; quando 
meus inimigos me largaram ambos ao 
mesmo tempo no meio da maior con- 
fusão : tinha-os Farrusco tomado á 
sua conta , era dentada que mettia 
medo ... O grato paizano não dava 
já signaes de vida estendido no chão; 
só o soldado se defendia denodada- 
mente com a baioneta, ameaçando a 
vida de meu fiel defensor : á vista 
d'isto recobrei alento, e saltando no 
Auxiliante ás cronhadas , para evitar 



*0a o ESTUDANTE 

qualquer estrondo que me pudesse 
deitar a perder, por terra o estendi, 
nào sei ainda hoje , se morto , ou 
atordoado. 

A escuridade da noite , e a pe- 
quena bulha com que tudo se fez não 
me denunciou a pessoa alguma ; cor- 
ri para a margem do Rio, acabava 
a barca de chegar , estava para par- 
tir, aproveitei-a, e não tardaram duas 
horas que muito senhor de mim nào 
pisasse as ruas da Capital. 

Mal poderei pintar quanto senti 
ao ver-me no centro da Cidade , pró- 
ximo por instantes a receber os Ma- 
ternaes afagos .... Mas , oh meu 
Deus ! ! ! Minha Mai acabava d'es^ 
pirar ! . . Meus bens ja lhes não po- 
dia chamar meus?.. Meus amigos 
estavam mortos , presos , homisiados 
ou fugidos ; e o negro horisonte que se 
mostrava diante de mim era o da des- 
graça . . . 

FIM I>0 PAIM9IIIO TOMO. 



<»t»<»>lWW^»MMl»»«l* . »*%<«<* <*!%%*% %><WW* i WlV»»%HHH%lM» > <»t»%»%«H%W 



INDEX. 



ADVERTÊNCIA .... pag. b 
CAPITULO L Introducçáo . . 9 

CAP. 11. O caloiro 20 

CAP. 111. O novato 35 

CAP. IV, Auferias grandes em, 

1826 ôl 

CAP. V. Venit hora mea .... 65 
CAP, VI. Papel para mechas . 86 

CAP. Vil. A visita 95 

CAP. VI 11. Mais uma pagina 

d'' historia 108 

CAP. IX. Ventura., e desventura, 118 

CAP. X. Temos obra 126 

CAP. XI. As circunstancias fa- 
zem, o homem 139 

CAP, XI 1. A visita nocturna . , 152 
CAP. Xlll. A revolução .... 161 
CAP, XIV. Passeio em dous dias 

ao Porto 176 

CAP. XV. Q/uin%e dias de orató- 
rio 180 

CAP. XVI. Aretirada 191 






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TU 






DE 



©©âaasa^a 



ou 



SA 



DESDE 1826 ATE 1838. 

PELO 



TOMO II. 




LISBOA, 

TYPOGIIAPHIA DE ANTÓNIO JOSÉ DA ROCHA) 
AOS MARTYIIES, N." 13. 



1841. 



3 



o ESTUDANTE 



DS 



COIMBRA. 



CAPITULO XYII. 

o XIMOEIRO 

ãô quatorze de Julho , estcu mo- 
rando n'umas aguas-furladas com far- 
rusco, e com a minha criada velha; 
meus cabedaes achão-se todos met- 
tidos dentro d'um bahú salvado ao 
sequestro , cuidadosamente escondido 
e que merece o nome , e as honras de 
museu pela variedade dos objectos que 
com tem ; reduzem se meus passa tem- 



t) o ESTUDANTE 

pos a ir tomar o fresco ao anoi- 
tecer , á maneira de gato , por cima 
do telhado , ou a ver se descubro na 
Barra alg-uma Esquadra Ingleza , que 
venha pacificar o paiz , attendendo 
aos grandes esforços, que faz sempre 
o gabinete Britânico para manter a 
paz em casa dos visinhos; por que tal- 
vez se lembre ainda das lições , que 
deram a seus antepassados alguns pi- 
ratas , e aventureiros, honrosos mes- 
tres de tão bons discípulos . . . Ah ! 
Quantos Godemes não teriam pronun- 
ciado aquellas angélicas boquinhas, 
quando no decimo século se remiram 
da mais cobarde , e vergonhosa es- 
cravidão ao rasoavel troco de quaren- 
ta mil libras, representando elles nes- 
sa época peior , e muito peior pa- 
pel que o de Chinez : ou quando 
Canuto , Rei da Dinamarca , os pro- 
clamou escravos, ou quando Guilher- 
me , Duque de Normandia , os con- 
quistou , e bateo , como se fossem 
por ahi alguns Mfes . . . Pobres ami- 
gos ! . . Até se mearrasão os olhos de 
agua , ao lembrar-me de vossas mi- 
sérias d'aquelles tempos! . . Ah! . . Se 



DE COIMBRA. 7 

soubésseis , como vos quero , teríeis 
trocado pelo vosso copo de ponche, a 
agua da Fonte da Pipa , com vistas 
de me arrancar das unhas do vosso 
amigo Rei-Chegou , e de apagar em 
minha alma as tristes recordações que 
me ílagellavam, a saudade dos carinhos 
maternos , e a lembrança de que não 
tinha Pátria, ou se a tinha, era, em 
vez de segunda mài, cruel madrasta... 

Estava pois na região das telhas 
estremecendo ao menor estrondo, re- 
presentando a cada instante o papel 
de ratinho , recebendo noticias tris- 
tes , uma apoz das outras *, sem po- 
der chegar á janellal Sem poder fal- 
lar a pessoa alguma !. . Oh! Situa- 
ção infernal ! . . Não podia viver as- 
sim; resolvi-me a fugir. Soavam duas 
horas da noite pela Cidade, e eu ve- 
lava ainda; tardava-me a manhã , co- 
mo sempre tarda o que anciosamente 
se espera; tardava-me o dia, porque 
eu devia com elle abandonar saudoso 
o meu Paiz , theatro de horrorosas 
scenas: mil projectos se me revolviam 
na mente , e as esperanças , que eu 



8 o ESTUDANTE 

alimentava de alcançar por este meio 
a minha tranquillidade , me apre- 
sentavam a mais lisongeira idéa do 
meu porvir : — Sahirei , dizia eu , 
desta Pátria desgraçada, testemunha 
de perseguições , de sequestros , de 
mortes , de degredos , de sentenças 
infames , de Juizes frenéticos de rai- 
va , de um Governo que se sustenta 
á custa d'esmolas , e de roubos; que 
delega seus poderes em malvados 
de toda a espécie ; que cegamente 
recebe qualquer denuncia por infame 
que seja , e mais cegamente ainda 
encarcera , e condemna os individues 
os mais virtuosos ; que faz das vir- 
tudes] crimes , e premeia os crimes, 
como se fossem virtudes. . . Âh\ Fu- 
jamos , disse eu em voz alta . . . Fu- 
jamos .... Ao mesmo tempo soavam 
cinco fortes argoladas á porta da ruai !l 
Saltei pela cama fora , vesti-me con- 
fusamente , fui para me escapar sem 
que por então me levasse a isso mais 
do que um presentimento occulto ; 
mas debalde ; já estava rodeado de 
fariseos impassivos, já o malvado Mi- 
guel Alcaide me intimava a ordem 



DE COIMBRA. » 

de prisão, já gavetas, armários, par- 
teleiras , e bahús , menos o precioso^ 
experimentavam toda a casta de vio- 
lência debaixo do nome de busca ; 
já sahia de minha casa aos empur- 
rões , e ás cronhadas entre lagrimas 
da criada fiel , e epithetos injuriosos 
dos aguazis... A rua estava coalhada 
de Janizaros , que me aguardavam, 
para me irem lançar nos horrores da 
escravidão. 

Cheguei ao Largo do Limoeiro, 
subi as escadas , no momento , em 
que partiam de meio a meio a meu 
lado um desditoso companheiro d' in- 
fortúnios . . . Correu-se o lúgubre fer- 
rolho , entrei na casa dos assentos, 
cheia de innumeraveis victimas , e 
entre ellas Senhoras de consideração, 
que sem respeito , nem piedade fo- 
ram mandadas para a prisão das mu- 
lheres mais infames : tirárão-me o 
meu chapéo , e como pela pressa com 
que eu pertendêra evadir-me, no acto 
da prisào , não levasse dinheiro , me 
arrojaram sem mais formalidade, pa- 
ra a enxovia , horrorosa e pestilen- 



10 o ESTUDANTE 

ciai morada da desgraça , e do cri- 
me .... 

Apenas a entrei , a pezar de ser 
alta noite , se me apresentou um ho- 
mem de má catadura , dizendo-se o 
Juiz da prisão (alta dignidade da no- 
meação do Carcereiro), e requerendo 
os emolumentos , e propinas perten- 
centes á sua catiiegoria: expuz-lhe os 
motivos , que me embaraçavam de 
o satisfazer immediatamente , e cer- 
tifiquei-lhe que nada perderia por es- 
perar até ao romper da manhã : pare- 
ceu satisfazer-se com a resposta , as- 
severando-me, com tudo, que a falta 
de cumprimento da minha palavra 
seria , segundo as formalidades e cos- 
tume , punida com uma roda de páo, 
que me quebraria indubitavelmente 
os ossos todos ; almoço que por certo 
nào houvera sido dos melhores. 

Apenas começou a romper o dia, 
escrevi para casa, pedindo dinheiro; 
careci para esse fim da licença do 
dicto Snr. Juiz , e da presença dos 
senhores Escrivão , e Pedidor , Au- 



DE COIMBRA. 11 

thoridades suas subalternas , e de sua 
nomeaí^ào , perante as quaes tive de 
escrever a carta, que por via do ul- 
timo foi mandada reme tter ao seu des- 
tino. 

No meio de immensos criminosos 
de todas as classes pude então teste- 
munhar os mais tristes quadros ima- 
gináveis : por um lado nojentos cor- 
pos quasi nus, cobertos de vermes , 
com péssimos , e mirrados semblan- 
tes , ag-itando-se, quaes negros espe- 
ctros, atravéz d'aquellas frias aboba- 
das : por outro lado centos de infe- 
lizes semimortos de fome , devoran- 
do com avidez , como cães vagabun- 
dos , cascas , ossos , e immundicies 
de toda a sorte; estes gemendo, aquel- 
les praguejando , e alguns promoven- 
do por mil maneiras clandestinas tro- 
cas, e vendas deinnumeraveis furtos. 
No entanto me chegou o dinheiro , sa- 
tisfiz largamente as esperanças d'a- 
quelles altos funccionarios meus cre- 
dores , saciei momentaneamente a 
desmarcada avidez de ouro , com que 
os infames carcereiros de tão desgraça- 



lâ o ESTUDANTE 

das épocas se encheram, por meio de 
ardilosos tramas com centos de mil 
cruzados ; em lucros de carceragens, 
e emolumentos , e passei a habitar a 
denominada Sala livre ^ nome que lhe 
foi sem duvida dado por irrisão , e 
muito mais n'aquelle tempo em que 
o numero de presos era tal que a não 
ser por diabólico milagre , nas pri- 
sões não caberiam. 

Achei-me cercado por centenares 
de companheiros , que interrogando- 
me , e animando-me, me consolavam 
por algum modo dos rigores do cativei- 
ro; mas não eram sómartyres da Pá- 
tria, os que alli se achavam; monstros 
sobrecarregados de nefandos crimes ti- 
nham sido de propósito enviados pa- 
ra nos espiar , e flagellar nossos co- 
rações : as scenas mais com pungen- 
tes vinham diariamente abrir o rápi- 
do , e abundante curso de nossas la- 
grimas ; umas vezes era a Mulher 
de Manoel Francisco da Silva com 
sete filhinhos innocentes , ávidos to- 
dos de pão, privados de quanto pos- 
suiam pelo sequestro ou pelo roubo e 



DE COIMBRA. 13 

saudosos de um carinhoso pai , que 
vivamente sentia seus males sem lhos 
poder suavisar^ outras vezes eram tris- 
tes companheiros cobertos com a pal- 
lidez da morte , que chegavam das 
enxovias, arrancados por nossas subs- 
cripçòes : ora recebíamos a noticia 
da creaçáo de Alçadas, e de cruéis 
Tribunaes de sangue ; ora sabíamos 
que , aos centos haviam sido assassi- 
nados os nossos pela populaça, trazen- 
do-nos isto á lembrança as nefandas 
scenas da Revolução Franceza. Até a 
desenfreada raiva dos heroes da usur- 
pação nos apresentou um exemplo de 
barbaridade , sem duvida singular na 
historia dos crimes , por que arrojou 
a todos os horrores , e flagellos de 
um segredo, e alli deixou jazer por 
muito tempo enferma , a innocente 
filha do Snr. Araújo : Innocente digo 
eu ! . . Angélica , por que tinha ape- 
nas cinco annos d'idade ! ! ! Migue- 
listas de boa fé , se é que os ha, di- 
zei-me se podem ter desculpa tantas 
e taes monstruosidades 1 . . 

Em quanto assim gemíamos nos 



14 o ESTUDANTE 

cárceres abandonados a todos os horro- 
rosos flagellos da usurpação, expunha- 
se uma Joven Rainha , a Rainha dos 
Portuguezes, a Filha do Immortal D. 
Pedro aos perigos , e incommodos da 
navegação, e sulcando afouta em ten- 
ros annos as vagas embravecidas, vi- 
nha perguntar á Europa , e princi- 
pahnente á Inglaterra sua particular 
Alliada\ se era justo, que no tão ve- 
lho, e nobre Portugal reinasse um 
monstro, coberto de sangue e de cri- 
mes, quando a ella só, innocente , jo- 
ven, e pura como o surriso da vir- 
tude, competia com justiça governar 
os Portuguezes ? Com o silencio res- 
ponderam todos... Não digo bem^ por- 
que o Governo dos nossos leaes yíllia- 
dos , e antigos defensores já tinha, 
respondendo anticipadamente , man- 
dado metralhar os fieis Súbditos da 
mesma Augusta Senhora por que de- 
mandavam tranquillo abrigo em ter- 
ras , que a Ella pertenciam , e orde- 
nado que mettessem a pique, se ne- 
cessário ou possível fosse, os vasos em 
queelles se transportavam para a Ilha 
Terceira , columna inabalável da li- 



DE COIMBRA. 15 

herdade , e do legitimo Throno Portu- 
guez... Oh! Infâmia das infâmias!... 
JVIancha infernal para o roslo da po- 
litica Ingleza, se no rosto dessa po- 
litica bastarda pôde haver um logar 
por minimo que seja, sem a nódoa 
do roubo, da má fé, ou do crime! — 
Que o digam Copenhague, Quiberon, 
e Sancta Helena ! Que o diga o Mun- 
do inteiro, victima de suas intrigas 
de suas manobras infames , de suas 
victorias cobardes , porque é cobarde 
a Naçào que em vez de ganhar a vi- 
ctoria a compra. A Inglaterra até ho- 
je tem sabido subornar , e nada mais; 
quando os meios lhe faltarem para 
esse fim por que lhe, hão-de faltar um 
dia, desgraçado de quem forínglez, 
sobre tudo se já tiver acabado o tra- 
fico da tâmara doce . . . Mas vamos 
ao que vale a pena. 

Chegou a noite fatal de nove de 
Janeiro de mil oito centos e vinte e 
nove, para arrastar cinco infelizes 
ao cadafalso , lavrando-se a Senten- 
ça mais iniqua , que tem appareci- 
do desde que o Mundo he Mundo : 



16 O ESTUDANTE 

redobraram por isso as prisões , e co- 
mo nào houvesse capacidade no Li- 
moeiro para guardar os presos com 
segurança , nos fôrão removendo do 
antigo palácio dos condes d'Assumar 
[*] para a Torre de S.Julião da Barra, 
onde não pequeno numero de calami- 
dades , me aguardavam ainda , e a 
muitos outros desgraçados. 



[*] Nome qued^antes tinha o Limoeiro. 
— celebre pelo assassínio do Conde Andeiro 
em prezença da Rainha D. Leonor , que 
alli vivia, praticado pelo Mestred'Aviz, de- 
pois D.João L' 



DE COIMBRA. 17 



«MVM^MVKVtlWVWkWMiMaiVM^VV^VtWMMWVMWmMMAIMWMWMAAnAWVMI» 



CAPITULO XYIII. 



DA EXTREMA ESCRAVIDÃO ESTA BEM 
PRÓXIMA A I.IBERDADE. 



á tinha dado meia noite , a chuva 
caía a cântaros , o vento assobiando 
desenfreado, apagava a cada instan- 
te as mortiças luzes dos agitados lam- 
peões da cadeia , quando me condu- 
ziam com outros desgraçados para a 
Torre de S. Julião da Barra. 

Chegámqs á porta da fortaleza, 
e só depois de esperarmos muito tem- 
po, nos levaram para a Guarda Prin- 
cipal, e nos mandaram despir, para 
ver se occultavámos alguma cousa, 
que lhes não conviesse deixa r-nos : 
terminada esta ceremonia , nos man- 
daram com arrogância marchar mes- 
mo nus atra vez de medonhas , e ne- 



18 O ESTUDANTE 

r vadas abobadas, e nos mettêram por 
fim aos empurrões n'uma escuríssima 
prisão: só ao romper do dia podemos 
pela frouxa claridade de uma acanha- 
da fenda examinar nosso aposento: era 
estreito , e irregular ^ as paredes es- 
tavam tam repassadas de humidade, 
que se lhes enterravam os dedos , co- 
mo em barro ; por um dos cantos da 
porta corria agua tão abundantemen- 
te , que em regueira se hia espalhar 
por toda a casa, formando a final um 
charco por baixo da fresta. 

N'aquella masmorra devia eu por 
algum tempo expiar meus peccados, e 
gemerem perto de cinco annos muitos 
martyres da Liberdade Portugueza... 
Da Liberdade Portugueza I I ! Vá que 
seja . . . As supplicas humildes , com 
que algumas vezes se dcmão as bra- 
vezas dos tyrannos , serviam alli so- 
mente de motivo a perseguições hor- 
ríveis. Os queixumes, com que de al- 
gum modo os desgraçados suavisam 
seus males, eram considerados como 
crimes. As representações por mais 
justas, respeitosas, e legaes que fossem 



DE COIMBRA. 19 

eram baldadas , porque a Lei só con- 
sistia por então, na vontade cega , e 
caprichosa de feras indomáveis, des- 
tituidas de qualquer sentimento de hu- 
manidade. Curtos eram os annos para 
seexcogitar novos meios deflagello, e 
perseguição. Nenhuma cathegoria , 
qualidade , ou merecimento deixava 
de se desvanecer ante a desmedida rai- 
va e a crassa estupidez dos monstros. 
Os epithetos malhado , e pedreiro li- 
í're , acompanhados de toda a casta 
de violência , não respeitavam sexos, 
condições , nem idades. A palavra 
Religião , que os lábios d'quelles ti- 
gres tantas vezes profanavam , só 
exprimia certas formulas superficiaes, 
cheias de vergonhosa hypocrisia . . . 
Ah ! Consolai-vos, altos representan- 
tes de Satanaz .... Vossa memoria 
caminhará a par da eternidade , sen- 
do a lembrança destes horrores tão 
honrosa para os nobres perseguidos, 
como aífrontosa , e aviltadora para 
vós, seus vis perseguidores. [*] 



[*] Veja-se — Historia do cativeiro dos 



20 O ESTUDANTE 

Eis O resumido quadro dos hor- 
ríveis tractamentos que soffriamos , 
quando no dia vinte e um de Maio 
se espalhou por via do Capitão do 
Paquete Inglez , que a Senhora D. 
Mariall. fora reconhecida pela Ingla- 
terra , aonde se embarcariam tropas 
para Portugal , no caso que D. Mi- 
guel não largasse immediatamente o 
Reino conforme a Nota , que rece- 
bera do Gabinete Inglez : qualquer 
homem , que estivesse na sua liber- 
dade, e podesse reflectir, sem desejos 
nem paixão, o que a poucos acontece, 
conheceria facilmente os fins do Phi- 
lantropico Britânico , que procurava 
levar, permeio desta noticia, o navio 
carregado de passageiros; porem nós 
soffredores de mil privações , e ve- 
xames, entregues ao monstruoso arbí- 
trio do mais fero despotismo, desejosos 
da liberdade, como néctar precioso da 
existência acreditámos tudo , e de 
tal sorte se nos exaltaram os espíritos, 



presos d'Estado da Torre de S. Julião da 
Barra^ 



DE COIMBRA. 21 

que demos vivas á nossa Rainha , e 
á Carta Constitucional , íicando-me 
reservada a mim , como rapaz deci- 
dido , a consolação de esbofetear al- 
guns dos mandões assanhadiços , que 
por então tiveram a imprudência de 
entrar na prisão aonde me achava. 

Poucos dias se passaram de fan- 
tástica ventura , e os males , que se 
lhes seguiram , foram mil vezes mais 
terríveis , do que os bens , que pas- 
sageiramente gosa-mos; pela minha 
parte fui mettido n'um segredo sem 
luz aonde me deixaram por muitas se- 
manas, dando-me a certas horas a agua 
quasi até pela cintura. Passado algum 
tempo me foram buscar, e me condu- 
ziram á presença do nunca assaz lou- 
vado Telles Jordão , que no meio de 
um surriso sardónico me disse : 

— Ora , meu Menino , tem sido 
tâo espertinho nestes últimos tempos, 
que d'isso dei parte a S. Magestade, 
e vai Você immediatamente recam- 
biado daqui para o Limoeiro, porque 
lhe querem já ajustar as contas. 



f 2 o ESTUDANTE 

— Sim ! Muito folgo: de boa men- 
te iria até para o Inferno , se para 
lá me mandassem. 

— Hâo-de o mandar para a forca, 
grandissimo ladrão. 

— Ainda isso me parece menos do 
que os favores , com que o senhor 
Governador , e a sua gente me teni 
obsequiado; e demais morrer por mor- 
rer , quanto mais depressa melhor, 

— Ora vejão , como é animoso . , . 
Levem-no , levem-no antes que eu 
o mande enforcar aqui mesmo. Entre- 
guem-no lá , a essa gente. A Deos, 
meu senhor, até um dia cedo no Cáes 
do Tojo . . . 



— A Deos, Snr. Governador , não 
duvido que nos encontremos ainda 
em algum cães para darmos hum ale- 
grão ao público . . . [*] Depois desta 

[*] Telles Jordão foi morto depois da 
ac^ão da cova da Piedade, junto ao cães 
de Cacilhas. 



DE COIMBRA. 23 

curta , e obsequiosa despedida me 
fôrâo entregar á responsabilidade de 
certo Oíiicial de uma Escolta , que 
me fez entrar para uma sege , onde 
se achava um sujeito , cujas feições 
não pude distinguir por ser já noite, 
e muito escura. Pozemos-nos a cami- 
nho , e parece que iamos ao desafio, 
a qual dos dois representaria mais se- 
riamente o seu papel de mudo; quan- 
do a sege deo tal salavanco , que 
asalvajadamente nos arrojou um con- 
tra o outro sem a minima , ceremo- 
nia , fazendo proferir a meu compa- 
nheiro as palavras, — Arre macho — 
Julguei reconhecer aquella voz ; e ou 
fosse por esse motivo , ou porque a 
fraze me trouxesse á lembrança aquel- 
les ditosos dias da minha liberdade, 
e das minhas jornadas para Coimbra, 
não pude deixar de dizer por entre os 
dentes — Ah! tempo, tempo... Po- 
bre Caréo , que será feito de ti ! . . . 
A estas palavras senti-me agarrado 
com violência . . . Pensei que era o 
carrasco , e já começava a rezar o 
Credo em cruz (porque mui poucos 
deixão de rezar á hora da morte) 



ê4 o ESTUDANTE 

quando passei do extremo do terror 
ao da surpreza , ouvindo que me di- 
ziam a rheia voz. 

— Ai ! Nhor Doitor ! Pois é Vo- 
nhoria que eu trago catrafdado! Esta 
só por os dianhos ! ! J 

— Oh ! Meu Deos 1 Será isto um 
sonho ? I Pois és tu , Caréo ? ! 1 

— Eu mesmo em corpo , e alma 
com todos os demóinhos. E viva lá 
que não é o Caréo arrieiro, é o Nhor 
Escrivão do Crime. 

— Escrivão! Pois estás feito Es- 
crivão, quando apenas sabias escre- 
ver o teu nome ? ! 

— Isso fôrão eras ; agora faço ca- 
da gatam anho , que vai tudo a galo- 
pe , e arre lá par diante ; que cá 
nestas trapaças é bom soletrar pouco 
do que borriscamos ; , porque se tudo 
se podesse ler , não faltaria que con- 
tar. 



DE COIMBRA. f 5 

— Ora com eífeilo; passares dé 
arrieiro de estrada á alta Dignidad" 
de Escrivão I . . Essa cá me fica. 

— De pouco se espanta Vonhoria; 
bem se vê que vem d'estar assola- 
pado nos alçapões do Amigo Telles. 
Que muito hequeoCaréo esteja feito 
Escrivão, quando o nosso Rei oNhorD. 
Miguel fez d'um barbeiro um barão; e 
tem por intimo consenheiro um tourei- 
ro?.. Esses borras desses Allistrocatas, 
esses Jacobinos do diabo pensão que 
nós não somos feitos de carne , e os- 
so , como elles ? Pois nós nhes fare- 
mos cantar o ladrão do negro melro.' 

— E então dize-me lá , para onde 
me levas tu agora. 

— Para o Limoeiro . . . Não he 
cousa de cuidado . . . 

— He líuma gracinha ... E tu não 
sabias quem vinha aqui ? 

— Raios me par tão se Vonhoria 
me havéra de passar pelo bestunto. 

TOMO ir. 2 



S6 o ESTUDANTE 

Essa borra d'esse Sargento que ahi 
nos vem nas ancas com esses fonas , 
é que trazia a ordem por papel e tin- 
ta. Cá á pessoa só me disse o Nhor 
Juiz — Nhor Escrivão , vá Vonhoria 
á Torre com esses cavallos par acom- 
panhar pró Limoeiro um malandro 
que lá está .... Agora vejo que em 
vez de larapio era um manhado , mas 
um manhado que cá par mim vale 
mais do que muitos ladrães dos que 
por ai andam á rédea solta . . . 

— Segundo parece, ainda és meu 
amigo. 

— Olá se sou. . . Não, que eu bem 
me lembro , que se não fosse Vonho- 
ria, quando me valeo na Cadea da 
Portage , por eu andar a trazer , e a 
levar noticias prós do Nhor D. Mi- 
guel , já eu estaria a estas horas ás 
tainas lá em riba a arengar com o 
Santo Padre. 

— Ora pois : o que é o Mundo ! 
Nesse tempo dei-te eu a liberdade , 
e aaora . . . 



DE COIMBRA, 27 

— Xi . . . Agora, moita; que che- 
gámos ao Limoeiro . . . Faça que me 
não conhece , e não se enrumine pe- 
lo máo trato , que eu nhe dér . . . Sã- 
himos da sege , e logo o Caréo em- 
purrando-me com braveza, me disse, 
zz Arre là par diante , manhado do 
diabo zz , e me foi immediatamente, 
oom o Com mandante da Escolta, en- 
tregar ao Carcereiro , deixando-me 
sem mais ceremonia em companhia só 
de meus tormentos , e tristes cogi- 
tações. Mettêram-me n'um segredo , 
leváram-me a perguntas muitas vezes, 
e quarenta infinitos dias se passarão 
assim. 

Não direi quantas horas serião, 
por que nem tinha relógio para me 
regular , nem via o Sol para o saber 
pouco mais , ou menos , achando-se 
meu acanhado cubículo só alumiado 
pela frouxa luz de uma fresta: vierão 
Irazer-me um pão , e uma botija de 
agua ; frugal banquete, com que, ha- 
via tempo, me obsequiavam: parti o 
pão machinalmente, machinalmente 
não digo bem , porque tinha fome; 
2 * 



28 o ESTUDANTE 

e qual não foi meu espanto ao ver no 
meio do miolo uma caixinha de folha 
de flandres ! . . Abri-a com rapidez , 
continha um papel, e nelle escriptas, 
com tinta meia avermelhada, estas pa- 
lavras ; — A tua salvação está cfhqje 
a cinco dias ao toque das Trindades 
nasala d'' entrada da enfermaria... — 
Um raio não produziria em mim tan- 
ta impressão como aquelle bilhete: 
por um instante se me varrerão to- 
das as idéas ; mil differentes pensa- 
mentos vierão ao depois embaraçar- 
me ; ora julgava sinceras aquellas 
palavras , ora só via nellas novos pre- 
textos para me perseguirem ; mas re- 
zolvi-me em fim a affrontar quaesquer 
perigos, fingi-me doente, requeri pas- 
sagem para a enfermaria , abri pro- 
digamente a bolsa , tudo pareceo dis- 
posto a favorecer-me, e poucas horas 
tardaram que não es tivesse no lugar de- 
sejado : conservei-me de cama os dois 
priíneiros dias , despendendo sempre 
largamente para despertar a meu fa- 
vor os carinhos do enfermeiro , e dos 
outros empregados ; no terceiro dia 
levantei-me, e dei alguns passos ; no 



©E COIMBRA. 29 

im mediato fui dar um giro pela sala 
d'entrada, e tomar o necessário conhe- 
cimento do local , para opportuna- 
mente me servir em caso de necessi- 
dade : esta sala nâo era muito gran- 
de , sem que fosse pequena ; para o 
lado do Norte havia uma porta, que 
a fazia ccmmunicar com o Oratório 
destinado aos condemnados á pena 
ultima ^ para o lado do Sul , e do 
Poente varias outras de communica- 
ção para differentes enfermarias; e pa- 
ra o Nascente , a que communicava 
com uma pequena escada, que hia 
dar ao pé da grade de ferro da en- 
trada do Limoeiro , cuja porta (de 
páo) raras vezes estava fechada á 
chave , o que não era de admirar por 
se achar a enfermaria , de grades a 
dentro. Chegou o quinto dia . . . Lo- 
go d'esde pela manhan fui para a ca- 
sa d 'entrada , de que já falei : não 
posso descrever com quanta impaciên- 
cia esperara por elle, e menos ainda, 
o modo porque se passaram meus ins- 
tantes , nas alternativas de mil sen- 
timentos diversos. 



30 o ESTUDA NTiE 

Seria quasi noite, quando para o 
Oratório entrou um padecente , con- 
duzido por alguns homens , que pa- 
reciam soldados . . . Deram as Ave- 
Marias .... Ao escutal-as começou 
meu coração a bater , como se es- 
tivesse dilatado em todas as suas 
cavidades; os instantes que até alli 
haviam sido longos para meus desejos, 
começaram desde então a ser eter- 
«nos : applicava os ouvidos ao menor 
estrondol Tudo me parecia gente, que 
vinha pela escada! Mas hião-se os 
minutos despedindo de mim , e eu 
da esperança de conseguir a liberda- 
de , que durante cinco dias tão im- 
pacientemente esperava, quaado um 
quarto d'hora soou na torre da Sé. . . Oh! 
Maldição ! Oh ] Desgraça ! Não sei 
como não estalei de desesperação! 
No excesso da minha dor estive por 
momentos revelando o meu segredo... 
Pareceo-me ouvir rumor, appliquei 
os sentidos... Era gente, que subia... 
Afastei-me alguma cousa da porta..; 
Dois vultos apparecêram, envoltos em 
capas negras... Um d'elles parecia ser 
Frade Camillo ! I ! 



DE COIMBRA. 31 

— Senhor , Frei Barnabé ; dizia 
o secular, ande, ande, que já hç 
tarde. 

— Sim , vamos , lhe respondia o 
outro; e para maior brevidade vou 
dar a minha capa, e ochapéo ao en- 
fermeiro. 

— Deixe-a em qualquer parte, aqui 
nào ha ladrões. 

— De certo; é o que por cá falta; mas 
va lá para cima desse banco : disse, 
e entrou para o Oratório , cuja porta 
lhe abriram de dentro ao mesmo tem- 
po que o outro sujeito vendo-me só, 
me veio metter a cara, e pegan- 
do com rapidez nos trastes que Sua 
Reverendíssima deixara, meenvolveo 
na capa , e enterrou o chapéo bons 
quatro dedos pela cara abaixo : eu 
não sabia ao principio o que tudo aiquil- 
lo queria dizer ; tam confuso estava; 
e nem mesmo ainda hoje poderei des- 
crever exactamente o modo; porque 
desci a escada ; só me lembro , que 
o sujeito me disse ao ouvido — Siga- 



3â o ESTUDANTE 

me — e pouco antes da grade da porta, 
aonde eu hia começando a entender 
o papel, que representava — Venha 
a ires passos de mim — Quando o meu 
conductor chegou á grade da porta 
mettêrão-lhe uma luz á cara , e logo 
lhe fizeram uma grande cortezia , 
abrindo-a com rapidez ^ quando eu 
cheguei , esperava que me fizessem 
egual exame, e por isso meu coração 
batia tanto que por mui pouco mais 
houvera saltado fora do peito; de sor- 
te que ao passar por pé do Guarda 
estive a ponto de pregar um berro, 
parecendo-me que elle me hia a dei- 
tar a mão , quando o pobre homem 
somente me abaixava com respeito a 
cabeça , dizendo em tom de lamu- 
ria — Humilde servo de Vossa Reve- 
rendissima!.. Tirei-lhe o meu chapéo 
conforme pude , procurando com suas 
abas occultar minhas feições . . . Cor- 
re u-se o lúgubre ferrolho ! ! ! Fica- te 
em paz. Limoeiro! ! ! Fui seguindo o 
meu libertador , até ao Largo da 
Magdalena... Era o honrado Caréo... 
Lancei-me em seus braços , senti mi- 
nhas faces humedecidas . . . Eram la- 



DE COIMBRA. 3,1 

grimas . . . era reconhecimento e ale- 
gria. 

— Está bom , Nhor Doitor , nada 
de arengas ; fresco , fresco ; por que 
a gaiola ainda não está a um tiro de 
baila, e eu vou-me á cadeia ver o que 
se passa. 

— Ah! meu caro amigo, he cer- 
to que me salvaste ; mas temo que 
te compromettesses. 

— Qual carocha ! Sou mais fino 
que Satanaz, S. Miguel, os Anjos bons, 
e os Anjos máos , tudo de cambunha- 
da . . . Para que sahi eu primeiro que 
Vonhoria ? . . . Se se puzerem a aren- 
gar comigo , arrumo-lhe que não sei 
nada , que não sahi com ladrão ne- 
nhum , que não sahi , que não sahi, 
que os trastes que faltam são do Fra- 
de , que a trampolina foi arranjada 
por elle, e arre lá par diante com dez 
mil diabos ... 

— Forte ratão. . . . Dize-me uma 
cousa \ como se chama o Reverendo? 



84 O ESTUDANTE 

— Chama-se Frei Barnabé. .* Namo- 
ra como trinta. 

— Elle não será um certo Frade... 

— Esse mesmo : be um tratante, 
que quiz armar ahi certo rabicho a 
uma rapariga, que o deixou embaça- 
do , e se foi tingando com o Pai para 
Pariz de França .. . Ah I Ah! Ah!.. 
Desta vez leva o diabo o Frade ; por 
que o Nhor Intendente já o tinha de 
máo onho por se metter com manha- 
dos . . . E agora . . . 

— - Ah! Se fosse a minha Maria... 

— Oh ! Que diabo he isto ? Pare- 
me que sinto arrufos de tambores lá 
par riba ; fresco , fresco , Nhor Doi- 
tor . . . 

Disse, e desappareceu : dei cebo 
nos calcanhares, mostrei que ainda ti- 
nha pernas, e só descancei, dias depois, 
vendo-me a salvo abordo de uma Me- 
xeriqueira Franceza na companhia do 
meu Farrusco, que se conservara em 



DE COIMBRA. 85 

casa, a fazer versos durante a minha 
ausência ... A fazer versos , sim se- 
nhor porque n'aquelle tempo todos im» 
pro visavam , athé os Burros , * • 



36 O ESTUDANTE 



!lMVMVMVMM*\««lM'Vm\m«M«M'M««M«M«MWM«M««M>«%«M«MMll 



CAPITULO XIX. 



A FUGIDA. 



livre por um acaso imprevisto 
do meio de tantos horrores , me em- 
barquei , com o meu Farrusco a bordo 
de uma Mexeriqueira de Guerra Fran- 
ceza; não porque faltassem Paque- 
tes Inglezes , que philantropicamen- 
te transportassem os Emigrados á ra- 
zão de um bom par de libras esterlinas 
por cabeça , em quanto nas embarca- 
ções Francezas se não pagava mais do 
que a comida ; mas porque me tinha 
dito o Caréo ; que das perseguições 
de Frei Barnabé havião fugido para 
Paris duas pessoas , que me adevi- 
nha o coração , ou meus bons dese- 
jos ser Rodolfo, e a minha adorada 
Maria. 



BE COIMBRA. 37 

A's tres horas da manhã do dia 
dois de Agosto de mil oito centos e 
vinte e nove largámos as aguas do 
Tejo ; vários escaleres da Policia nos 
accompanharam até fora da Barra, 
e á uma hora da tarde perdemos de 
vista as alcantiladas terras da Pátria; 
pouco depois começou a soprar o Nor- 
deste com tanta força , que nos im- 
pellio dentro de algumas horas para 
111 uito longe da costa, enchendo os 
mares de braveza, e arrojando o nos- 
so baixel desde as entranhas da Ter- 
ra quasi ás estrellas. Não darei larga 
descripção do temporal , apezar de 
nunca ter visto diante de mim a mor- 
te mais feiamente retratada; porque 
não faltam aos curiosos, por esses Au- 
thores antigos , e modernos , tempo- 
raes em Grego, em Latim, em Mou- 
ro , e até em Inglez ; e temporaes 
mui similliantes aos dos nossos dias: 
quem não souber nenhuma destas Lin- 
guas , apezar de hoje andar tudo tão 
estrangeirado , veja o immortal Ca- 
mões , que pelas ondas da sua elo- 
quência será levado em verso aos Céos, 
e aos Infernos , para onde se vai de 



SS o ESTUDANTE 

melhor mente em verso , do que em 
prosa ; Ora diz-nos também o grari* 
de Poeta que : 

Depois de procellosa tempestade. 
Nocturna sombra , sibilante vento , 
Traz a manhã serena claridade , 
JEsperança deporto, e salvamento; [*] 

e assim nos aconteceo , sem que den- 
tre nós tivesse morrido Fernando al- 
gum ; a mais risonha bonança nos 
trouxe feliz viagem , e oterrivel qua- 
dro, que eu presenciara dos mares 
embravecidos me deu a idéa para com- 
por o seguinte : 

EMBLEMA DA VIDA. 



A Aurora ainda bem não despontava 
Nas serras elevadas do Nascente, 
Já o baixel, sereno, se agitava, 
Da terra despregando o curvo dente; 
Ainda lá no Céo brilhão estrellas; 
Já branda viração nos peja as velas. 



[*] Assim no Reino forte aconteceu 
Depois que o Rei Feraaado faíeceo. 



DE COIMBRA. 39 

A pouco e pouco as trevas se sumião, 
A pouco e pouco os Nautas divizavam; 
As terras, que apressadas lhes fugiam, 
Que já meias sumidas se mostravam; 
Té que as ondas de todo as escondeo, 
Mão divizaram mafs que mar, e Céo. 

Calado Eólo , plácidos os mares , 
Aos Navegantes o descanço offerla; 
Mas lá setoldão nohorisonte os ares! 
A'lérta, o Mestre diz: brada-se: álérta... 
OíTusca-se do Sol a claridade , 
Ao longe se annuncia a tempestade. 

Impávido Aquilão entre assobios. 
Contra Euro soberbo se disputa, 
Mudoco tórrido Sul em chuva os rios, 
E vai , reinando só dar fim á lucta ; 
E d'agua pondo serra sobre serra , 
Representar os três Filhos da Terra, 

Fuzila o raio, vibra o trovão rouco. 
Conspira contra o Céo o mar, e o vento; 
Os tristes Nautas não manobrâo pouco, 
Inda buscão salvar-se,.. Vão intento! 
Pedem soccorro a Deos, clamão da Sorte; 
Quem voa asoccorrel-os?.. E' a mor lei.. 



40 O ESTUDANTE 

Eis o triste painel da nossa vida, 
Cuja Aurora feliz rápida passa , 
Cuja viagem curta é ennegrecida 
Por vendavais terriveis da desgraça; 
Cujo Sereno Porto de ventura , 
Se se alcança, ép'ra alem da Sepultura!.. 

No dia dezoito de Agosto saudá- 
mos com mil demonstrações de ale- 
gria as terras de França; entrámos 
por um canal cheio de Ilhotes povoa- 
dos, e fomos successivamente encon- 
trando Sussac , Vaize , Taillebourg^ 
Cíocher dfi Saint Sauviynac , Bordx^ 
Champ-dolent , e finalmente Tmmey- 
Charente antiga Praça de Guerra , 
tomada pelo Duque de Mayenne aos 
Calvinistas em 1577 ; Tendo assim 
navegado quatro léguas pelo rio Cha- 
rente , chegámos a Rochefort. Em 
quanto esperávamos pela licença de 
desembarcar , vimos ao longe uma 
enfiada de cousas vermelhas , que se 
moviam á similhança de certos ani- 
raaes , chamados alfaiates , que ap- 
parecem muitas vezes nos muros ve- 
lhos das quintas; e preguntando nós, 
o que era aquillo , nos responderam 
que uns trinta mil forçados trabalha- 



DE COIMBRA. 41 

vam no Arsenal , trazendo para dis- 
tinctivo certas roupetas vermelhas, 
as quaes pela distancia produziam 
aquelle effeito. 

A Cidade era bonita , as casas 
não passavam quasi todas de segun- 
do andar; as ruas estavam tãoaceia- 
das , como o Rocio em Lisboa o está 
na Festa do Corpo de Deos , sem que 
para isso tivesse precisão a Munici- 
palidade de pôr em campo o seu exer- 
cito de Ribeirinhos , com sua caval- 
laria pesada , e a artilheria dos car- 
ros da lama. Duas correntezas de ar- 
vores adornavam as ruas principaes, 
aonde haviam innumeraveis lojas ri- 
camente surtidas , não só dos tras- 
tes próprios para seu commercio , co- 
mo também de certos caixeiros , que 
o diabo viera, muito de propósito pôr 
alli para tentar todos aquelles , dota- 
dos como eu da fragilidade de ficar 
embascado diante de tudo quanto ves- 
te saia. 

Apezar de serRochefort um dos 
portos secundários de construcção *, 



42 O ESTUDANTE 

porque não lenha seu rio mais de cem, 
ou duzentas braças de largura , esta- 
vam no estaleiro debaixo de colpssaea 
telheiros,quasi promptas,dezasete em- 
barcações, de^sde náos de cento e trin- 
ta canhões , até brigues de dezoito. 
As madeiras, que se empregam, são 
serradas por um engenho movido com 
vento ; as cordas são fabricadas com 
o auxilio de innumeraveis machinas 
que poupam braços , e despezas ; os 
trabalhos de toda a ordem são feito- 
rias na maior parte pelos forçados a tro- 
co unicamente do que lhes he indis- 
pensável para viver como homens. 

Depois de ter visto todas estas 
cousas , bem como o magnifico Hos- 
pital Militar , obra de Napoleão , to- 
mei o meu logar no interior da dili- 
gencia por sessenta e cinco francos 
até Paris levando por companheiros 
o meu farrusco , e um Sujeito velho, 
que durante o caminho não fez mais 
do que dormir ás cabeçadas. A estra- 
da tinha sempre a mesma largura , 
e uma correnteza de arvores de cada 
lado, collocadas em eguaes distancias: 



DE COIMBRA. 43 

cm quarenta e oito horas de suave jor- 
nada nos vimos ás portas de Paris , 
em quarenta e oito iioras ! Quando 
são precisos três dias para andar as 
trinta e duas léguas, que vão de Lis- 
boa a Coimbra , e isso mesmo á cus- 
ta dos nossos ossos , que ficào feitos 
em salada , e de extraordinária des- 
peza I . . . Cale essa bocca , grandissi- 
mo falladôr ; tracte da sua vida , que 
não he pouco , e deixe-se lá de estra- 
das , que ainda as ha-de ter muito 
boas no seu paiz . . . Tem carradas de 
razão , e já que assim o quer , sabe- 
rá que hiamos entrando pela Barrei- 
ra do Inferno, [*] aonde o pezo da dili- 
gencia , com passageiros , e tudo foi 
conhecido por uma espécie de ponte 
construida para esse íim , medida es- 
ta , que a pezar de ter suas vanta- 
gens , não deixava com tudo de nos 
fazer entrar para a Cidade com pri- 
vilegio de carne ensacada. Nestas 
alturas rompeu o meu velho compa- 
nheiro n'um sonoro abrimento de 
bocca , e disse formando uma es- 

[*] Huma das Portas de Paris. 



44- O ESTUDANTE 

cala em meios pontos — « Ora che- 
gámos. ^^ — accompanhando esta gran- 
de descuberta de tal espreguiçamen- 
to , que por um triz me não metteo 
os dedos pelos olhos , preguntando- 
me depois , se era a primeira vez que 
eu hia a Paris ; ao que lhe respondi 
que sim. 

— Então , continuou elle , não faz 
uma idéa exacta da Cidade á vista 
do que foi. 

— Teve sem duvida , como tudo 
tein , tempos d'infancia. 

— He verdade : mesquinhas casas 
de madeira , e ruas acanhadas , co- 
bertas de palha situadas em um pe- 
queno Ilhote chamado então Lutece, 
e hoje Cite , eis a triste condição de 
seus primeiros annos; mas desde que 
os Romanos a tomaram cincoenta an- 
nos antes de Jesus Christo até hoje 
tem subido a ponto de ser uma das 
primeiras cidades do Mundo. 

— Dizem que he muito grande . . . 



DE COIMBRA. 4Ò 

— O' lá se é ! Tem mais de sete 
léguas de circumferencia , tantas por- 
tas quasi como Thebas , novecentas 
mil almas, entre Nacitnaes, e Estran- 
geiros , e acba-se cortada pelos rios 
Sena , e Bievre. 

— Com effeito ! . . . 

— Admira-se?! Londres he maior, 
e tem mais gente ; e lá nas Cidades 
da China , aonde os amigos de pé tor- 
cido se descozem a fazer Chinezes!.. 
Isso então he que se havia de benzer! ! ! 

— Pois olhe diz o ditado , que 
muita gente junta se não salva. 

— Talvez; mas ao menos em Fran- 
ça não ficará condem nado por falta 
de distracção; porque em geral os 
Francezes são fecundos em invenções, 
e dotados de um génio ligeiro , espi- 
rituoso , agradável , e sincero . . . 

— Não dizem isso lá no meu paiz, 
que lhes chamão falsos , e cortezes; 
talvez pela mania que nós todos te- 



46 Ó ESTUDANTE 

mos de dizer mal . . . E que me diz 
a respeito das Francesas ? 

— Ah I Meu amigo! Deo-me na 
balda.-. Isso hefinissimo ... São almi- 
nhas que tem arte para apresentar co- 
mo natural mesmo o que não for se- 
não filho do artificio. . . Quer um con- 
selho? Cautela com ellas. 

— Oh ! . . Que edifício he aquelle, 
que alli está? 

— He Observatório , do risco de 
Perrault. 

— He magestoso ! E aquelle muro? 

— Pertence ao jardim do Luxem- 
burgo , para a sombra de cujas arvo- 
res vem no Verão tomar o fresco aá 
seductoras creaturas , que Deos man- 
dou a esto Muudo , não sei se para 
desgraça , se para felicidade do ho- 
mem . . . Nunca ouvio faJlar noThea- 
tro do Odeon ? Pois aqui o tem : aon- 
de o vê , já ardeu duas vezes^ he cer- 
to que nenhuma falta fez ao Publico; 



De cot>íera^ 47 

por que entre Theaíros grandes , e 
pequenos ha mais de trintíi. 

— Trinta Tlieatros ! Hâo de estar 
ás moscas. 

— Engana-se muito*, quasi todos tra- 
balhão diarimente, e estão quasi sem- 
pre cheios. . . Já vejo que não faz idéa 
do que he Paris. 

— Bella ponte ! . . 

— He a Ponte Nova , começada 
por Henrique 3.° alli tem a estatua 
de Henrique 4.° erigida em 1614 por 
Maria de Médicis ; veja que ponto 
de vista não offerecem esses cáes , e 
bellos edifícios , que se estendem pe- 
lo rio abaixo! Aquelle primeiro palá- 
cio , que alem vê á direita, he o de- 
cantado Louvre de remota antigui- 
dade, reedificado no tempo de Luiz 
14." com aquella magestosa archite- 
ctura do risco de Cláudio Perrault. 
As lembranças históricas do velhoLou- 
vre não deixão de ser interessantes, 
seja pelo massacre de S. Bartheh- 



48 o ESTUDANTE 

mi , que nelle preparou Caíhari- 
na de Médicis , ou j or haver Carlos 
Duque de Mayenne, mandado enfor- 
car , ali mesmo dentro , quatro dos 
principaes Chefes da Liga, ou mais 
ainda por ter Henrique 4." (victima 
do Assassino Ravaillac) expirado em 
xima d'aquellas salas , denominada 
Sala das Guardas . . . Agora estamos 
nós perto do decantado Falais Boy- 
al , mandado edificar pelo Cardeal 
de Richelieu sobre as ruinas do Ho- 
tel de Ramhouillet-^ quando Luiz 13.° 
o herdou, e veio habitar com sua 
Mulher , he que lhe mandou por o 
nome de Falais Royal ^ pertenceu ao 
depois a Luiz 14.*', e por fim ao Du- 
que de Orleans . . . Olhe que vale a 
pena de se vêr . . . Tem um jardim 
rodeado de arcadas com lojas rica- 
mente adornadas de innumeravéis ob- 
jectos , d'aquelles com que se enri- 
quecem alguns, empobrecendo-se mui- 
tos •, tem lojas de bebidas , bilhares, 
theatros , casas de pasto , de jogo , 
de... e(c. em fim andâo lá dentro 
Céos, e Inferno de mistura para sur- 
prehender aquelle , que se não lem- 



DE COIMBRA. 49 

brar do que he o Mundo . . . Blas a 
propósito; vá-se dispondo aapear-se, 
e atando um lenço á colleira do seu 
j cào , porque he prohibido tiazc-lcs 
soltos pela Cidade; nào estaincs aqui 
em Constantinopla, terra de Turccs, 
aonde se deve dizer , fallando da pc- 
pulaçào , que tem eníre císts, e í?( n- 
te tanJas mil almas; porque a fallar 
a verdade , quasi que anda uma cou- 
sa pela outra. 

Fui mudamente acceitandooepi- 
gramma , se por tal me eram ditas 
aquellas palavras, e apeei-me : uma 
nuvem de mulheres , homens , ra- 
pazes , e raparigas me cercaram no 
mesmo instante apresenta rdc-me bi- 
lhetes de hospedarias , e fazendo tal 
bulha á roda de mim que lhes houve^ 
ra mostrado as habilidades do meu 
farrusco , se não tivesse medo de ex- 
por o bom do amigo cá mesma sor- 
te que teve o cão de D. Miguel, 
quando esteve em França. [*] Peguei 

[j»] Quero fallar d« um cao muito estir 
mado de D Miguel, quo foi punido coíi\ 
TOMO I. 3 



5o O ESTUDANTE 

indistinctamente em um dos bilhetes, 
que dizia Hotel (Pllespagne tenu 
par Madame Croiner ; tahle (Vkôtes^ 
etc. cahindo a sorte a uma rapariga 
muito nova , e de menos máos foci- 
nhos : em um abrir , e fechar d'olhos 
fez ella pôr a caminho toda a minha 
bagagem , que fomos seguindo , sem 
que me houvesse primeiramente po- 
dido despedir do meu companheiro 
de jornada , que durante a minha con- 
fusão , e o tropel , em que eu me vi- 
ra , se tinha evaporado sem ccremo- 
nia. 



I 



pena de morte em attenção aoà seus inere- 
cimentos. 



DE COIMBRA. Ôl 



itM^^/v%m*MyMi%nMi%niv»m\ M n»^niMMn . w%n\ii\n>ti «M«M«MMA«M««MMm««M 



CAPITULO XX. 

o ESTUDANTE EM PARIS. 

.s primeiras horas que passei na 
grande Capital de França, foi a dor- 
mir, e devo confessar-le , Leitor, que 
dorme por lá a íj^ente como por cá: lam- 
bem te direi que dormi quasi dousdias 
a fio , dóstí rasoavel para um primei- 
ro som no depois de se haverem passa- 
do duas noites in alhis ^ dentro d'uma 
Sege de Posta. 

Apenas acordei fiz todos os meus 
arranjos e sahi sem saber para aonde, 
nem por onde : declaro que me cus- 
tou a andar pelas ruas, por estar pou- 
co afleito a ver-me no meio de tanta 
^ente , bestas , seges , carros , carri- 
nhos , e carrões , que me faziam a ca- 
da instante desenrolar meu par de 
3 ii 



52 o ESTUDANTE 

cabriolas para não cantar palinodia 
por debaixo dos Cabrioleis. Para maior 
desgraça até a calma quiz tomar as 
minhas guelas á sua conta, e me obri- 
gou a entrar n'um botequim , e pe- 
dir um copo d'agua: era um gosto ver 
a loja resplandecente por immensos 
espelhos de desmarcada grandeza , 
mesas riquíssimas, relógios de grande 
valor, e um lindo balcão de magno po- 
lido em forma de concha, d'entro do 
qual, representando o papel de Vénus 
ao sahir das espumas do mar, se acha- 
va uma guapa moça fazendo os trocos, 
e pondo de boca á banda todos os que 
apreciavam , como eu , as perfeições 
da natureza. 

Trouxeram-me o copo d'agua , e 
na mesma bandeja , duas amostrinhas 
d'assucar em pedra , e um bebedou- 
ro de pintasilgo cheio d'agua de flor 
de laranja . . . íiquei pasmado! ! ! Nis- 
to se vê, disse eu cá no meu interior, 
a civilisação d'esta gente ! ! ! Como 
logo conheceram que eu era estran- 
geiro , e quizeram obsequiar-me í 1 ! 
Forte gente ! ! ! 



DE COIMBRA. 53 

Fui temperando o meu copo 
d'agua , e bebendo-a gota, a gota, 
apezar da minha sede , para de me- 
lhor mente contemplar as lindas fei- 
ções d'aque]la Thetis artificial , que 
fazia tanto caso de mim como dos bú- 
zios dos seus Tritões : zanguei cora 
isso , peguei no chapeo e fui para sa- 
hir quando ao passar por pé da porta 
me disse em voz baixa o caixeiro que 
me servira : — São sete soldos , meu 
Senhor. — 

— Como ! então aquillo paga-se 'i 

— Sim Senhor , Sâo sete soldos . . , 

— Ah queira perdoar. Cada ter- 
ra com seu uso , cada roca cem seu 
fuso. Na minha terra bebe-se agua 
de graça. 

— Sim . . . mas o assucar . . . 

— Faz lombrigas . . . 

— E a agoa de flor 



Ô4 o ESTUDANTE 

— E' boa para quem padece de 
nervos . . . Disse , e sahi meio enver- 
gonhado , e meio descontente por ter 
morto a sede a troco de cincoenta e 
seis réis. Entrei na Ponte Nova , se- 
gui por um dos Cáes á direita , e 
passados alguns minutos me achei 
n'uma Praça ornada de dous mages- 
tosos Edifícios : o da frente de gos- 
to gothico , era a Cathedral denomi- 
nada Notre Dame começada no tem- 
po de Roberto , continuada pelo Bis- 
po Mauricio de Sully e acabada em 
1276: O outro Edifício tinha escripto 
por cima da Porta — hotel bieu. — 

Soube que era um Hospital des- 
tinado ao tratamento das feridas , cu- 
ja fundação attribuiam a Saint-Lan- 
dry no sétimo século , posto que a S. 
Luiz pertençam maiores elogios pelo 
muito que o protegeu : veio-me a cu- 
riosidade de o visitar por dentro, lo- 
go me deixaram entrar na qualidade 
d'estrangeiro : o serviço das enfer- 
marias era dirigido por irmãns da 
caridade da ordem de Santo Agosti- 
nho; o movimento ordinário dos doen- 



DE COIMBRA. 5& 

tes aiidava de dez , e doze mil , por 
anno ; o maior aceio , economia , e 
arranjo , brilhava por toda a parte 
não faltando commodidade alguma 
das possíveis : os leitos ( de ferro ) , 
eram todos de armação , iguaes , e 
eleí,^antes \ em cada um se achavam 
dous colchões de lãa , um de clina, 
travesseiro , almofadinha , e lenções, 
tão brancos , como aquelles em que 
descança o homem abastado : as en- 
fermarias eram visitadas pelos gran- 
des Dupitytren , C/iomel , Sanson , 
e por outros sábios mestres seguidos 
como os astros brilhantes , no Firma- 
mento, porinnumeraveis satellites ávi- 
dos de sua luz: as cozinhas , despen- 
sas , e depósitos estavam ricamente 
recheados ; por toda a parte se pres- 
tavam consolações aos desgraçados ^ 
e }x>r toda a parte se respirava res- 
peitosamente esse preceito do Chris- 
tianismo , que chama o coração do 
homem ao equilíbrio dos sentimentos 
moraes , e que tornara n'um Ceo de 
delicias o inferno do Mundo se fora 
por todos escrupulosamente respeita- 
do. Dei:xei aquella casa de virtude, 



56 o ESTUDANTE 

assombrado de quanto vira, e mais ain- 
da por ter sabido, que haviam em 
Paris doze, ou quinze hospitaes pe- 
lo menos tão bom como aquelle. 

Atravessei o Rio passando por 
«ma Ponte , andei ao acaso por al- 
gum tempo até que dei com um Edi- 
fício sobre cuja porta se liam as pala- 
vras ECOLE DE MEDECINE. 

Cresceu^me a curiosidade, entrei 
no Páteo e logo me pareceu respirar 
o hálito da sabedoria, e ouvir ainda o 
echo das sabias palavras d'esses gran- 
des Médicos de nossos dias , que en- 
riquecem o mundo com suas obras , 
e que servem de Mes Ires a muitos 
dos d 'ou trás Nações; não porquen'el- 
las deixem de haver homens capazes 
de os imitar , ou de os exceder; mas 
porque os governos lhes não prestam 
os meios de se engrandecerem , nem 
seus concidadãos despidos da inveja, 
e da intriga lhes votam a gloria , e a 
consideração que merecem. Achei no 
interior do Edifício um riquíssimo Ga- 
binete Anatómico , estava recheado 



DE COIMBRA. 57 

de tudo aquillo com que se pode aper- 
feiçoar o homem nesse ramo da arte 
de curar, tao illustrada outr'ora pelos 
trabalhos de Eristraíe e de Herophilo. 

Talvez que alguém duvide da 
imparcialidade do senhor estudante, 
quando elle engrandecer a capacidade 
dos Médicos d'aquella Academia onde 
professam práticos tào eruditos e os 
alumnos encontram tantos meios de 
se aperfeiçoarem no conhecimento 
das cousas. Em França e principal- 
mente em Paris ninguém pode; dou- 
torar-se em Medicina, nem mesmo 
sendo já Doutor de outra qualquer 
Universidade, quando não faça cinco 
exames inteiramente vagos, quero di- 
zer, sem ponto, nem vinte e quatro ho- 
ras para «studar: exames em que se 
nao exigem somente conhecimentos 
d'este ou d'aquelle author, porem tan- 
tos, e tão vastos que muitas vezes em- 
baraçam os próprios Mestres das ou- 
tras Academias quando pertendem, 
doutorar-se alli,nãosahindo por issode 
lá como de muitos Paizes da Europa, 
Doutores formados em forma álaya de 



5à o ESTUDANTE 

-milagres de cera , ou de bonequinhos 
de gesso... Mas agora reparo eu, que 
tenho estado a fallar de Paris, e do que 
náo importa a ninguém, ejn vez de pôr 
a vida do Snr. Estudante em pratos 
limpos ! Forte cabeça I . . Náo me fal- 
taria que fazer i l'\allar de Paris que 
tem fornecido matéria a volumes , 
e volumes ! . . Nada , nada de moer 
os leitores com cousas sabidas ; basta 
para mortifica-los , róes de roupa, bi- 
lhetes de desobriga , folhinhas sella- 
das , cirios bentos , cruzes de S. La- 
zaro , e outros anexins peiores do que 
as dizimas do pescado e as bulias da 
Santa Cruzada . . . Ora vamos ao que 
importa. 

Possuido de mil idéas differentes, 
cercado por innumeraveis objectos ou 
curiosos , ou inteiramente novos para 
mim , vivi em Paris como se estivera 
a sonhar, náo sentindo realmente se- 
não a ausência de Rodolfo , e de Ma- 
ria, que, segundo as palavras do Ca- 
réo deviam achar-se ai li: por isso me 
empregava assiduamente em procu- 
rá-los nos lugares mais p/ibiicos, nos 
Theatros , nas sociedades , pergun- 



DE COÍMBRA. 59 

tando a todos se os conheciam e dan- 
do repetidos saques aos solitários co- 
bres da minha bolsa que estavam a 
evaporar-se por instantes. Tive por 
este modo occasiào de encontrar vá- 
rios compatriotas meus também emi- 
grados, que achando-se em Paris havia 
mais tempo me encaminharam , e me 
disseram o que se passara depois da 
nossa retirada do Porto. No barco de 
Va})or Belfast tinham fugido os mem- 
bros da Junta o varias outras pessoas, 
que chegaram milagrosamente a Pli- 
mouth depois de ter o Navio arriba- 
do á Corunha pela muita agua que 
fazia em consequência de haver bati- 
do n'um rochedo á sahida do Porto: 
quanto aos infelizes que se viram aban- 
donados pelos principaes chefes, tive- 
ram que disputar palmo a palmo o ter- 
reno da retirada: batJeram-se em Bra- 
ga com alguns guerrilhas, e soldados; 
repeliram, para alem de Caldéllas, a ag- 
gressào dos Regimentos 9, e21 de In- 
fanteria quando voltaram as armas con- 
tra seus companheiros, e perderam 
temporariamente o General Pizarro, 
<jue só lhes tornou a apparecer á entra- 



60 O ESTUDANTE 

da da Divisão na Hespanha: foram en- 
tão desarmados, privados do dinheiro 
pertencente ás caixas Militares , ex- 
liaustos de qualquer soccorro, obrigados 
a alcançar a mais simples nutrição 
a peso de ouro , ou a morrerem á fo- 
me nomeio, principalmente, de selva- 
gens dominados dos preconceitos do 
fanatismo, e encarniçados contra os 
desgraçados , pelos infames conselhos 
de Parochos , e Frades , que em vez 
de Ministros da Religião Christãa se 
tornavam verdadeiros verdugos da 
misera humanidade. 

Não tardou que, de mistura com 
epigrammas , e fanfauronadas , tão 
inseparáveis do génio Castelhano , se 
intimasse a ordem aos Emigrados de 
sahirem em vinte e quatro dias do 
território Hespanhol ; findos osquaes, 
seriam postos á discrição do Nero 
Portuguez , e de sua carinhosa Agri- 
pina; á vista de similhante convite 
se fretaram navios mercantes , e em- 
barcando-se os nossos em Pontedeu- 
me, na Corunha, enoFerrol, se foram 
acoutar em Plimouth , Portsmouth , 



DE COIMBRA. €1 

Falmouth- aonde com suas garras pe- 
netrantes aguardava, a muitos, a fo- 
me, e a desgraça; tal foi a sorte dos Vo- 
luntários Académicos na maior parte 
delicados, e pouco afleitos a privações, 
eá miséria; e aosquaes por único soc- 
corro se deu um velho barracão, peior 
md vezes que os Prezidios deAncon- 
<iha, ou deCaconda ! ! ! Sirva isto de 
exemplo aos Al um nos dessas Acade- 
mias nào militares; possam eíles con- 
vencer-se , que a arvore da sabedoria 
lhes dará fructos melhores que os do 
campo de Marte; e se desejam o bem 
da Pátria, por que seus poucos an- 
nos alimentem, por hora, sua boa fé, 
que prosigam em seus trabalhos na 
certeza, de que em parte alguma se 
precisa tanto de homens instruídos, 
como nas Nações pequenas ; porque 
grandes exércitos tem parado , e im- 
periosas vontades se tem por muitas 
vezes desvanecido diante da perspicá- 
cia de um homem só: para solJados não 
faltam por essas ruas mandriões, va- 
gabundos , e garotos de lenços , de 
casaca, ou sem ella, corajosos , atre- 
vidos, e que fariam flor n'am campo 



62 o ESTUDANTE 

<le batalha: em quanto por ahi andar 
dessa gentinha ; em quanto se quizer 
exercito para sustentar interesses pes- 
soaes , e deliberações absurdas ^ e a 
guerra for motivada por um punha- 
do de ambiciosos; e se disserem gran- 
des palavrões, sem que de bom appa- 
reça cousa que se veja... Estudai, 
meus amigos: pegai na Historia Uni- 
versal , se quereis vêr o que os ho- 
mens tem sido, o que sâo, e talvez 
o que hão de ser. . . Sempre os mes- 
mos , para cabal desengano nosso, e 
vergonhoso triumpho das paixões, e 
da fraqueza humana i ! ! Examinai o 
j)roprio Christianismo, quando come- 
çava apenas a sahir da pobreza, e 
humildade, que supportara em Ro- 
ma ! Vede os Chefes da Purissima 
Religião Christã em encarniçado di- 
vorcio , formando duas Igrejas ! Os 
Concilios de Carlos Maí>no anathe- 
matizando os de Irene , e os Cruzados 
levando ao Egypto com despiedado 
ferro as Divinas Máximas de Jesus 
ChristolM Estudai, meus amigos: 
a sabedoria vos abrirá os thesouros 
da Justiça , e o caminho da Verdade; 



DE COIMBRA. 63 

com ella desprezareis fantasmas váos, 
vozes sediciosas , e cliimericas pro- 
messas; com ella pesareis vós o homem 
na balança da imparcialidade; com 
ella vos escudará a prudência ; com 
ella finalmente chegareis a immorta- 
lizar vosso nome, passando a travez, 
talvez, do império da pobreza; mas 
sem que tenhais ao menos servido de 
autómatos a orgulhosos, e falsos ami- 
gos , nem que vossas mãos tenham 
sido manchadas com uma só gota de 
sangue humano. 

Tinha quasi perdido as esperan- 
ças de encontrar Rodolfo e Maria , 
porque nem meus compatriotas, nem 
o meu Cônsul , nem pessoa alguma 
me dava a mais pequena informação 
a seu respeito, quando uma noite me 
veio áidéa ir ao theatro Italiano para 
ouvir aMalibran, Pasta, Tamburini, 
e os outros cantores de tão raro me- 
recimento: representava-se Semiramis 
no Theatro não cabia nem mais uma 
pessoa , e eis-me absorto com os deli- 
ciosos acordes do immortal Rossini, 
alambicados pelas superíinas guelas 



164 O ESTUDANTE 

dosMacarronis machos, e fêmeas quan- 
do ao voltar casualmente a cabeça 
descobri na galeria , atravez de um 
sem conto de penteados naturaes e 
artificiaes , um rosto que me pareceu 
o de Maria, apesar de lhe nào poder 
descobrir á minha vontade mais do 
que aponta do nariz, e parte da testa, 
cuja outra parte se escondia, segundo 
julguei pouco mais ou menos, n'um 
chapeo cor de rosa que solitariamen- 
te íiuctuava nomeio d'aquelle mar de 
tranças, trancinhas, chinos, marra- 
fas , e caracóes : no mesmo instante 
me esqueci do logar em que me acha- 
va, do respeito que lhe era devido, da 
gente que me rodeava, do silencio 
com que se dava attençào a um diíh- 
cultosissimo gorgeio do rouxinol Semi- 
cramis ; e saltei asalvajadamente por 
cima d'aquella seara de cabeças hu- 
manas , á maneira dos rapazes que 
nos dias de apertão váo buscar seu 
bilhetinho da Loteria á Santa Casa 
da Misericórdia . . . Mas ómeuDeusJ 
Que impetuoso furacão de alaridos se 
nào levantou ! Parece que todas as 
guelas se puzeram ao desafio a qual 



DE COIMBRA. 65 

delias gritaria mais — Fora... Fora. . . 
Matem esse bruto .... Prendào esse 
doudo. . . Ensinem esse bêbado... Fo- 
ra , Fora . . . Taes eram os gritos que 
rebentavam de todas as partes e que 
meteriam feito estremecer a ponto de 
parar talvez no meu caminho se desde 
o primeiro rompante até que sahi da 
Platea não tivesse andado pelos ares 
em arde pella . . . Ah! Nunca fui tão 
grande homem na minha vida! Quan- 
tas mil bocas se não abriram a meu 
respeito ! Com que facilidade se não 
pôde tornar o homem singular no mun- 
do , e quantos não ha que o querem 
ser assim ! IVlas ponhamos de parte 
a gloria que me pertencia ; meu fim 
era justo , a porta de entrada da ga- 
leria era o alvo das minhas cogitações, 
quiz ganhá-la com rapidez , afoutei- 
meatudo,alcancei-a, em quanto o dia- 
bo esfrega um olho , e te-la-hia mes- 
mo ganhado n'aquelle instante ain- 
da que tivesse em torno de si os mu- 
ros de Tróia , e que eu me fizesse 
cavallo de páo. 

Fui para entrar no desejado lo- 



66 o ESTUDANTE 

lar, quando um sujeito me pergun- 
tou o quepertendial respondi-Ihe que 
sairá n'aquelle mesmo instante daPla- 
tea para ir fallar com umas pessoas 
que ali se achavam ^ tornou-me que 
bem via em mim o indigno instrumen- 
to do motim que lia pouco se fizera; 
que só um bêbado ou um doudo podia 
romper em similhantes excessos; que 
n'aquelle logar não cabiam bêbados, 
nem doudos , e deu-me com a porta 
na carall! Ardi com a desfeita, ferrei 
um encontrão na porta , appareceu- 
me a mesma cara , pregou me um 
grande empurrão, retroquei-lhe com 
uma bofetada em bom metal , fez -me 
logo desconto em papel n'um bilhe- 
te que escreveu a lápis , resmunga- 
mos ambos alguns elogios fúnebres , e 
ficamos de acordo que saldariamos 
completamente as contas no dia se- 
guinte a tiro de pistola. 

Já começava a sair a gente do 
Theatro , por toda a parte se aperla- 
vam homens com senhoras , velhos 
com raparigas , e velhas com rapa- 
zes , em fim tudo andava já aos en- 



DE COIMBRA. 67 

contrões como acontece sempre nos 
grandes apertos , em quanto eu pro* 
curava descobrir a travez da multidão, 
acotovelando a wis , pizando a oíí- 
tros^ e fazendo^ a muitos^ ambas as coi- 
sas , aquella que tão cegamente ido- 
latrava, descubro afinal perto de mim 
o fluctuante chapeo cor de rosa , for- 
cejo por abrir passagem, alcanço che- 
gar ao seu encontro, vou quasi , lou- 
co de prazer para me lançar, alli mes- 
mo , em seus braços ; mas ah 1 meu 
Deus ! que illusão nao fora a minha! 
Como nos não enganam nossos dese- 
jos ! Quanto com as luzes , e as doces 
melodias se não haviam perturbado 
meus sentidos, e exaltado a minha 
alma ! Aquelle Anjo infernal, aquella 
mulher, que de longe me parecera 
tão formosa , era a velha mais enru- 
gada e feia , que desde a idade mé- 
dia, tão fecunda em gente monstruosa 
tem existido no mundo. Foi então 
que eu cahi em mim mesmo, que me 
lembrei de quanto fizera, que vi dian- 
te dos olhos um desafio, que me arre- 
pendi da minha impetuosidade , que 
dei á prudência o nome de virtude, 



68 o ESTUDANTE 

e que me recolhi pesarosamente para 
casa reflectindo de sangue frio nas con- 
sequências de um tiro de pistola , e na 
proximidade em que talvez me acha- 
va de ir, logo ao romper do dia seguin- 
te, fazer a minha entrada estrondosa, 
no Ceo , no Purgatório , ou, segundo 
me parece mais provável, no Inferno. 



©E COIMBRA. 69 



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CAPITULO XXI. 



heguei a casa, fui saudado por Far- 
rusco, que já eslava costumado a ficar 
só, e lamentei seu destino pelo desam- 
paro em que poderia ficar reduzido no 
curto espaço de algumas horas: atirei 
comigo para cima d'uma cadeira , es- 
tendi as pernas , encruzei os braços, 
ferrei os olhos no tecto da casa e puz- 
me a pensar nas rainhas desgraças : 
alem de muitas outras cousas , me 
lembrei, como bom Portuguez, do meu 
estado de finanças ; tinha por junto 
um Napoleão que apesar de ser quem 
era só valia vinte francos . , . . Que 
terrivel posição ! . . . Se morro ama- 
nhã, dizia eu, a deus Paris, a deus 
Francezas , Theatros , Bailes , Socie- 
dades , e boa viagem senhor Estudan- 
te ; se não morro não me faltarão á 



70 o ESTUDANTE 

porta d'aqui a dous dias, çapateiros, 
alfaiates, chapeleiros, estalajadeiro, 
e mais outros figurões, e talvez figu- 
.. v^nas, inclusive a terna engomadeira, 
que em vez de me fazer carinha de 
riso, me porá umas ventas de todos os 
diabi s . . . Nada , nào vamos bem ; é 
preciso tratar do futuro; isto de se 
guardar agente para a ultima hora é 
querer morrer sem testamento : va- 
mos a tratar da vida!... J\]as que 
diabo hei-de eu ííizer n'estas alíuras! 
Dar lições de lingua Portugueza? Mui- 
ta gente diz , ])or ahi , que náo é 
das melhores linguas. Ensinar Laíiin? 
Isso era peça de entrudo para meus 
discipulos .... Vou-me fazer author 
de Novellas... Nada, nada isto de au- 
thor deu em droga depois que só os 
réos fazem fortuna . . . Oh que lem- 
brança! Vou jogar os meus cabedaes.. . 
Se perder os vinte francos ficarei ar- 
ruinado quatro dias mais cedo; se os 
nào perder ao menos náo morrerei de 
fome , e se amanha me for com a 
breca nas azas de um tiro , cá me re- 
zarão por alma, e me enterrarão, os 
que tiverem terror , ou dó de meu 



DE COIMBRA. 71 

corpo, em quanto a alma for indo por 
esses ares , lá para cima 5 ou lá para 
baixo, que não sei bem ao certo se 
ella será mais leve ou mais ])esada do 
que o ar ambiente... Pavor, ou dó!., 
entendamo-nos... se me nào acharem 
nada; por que se eu liver pintes, nào 
faltará quem trate do meu enterro . . . 
Esiá decidido , enforque-se o Napo- 
leão . . . 

Peguei no chapeo , agarrei na 
magica peç.x de ouro , e dei comigo 
na famigerada casa de Jogo de Fras- 
cati , sem atacar com isto os regula- 
mentos da Policia, d'aquella Nação 
civilisada , que permittia publica- 
mente muitas d'estas casas para au- 
emento dos rendimentos nacionaes 
á custa da perdição de innumeraveis 
desgraçados, e domais aflfrontoso en- 
xovalho feito á Moral Pública... Cer- 
cam-me salões ricamente adornados 'II 
Agente é tanta que mal se pode an- 
dar!!! Muitos criados se occupam de 
trazer gratuitamente refrescos aos jo- 
gadores!!! N'umas partes se aposta a 
um jogo de cartas denominado Otrin- 



72 o ESTUDANTE 

ta e quarenta , em outras , se arris- 
cam á Roleta som mas consideráveis 
passando os arriscadores alternativa- 
mente da oppuiencia á miséria, ou 
raraíj vezes, da miséria ás riquezas; 
quatro banqueiros estão fazendo o jo- 
go em cada uma d'aquelJas grandes 
mesas sobre cujas bordas se apinham 
muitos homens e mulheres apresen- 
tando a cada momento carantonhas 
de cascata , ou de presépio , e for- 
mando seus cálculos , nem por isso 
dos mais seguros , por meio de bura- 
quinhos de alfinete n'um bocado de 
cartão . . . Estou no meio de tudo is- 
to , com as mãos nas algibeiras , e o 
Na|)oleão filado, nas unhas , na des- 
esperada resolução de o enforcar sem 
piedade . . . Chego-me em fim para a 
Roleta , mil conselheiros me' rodeiam 
sigo os palpites de uma Dona que 
me parecia versada na Sciencia.xtas 
casualidades, espero >com anciã pelo 
resultado infalivel e maravilhoso que- 
segundo ella dizia. vinha a galope, ..é 
a deus três quartos de meu capital! í! 
Ide-vos em sanía paz . . •.Atiro então 
(pom meus últimos recursos para cima* 



DE COIMBRA. 7S 

cima do numero cinco , toca-me o co- 
ração a rebate , apparece o milagroso 
numero recebo de pancada cento e 
oitenta francos , encarniço-me a(í- 
ro-me ao azar , qual de baixo qual 
de cima , e para encurtar razões dei- 
xo o campo da batalha com as algi- 
beiras cheias de ouro ! ! ! Oh proeza 
das proezas!!! Oh d'este Mundo oitava 
maravilha ! ! ! Fui correndo para casa 
satisfeito da deliberação que tomara, & 
com tanto enthusiasmo, que nem sen- 
ti a dor de uma violentíssima canela- 
da capaz em qualquer outra occasião 
mais desgraçada, de me quebrar, pelo 
menos uma perna. Ao desembocar 
na rua de Petits Champs^ ouvindo es- 
trondo de pancadas e alguns ais ma- 
goados , voei ao soccorro do desgra- 
çado que os lançava e cheguei a tem- 
po de afugentar três malvaaos que bat- 
íiam sem piedade n'um infeliz já es- 
tendido no chão sem signaes devida: 
ao mesmo tempo que acudiam varias 
outras pessoas. Pegamos no infeliz, 
mettêmo-lo n'uma loja, que pela vi- 
sinhança da manhã, se estava abrin- 
do , fiquei pasmado achando no pa- 
TOMO n. 4 



74 o ESTUDANTE 

ciente o meu collega da jornada de 
Rochefort e pasmados ficaram tam- 
bém os que alli se achavam dizendo: 
— Oh I E'oSnr. deL***C***! Quem 
seriam os malvados que atacaram es- 
te honrado homem ? ! ! Alguns Carlis- 
tas ! ! ! Perversos I ! ! 

Esforçamo-nos d'esde logo por 
chamar á vida o meu pobre compa- 
nheiro que vagarosamente recobrou 
os sentidos ; seus olhos errantes , ao 
principio , não distinguiam cousa al- 
guma ; mas ouvindo a minha voz, 
e vendo quanto me esforçava em soc- 
corrê-lo , me reconheceu e veio , mo- 
vendo diíHcultosamente o braço , com 
uma de suas mãos apertar as minhas. 

Eram quasi cinco horas da manha, 
conduzimo-lo em braços para sua casa 
onde não entrei por ser já tarde pa- 
ra mim que devia achar-me ás seis 
horas no loí^ar marcado pelo bilhe- 
te gracioso do heroe do Theatro Ita- 
liano , cujo bilhete dizia ziz Bois de 
Boulogne , Porte de Passi^ á six heures 
du matin zz 



DE COIMBRA. 75 

Tendo entrado no meu quarto 
despejei as algibeiras em cima da me- 
sa, e contei meus cabedaes, era quasi 
senhor de vinte mil francos I i 1 Inau- 
dita ventura , se me náo visse em 
riscos , de precisar somente , d'alli a 
pouco , de quatro reis para passar na 
Barca de Carente . . . 

Fiz as minhas disposições por 
escripto , deixei Farrusco por meu uni- 
versal herdeiro , nomeei-lhe um bom 
tutor , fechei o dinheiro n'uma ga- 
veta , e dirigi-me ao logar marcado 
levando por meu padrinho um joven 
OíRcial , que morava no quarto visi- 
nlio ao meu. 

Soavam seis horas da manhâa 
quando nos apeávamos á porta de Pas- 
si^ e não vimos pessoa alguma! Espe- 
ramos perto d' um quarto de hora, e na- 
da de novo! Já eu comeí^ava a con- 
solar-me com a tardança, quando che- 
gou a toda a brida um sujeito que 
veio perguntar-nos se esperávamos 
pelo senhor Fleuri para um desafio , 
e nos entregou uma carta concebida 
4 ii 



7€ o ESTUDANTE 

ii'estes termos: — • Já me tivera a es- 
tas horas desaffrontado a não mo ha- 
ver prohibido poderoso motivo , ama- 
nhã ás mesmas horas , e no mesmo 
logar satisfarei meus deveres. Res- 
pondi ao portador que sim , e cada 
qual se retirou. 

Fui d'alli em direitura a casa do 
meu enfermo : bati á porta , pergun- 
tei por Mr. de L*^* C*** Respon- 
dêram-me que não era possivel fallar- 
Ihe por se achar muito molesto ; mas 
que tivessse a bondade de entrar , por- 
que fallaria com seu filho. Esperei bons 
quarenta minutos n'uma sala rica- 
mente adornada, e fartei-me de esperar 
porque é etiqueta da grande gente 
fazer-se desejada : estava quasi deci- 
dido a ir-me embora, quando se abriu 
uma porta e me appareceu um sujei- 
to arranjando a gravata , e gaforina, 
movimentos que suspendeu rapida- 
mente apenas me viu : ambos nós to- 
mamos então um ar mui sério , tra- 
tando-nos com as etiquetas de visitas... 
A quanto não obrigam os deveres da 
sociedade I ! ! Éramos nós meus lei- 



DE COIMBRA. 77 

tores , nós mesmos em corpo e alma 
os dois rivaes assanhados! ! ! 

Perguntou-me o que queria, res- 
pondi-lhe, contando-lhe quanto se pas- 
sara , e sobre tudo a singular casua- 
lidade de ter por aquelle modo encon- 
trado em Paris, aonde a gente se per- 
de no meio da multidão , o meu com- 
panheiro de viagem: conheci que mi- 
nhas palavras causavam no meu ad- 
versário grande abalo , por que pou- 
co apouco desappareciam de seu sem- 
blante os coléricos traços , que ao 
principio me havia mostrado : no fim 
da minha narração estavam seus olhes 
arrasados d'agua ; agradeceu-me o 
serviço que prestara a seu Pai , e 
pela minha parte não lhe quiz tomar 
mais tempo , para o que me retirei na 
certeza de ter um rival que possuia a 
par d'um génio violento, e impetuoso^ 
uma alma cheia de nobreza, e de bon- 
dade: passei o resto d'aquelle dia, e 
a noite que se lhe seguio com impa- 
ciência e desassosego , e no seguinte 
ás seis horas da manhã me achei 
novamente á porta de Passi, 



78 O ESTUDANTE 

Tratou-se razoavelmente do ne- 
gocio, expuseram-se os motivos que de 
parte a parte o tinham originado : 
acharam ; os padrinhos , que houvera 
precipitação commum , e por isso de- 
clararam que lhes parecia pouco razoa^- 
vel , que se arriscasse a vida por si- 
milhante motivo : ambos nós guar- 
damos o silencio , carregaram-se as 
pistolas , tiramos á sorte qual dispa- 
raria primeiro , tocou-me a ser o se- 
gundo , e fui para tomar o meu logar 
quando Fleuri voltando-se para os Pa- 
drinhos lhes disse: sendo eu senhores 
ô mais insultado , devera desaflfron- 
tar-me como homem de sentimentos; 
mas ja que a sorte me pôz na collisão 
de ser o primeiro a atirar , declaro 
que o não farei contra quem salvou 
ávida de meu Pai: se o meu contende- 
dor quizer, que dispare sobre mim — 
A estas palavras senti-me arrebatado 
d'um sentimento inexplicável , arro- 
jei a pistola com desprezo para o la- 
do e lancei-me nos braços de quem 
se tornava credor de sincera estima : 
os Padrinhos applaudiram cheios d'en- 
thusiasmo nossa conducta, e o des- 



DE COIMBRA. 7^9 

afio terminou pelos protestos da mais 
intima amizade , e pela promessa de 
se festejar aquelle dia, logo que o Pai 
de Fleuri estivesse bom, na Casa de 
Pasto de Verri ao som d'uma salva 
de garrafas de Champagne. 

Em quanto Mr. de L*** C*** 
se achou doente não deixei de o visi- 
tar amiudadas vezes , e de me tornar 
por este modo o amigo intimo da ca- 
sa : também fiz minhas visitas á JRo- 
leta aonde fui restituindo quasi a 
fio tudo houvera ganhado. Desgos- 
toso com tantas perdas successivas 
peguei um *dia nos fundos que me 
restavam , fazendo solemne protes- 
to de não tornar a pôr os pés em 
uma casa de jogo quaesquer que fos- 
sem os resultados de minha bata- 
lha: o combate foi renhido e por mui- 
to tempo incerto ; por mais de uma 
vez me vi quasi arruinado-, mas a sor- 
te estava decidida a favorecer-me, e o 
jogo que faz a desgraça de tantos de- 
vera fazer a minha ventura, aflfastan- 
do-me da estrada commum a quasi 
todos os jogadores ; que perdem pri- 



80 O ESTUDANTE 

meiro o seu, ao depois o alheio, e que 
por fim se arremessam da miséria , 
ao crime . . . 

Tendo ganho quasi cincoenta mil 
francos tive constância , por algum 
tempo, de não faltar á promessa que 
fizera; mas como promessa de jogador 
é caso a que não liga o juramento , 
breve chegou o dia de saudade, com 
tanta força, que peguei n'uma nota 
de mil francos e fui para sair decidi- 
do a joga-la quando dei de cara a 
cara com Fleuri , que me disse bat- 
tendo-me no hombro. -— Meu caro , 
os homens de bem qjiando dão a 
sua palavra não faltam a ella : não é 
assim? 

— De certo . . . mas. 

— Mas, mas, o que? Não ha mas, 
nem meio mas ... 

— Pois o senhor sabe ... 

— Nem o quero saber : o certo é 
que meu Pai ja está bera , e que nós 



DE COIMBRA. 81 

vamos d'aqm direitos como um fuso 
jantar a casa de Verri. 

— Ah! Sim, sim, pensei que me fal- 
iava n'outra cousa.,, de boa mente... 
Vamos a isso ... 

— Oh! homem! Parece-me hoje ^u- 
tro ! Está a modo tão celebre ! Tão 
pensativo! Que é o que tem? Aqui 
está um amigo. . . Alguma paixãosita 
não é assim . . ? 

— Nada , reflectia nas suas pala- 
vras , que nem de propósito vinham 
tanto atempo de me lembrarem d'um 
promettimento que fiz ha dias . . . 

— Pois não falte a elie, por que não 
ha nada peior do que prometter e faltar 
como por ahi muita gente faz .... 
Mas aproposito, o meu Padrinho nos 
espera, chame pelo seu, que segundo 
me disseram está no seu quarto, e va- 
mos, que não ha tempo a perder . . . 

Na famigerada casa de Pasto de 
Verri , á razão de quarenta francos 



82 O ESTUDANTE 

por cabeça , jantamos todos quatro 
lautamente; despejamos, sem ceremo- 
nia boa dose de copos , e garrafas 
de vinho , em vez do qual deixamos 
n'ellas engarrafado temporariamente 
nosso juizo ; tomamos café , e fomos 
passar a noite ao Theatro dos Italia- 
nos. 

Não pude deixar de me lembrar, 
ao ver-me alli, do que se passara com 
Fieuri, e de contar a todos os meus 
amigos a causa de similhante acon- 
tecimento; quando elle abrindo uns 
olhos de três poUegadas exclamou: 
Bem me recordo! !! Uma velha de cha- 
peo cor de rosa ! ! ! Era a velha Jo- 
sephina, a Mestra de meninas da Rua 
de S. Diniz aonde minha mana esta- 
va , e que tem segundo me consta 
uma linda Portugueza em sua casa. 

Imagina Leitor como ficaria eu! 
Não quiz ouvir nada mais saltei co- 
mo doudo ás carreiras pelos JBoule- 
vards fora, atirei de pernas para o ar 
varias pessoas , e cheguei a casa da 
velha Josephina deitando os bofes pe- 



DE COIMBRA. 83 

Ia boca fora. Entrei u'um estreito 
corredor: havia no fim d'elle á esquer- 
da uma escada , e á direita a casa 
do Porteiro, respeitabilissimo espião 
que todas as casas tem n'aquella Ci- 
dade , perguntei se poderia fallar á 
senhora Mestra Josephina, respon- 
deu-me que não tinha ordem para 
deixar subir pessoa alguma áquellas 
horas e muito menos umhomem^ que 
voltasse no dia seguinte: Instei, offe- 
reci-lhe dinheiro, disse-lhe que era o 
amigo deMr. deL*** C*** ; mas na- 
da de novo!.. Voltei-lhe as costas com 
arremesso, sahi d'alli como um cão 
damnado , nào me poude deitar toda 
;i noite, e no outro dia muito cedo tor- 
nei a casa da velha. Tão feio era seu 
embirrante carão, como affaveis e de- 
licadas suas maneiras, recebeu-me 
graciosamente , ouvio-me com atten- 
^ão , e respondeu-me : Que na verda- 
de estivera em sua casa quem eu pro- 
-curava ; mas que havia poucos dias 
a tinham vindo buscar, da Ilha 3.* 
por ordem de seu Pai. 

Não posso descrever o abalo que 



S4 o ESTUDANTE 

senti recebendo similhante nova . . . 
Agradeci á velha seus bons officios, 
depositei na mão do meu velho ami- 
go a maior parte da minha riqueza, 
e , com o resto , me fui embarcar no 
Havre de Grace abordo d' um Na- 
vio que partia para a Ilha 3.* 



OE COIMBRA. Zê 



^». V% %<%.%» »^Vfc-'»%V\.V%.W^^%'%.»fc%»>W^» «^VW%^«%«*%%%^'^«^.'«'^%^ 



CAPITULO XXII. 



.travéz d'innumeraveis perigos e 
correndo o risco de cahir nas unhas 
Miguelistas fui eu desembarcar na 
villa da Praia rompendo apertadissi- 
mo bloqueio : logo me vi cercado 
por muitos Portuguezes que me abra- 
çavam e me pediam que lhes desse 
noticias do continente, 

Perguntei-lhes aonde morava 
Rodolfo e fiquei passado sabendo que 
poucos dias antes se fora tanto apres- 
sa para Paris, que ninguém adivinha- 
va , nem elle dissera a ninguém o 
motivo de tão rápida partida : nenhu- 
ma noticia pude alcançar também de 
Maria e comecei com pezar a ver 
baldados todos os esforços, e perdidos 
os sacrifícios a que me dera para ai- 



86 O ESTUDANTE 

cançar as pessoas que tanto idolatra- 
va : quizera então poder voar , com 
a rapidez da águia , até Paris ; mas 
quizesse embora o que quizesse for- 
çoso me foi esperar algumas semanas 
pela partida do primeiro Navio. 

Aquartelei-me em casa de um 
<imigo e velho companheiro de Coim- 
bra , fiz algumas digressões pela Ilha 
que nada tem de extraordinário , sou- 
be que o Conde de Villa Flor acom- 
panhado de alguns outros Officiaes 
rompera, alguns mezes antes o blo- 
queio, e que fora sustentar com o seu 
caracter e denodada valentia , os di- 
reitos do seu Rei e a gloria de sua 
Pátria dissolvendo-se, por sua chega- 
da , a junta que por então governa- 
va a Ilha tomando o Conde a authori- 
dade de Governador, e Capitão Gene- 
ral dos Açores: nos meus passeios vi- 
sitei muilas dessas Fortificações que 
por sua ordem se haviam alevantado 
para desdouro e gravíssima ruina de 
uma Esquadra Miguelisla de vinte 
e duas Velas , e rtuAe avaliar osmáos 
intentos da gcníe da Terra fanática, 



DE COIMBRA. 87 

exaltada em suas idéas , escrava de 
mil prejuízos , e disposta , quasi in- 
teiramente, ao mal : soube também 
que uns quinhentos emig-rados tinham 
iJludido os cruzadores Íng-Jezes , es- 
condendo-se no porão do navio que 
os transportava declarando seu Capi- 
tão , que levava Sal : admirei a eco- 
nomia com que viviam os Portugue- 
zes não tendo senão um pequeno sub- 
sidio, devido a alguns contos déreis 
de moeda papel , e de cobre , que se 
tinham mandado pôr em giro , e que 
eram recebidos nas Alfandegas. 

Dous mezes depois voltei para 
França, que pela revolução de trinta 
de Julho fizera inteiramente mudar 
a face Politica Europea , e augmen- 
tara o valimento do meu amigo Mr. de 
L*** C***, ede seu filho. 

Fiz mil indagações infructuosas 
em busca de Rodolfo- fui a casa de Jo- 
sephina, e soube somente que elle alli 
estivera unia vez, e que não havia 
noticia de sua iiiha , d^esde que ella 
sahira de sua casa: imagina leitor, co- 



8S O ESTUDANTE 

Hio ficaria eu, se é que podes sentirão 
vivo todo o horror de tào desgraçada 
posição: sahi d'alli como louco, esbar- 
rei com um homem que vendia bone- 
cos de gesso, e a deus bonecada, que- 
brei um vidro de uma loja de pasteis, 
que me custou a minha de doze , sem 
contar a casaca que ficou em parte 
rasgada, eem parte enterrada n'uma 
torta desde o canhão quasi ao coto- 
velo . Chovia agua se Deus a dava, 
ninguém andava pela rua senão eu, 
que apezar da chuva hia ardendo em 
labaredas , e que não gastei dous mi^ 
nutos em chegar a casa resolvido a 
acabar, com a vida... Peguei n'uma 
pistola, e desfechei comigo. . . Ardeu 
só a escorvai . . Tornei a desfechar... 
não pegou fogo!.'! Peguei n'outra 
quando, por toda a parte rebentaram 
os gritos: — Fogo, Fogo, acudam ao 
fogo — e o heroe que estava para fazer 
ablativo de viagem nas azas d 'um ti- 
ro , botou a fugir parecendo-lhe lou- 
cura morrer assado. 

Não me custou pouco a disfar- 
çar meus negros pesares , aos quaes 



DE COIMBRA. 89 

SÓ podia oppôr as grandes vantagens 
que alcançava ao jogo dos fundos [*] 
ou os mimos , e consideração de Mr. 
de L*** C*** de sua família, e 
principalmente, d'Eugenia sua filha: 
esta menina thesouro de belleza , e 
de boas qualidades , tinha sido con- 
discípula de Maria em Casa deJose- 
phina ; esta lembrança era para mim 
de grande peso , e muito mais conhe- 
cendo que Eugenia sympathisava co- 
migo , de modo , que a não serem os 
fortes alicerces de minha primeira 
inclinação, ter-se-hia ella talvez aba- 
lado. 

Chegou no em tanto D. Pedro á 
Europa, tendo abdicado a Coroa do 
Brazil em seu Filho , desejoso de vi- 
ver tranquillamente com sua Augus- 

[|*3 Consiste o negocio de que acima faí- 
lei na compra de grandes sommas de fun- 
dos estrangeiros a certo prazo ; se durante 
elle os fundos sobem o especulador enri- 
quece sem desembolçar um real ; se descem 
fica inteiramente arruinado, porque a van- 
tagem deste negocio consiste em comprar 
sempre sommas extraordinárias. 



90 o ESTUDANTE 

ta Esposa , longe das responsabilida- 
des , e pesares , que cercão o Thro- 
no , e ao abrigo dos enganos , e da 
lisonja , que encobre as verdades do 
Mundo aos olhos dos Reis. O Destino 
porém reservara para o resto de seus 
dias feitos de tanta monta, que seu 
nome ficará gravado no quadro dos 
heróes, esua saudosa memoria no co- 
ração d'aquelles Portuguezes , que 
nem o ouro, nem ambição corrompe, 
nem desejam mais para sua ventura do 
que a gloria , por tantos séculos , 
companheira do nome Portuguez. 

Sensível D. Pedro aos ais da Pá- 
tria, e aos deveres de Pai trocou a 
paz, que buscava , pelas vicissitu- 
des da guerra ^ ligado por affinidade 
aos sentimentos de um grande ho- 
mem , sentio girar em suas veias a 
força eléctrica do valor , e ambicio- 
nou , como elle , a immortalidade re- 
solvendo a custo de quaesquer sacri- 
fícios levar sua Filha ao.Throno, e fa- 
zer aventura dos Portuguezes, se um 
punhado de homens a não quizessem 
sacrificar a interesses paríiculares. 



DE COIMBRA. 91 

No em tanto cresciam meus ca- 
bedaes , e com elles amigos , acata- 
mentos , e uma consideração iliimita- 
da . . . Tal é a sorte de quem tem 
dinheiro , ainda que não tenha nada 
mais . . . Ao pobre cabem todos os 
defeitos, ao rico todas as perfeições; 
se o primeiro se empobrece á custa 
de suas virtudes, maldição sobre elle; 
se o segundo se enriquece a troco de 
seus crimes , ardem em seu louvor os 
incensos da lisonja , e prosternam-se 
milhares d'individuos diante do idolo, 
que não tem outras vozes persuasivas 
mais do que as do som do frio metal!!! 
Assim anda tudo ... O Mundo ás 
avessas. . . Oh!l! Isso he falta de Ló- 
gica! O Mundo ás avessas quando é 
uma bola ! Quando não tem cabeça, 
nem rabo!!! Bola?? E se eu te disser, 
Leitor, que essa bola não é nem mais 
nem menos do que uma besta qua- 
drada , ou redonda , como bem te 
parecer ? E se eu te disser que todas 
as estrellas , e corpos , que girão no 
espaço , e que vemos , e que não ve- 
mos, são outros tantos Brutos-anima- 
lejos f que andão a tomar o fresco por 



92 o ESTUDANTE 

esses ares , o que me dirás a isto ? . . 
O Mundo he uma bola ! Vá, que se- 
ja ; por que bolas nâofaltão; mas 
ninguém me tira dos cascos que o tal 
Mundo redondo, quadrado, ou bicu- 
do , como bem te parecer , he um 
furiosíssimo bruto animal . . . 

Ao que chamas tu animal ? A 
uma cousa , que se meche , cresce, 
e sente ; não he assim ? Ora vê lá 
se o Mundo se não move, não cres- 
ce , e não sente ... O que achas 
na organisação do animal ? Partes 
molles , duras , e intermédias ? Cá 
tens no Mundo terras fosseis, serras 
primodiaes , e collinas ; achas gran- 
des reservatórios de liquides , innu- 
meraveis canaes , fluxos , e refluxos; 
cá tens mares , rios , e marés , etc, 
etc. O que vês na superfície dos 
corpos mundanos ? Orifícios excre- 
torios? Cá tens os vul^-ões. Trans- 
piração ? Cá tens as evaporações. Bor- 
borinhos , explosões gazosas , e ar- 
repios ? Cá tens os trovões subterrâ- 
neos , as explosões vulcânicas , e os 
terremotos . . . (Sancto Nome de Je- 



DE COIMBRA, 93 

sus) . . . Pellos , e vermes ? Cá tens 
arvores , e viventes. Eminências , 
e profundidades ? Cá tens montes , 
e vales. Materialidades ? Cá tens as 
da nossa espécie, que não são peque- 
nas ! ! ! Que dirias tu com os teus 
botões , se fosses um desses animaes 
imperceptiveis aos nossos sentidos , 
vendo , quando eu te passasse pela 
porta , este meu todo , arredondado 
em parte , e em parte afieirado ? Di- 
rias : Là imi icm MundoWl Argumen- 
tar-me-has dizendo que a Terra náo 
tem bocca... Pois olha que não devora 
pouco, e o tempo to mostrará. . . . 
Meu amigo , fecha-te com a lição ; 
toma cautela com algum piparote 
dos taes brutinhos , que por ahi an- 
dam por esses ares ; acredita que o 
Mundo he um animal , que tu és 
outro , e que tanto os descendentes 
do Mundo , como nossos descenden- 
tes hão de ser todos uns animaes . . . 
Tens percebido ? . . . Desconfio que 
não ! ! ! Pois nem eu . . . 



94 o ESTUDANTE 



l»««««»««\««««»«Vt«M«%\««ni««A«IWM%«Mlv«VMAlVMWM«M«W«MIV«««M 



CAPITULO XXIII. 



UMA CASUAIiIBABS. 

Mmavia na Rua de S. Jacqiies^ jun- 
to de certo pequeno arco , que pare- 
ce uma porta , um antigo Mosteiro, 
denominado Cloíh^e St. Beiioit per- 
tencente n'outro tempo a esses res- 
peitáveis F'rades, Benedictinos, que 
tanto protegeram Faust , quando 
perseguido em Paris como feiticei- 
ro, por haver trazido da Alemanha o 
uso da Typographia , acabava de im- 
primir aBiblia pela primeira vez; es- 
te edifício , abandonado por muito 
tempo ao esquecimento , foi a final 
metamorfoseado n'um Theatro , por 
Eric Bernard^ cómico de grande me- 
recimento . . . Nisto se vê como se 
mudam as cousas no andar dos tem- 
pos! Aquellas abobadas por baixo das 



DE COIMBRA. 95^ 

quaes durante tantos séculos se quei- 
mara incenso ao som de Cânticos Re- 
ligiosos, reíi c'ÍMni agora somente as 
risadas, os gr; tos, os applausos , o 
estrondo dos instrumentos , e as apu- 
padas da multidão profana! I ! 

Achava-se por então em scena 
uma Comedia , que dera no goto ao 
respeitável publico; não saberei eu 
dizer agora se justa, ou injustamen- 
te ; seja porque o sobredito goto res- 
peitável, se abale ás vezes com as me- 
nores cousas ; seja porque a sorte 
decretara , que nem eu , nem o meu 
amigo Fleuri tivéssemos a ventura 
de ver a Peça , apezar de havermos 
comprado nossos bilhetes á porta, e 
entrado no Theatro para esse fim. 
Rompeo aSymphonia, fecharam-se 
as guelas todas ao mesmo tempo, 
cresceu a cobiça aos curiosos harmó- 
nicos, que por alli se achavam, de dar 
também a sua rabecada , ou seu par 
de guinchos, ejáopanno estava para 
ir acima , quando repentinamente 
rebentaram , na rua , os repetidos 
gritos de — Viva a Republica I Abai- 



96 o ESTUDANTE 

xo Luiz Filippe ! ! ! — A estas vozeai 
inesperadas , e aterradoras , amoti- 
nado o Auditório todo, deitou a fugir, 
os Músicos mettêram a violanosacco, 
o Ponto sumio-se no seu buraco , e 
Fleuri , que era tido, e muito conhe- 
cido por um constitucional prudente, 
receoso de sahir pela porta principal, 
saltou de um pulo á orcliestra , met- 
teo os tampos d'entro a um rabecão 
grande, furou estrondosamente o cou- 
ro d'um dos timbales , por cima do 
qual fizera uma cabriola para chegar 
ao tabolado , entrou pela caixa do 
Theatro , deu com os narizes na Pri- 
meira Dama, que no seu camarim, 
apressadamente tratava de abdicar 
a coroa, e mais longe iria talvez , se 
não achasse o Empresário, seu conhe- 
cido , que logo cuidou em abriga-lo 
d'aquelle chuveiro de miolos esquen- 
tados , que por toda aparte invadiam 
o santuário das Musas, em busca de 
algumas armas , destinadas ás repre- 
sentações. Ora como se conhecem nos 
lances arriscados, os amigos não quiz 
eu de modo algum abandonar Fleuri, 
apezar do meu aperto, quero dizer,:. 



DE COIMBRA» 97 

do aperto das minhas calças, tjtie o al- 
faiate por sistema d'ecGnomia fizera 
táo justas, que se forào ccin os dia- 
bos de cima até abaixo ao dar eu 
certa espécie de salto mortal , cjue 
por pouco me nào reduzio á duríi ne- 
cessidade de me enrolar no panno 
de bocca , ou no saiote d'alí>uma bai- 
larina , ou no que quer que fosse , que 
por alli se achasse mais ageito d'en- 
cobrir indecencias. 

Sem demora ncs foi levar o Em- 
presário para certos subíerraneos , 
que tinham servido n'outro tempo de 
carneiros, ao Convento, e que eram lú- 
gubres pela escuridade , medonhos 
pelo estrondo desusado cem que os 
mais leves sons se reproduziam, e pa- 
vorosos pelos ossos, e caveiras, que, 
aos montões juncavam a terra. Ah! 
Que lembranças me não occuparam 
n'aquelle momento! Alli tens, disse 
uma voz a meus ouvidos, alli tens a 
incorruptível igualdade... Quantos 
desses gritadores , que por cima da 
tua cabeça vão bradando Républicaf 
Republica! Quantos desses, que tanto 

TOMO II. 5 



98 O ESTUDANTE 

fallâo em liberdade, e justiça, d'esses 
que seriam os primeiros a conspirar- 
se contra ella, nâo estremeceriam se 
depois de elevados ao poder viessem 
aqui ouvir estas palavras : — Vede 
com que imparcialidade uma Lei des- 
carnou esses ossos ! Tal deve ser a 
imparcialidade de vossas leis. — Quan- 
tos desses gritadores não emmudece- 
riam diante destas caveiras, que sem 
distincção vai o tempo corrompendo 
e reduzindo a pó?. . Diante de vós, 
mudos restos da vida, expira a raiva 
dos tyrannos, cessa o orguliio do con- 
quistador soberbo , perde o valor o 
ouro do avarento, e traz o homem so- 
peadas suas paixões, quando quer que 
seu nome não peze com desvantagem 
na imparcial balança da eternidade... 
O justo consola-se com vosso socego; 
e contem plando-vos attentamente o 
desgraçado, minora seus males, di- 
zendo com sigo mesmo : — O que he 
a vida l ! ! 

Que dirão esses .... que vivem 
hoje, d'aqui a mil annos , quando 
seus craneos estalarem debaixo dos 



DÊ COIMBRA. 99 

pés tias gerações vindouras , cõtwo 
teies agora debaixo de meus pés es- 
talam ? I ] Afastai-vos , exclamarão 
elles porventura , não me esmagueis'^ 
^u fm Prelado ^ Grão senhor, . . Fui 
iim Reil I I Estarão elles ainda car- 
regados de purpura , e de ouro , re- 
vestidos de abusivo poder *, cercados 
por centos de Cortezãos intrigantes, 
e fingidos , surdos a qUaesquer vozes, 
que nâo sejâo as da ambição , e do 
orgulho?! Vinde a este Tribunal, ca- 
prichos vãos do Mundo... Vinde aqui, 
illusões chimericas dos homens, w. Vin- 
de aqui de joelhos olhar silenciosa- 
mente para o pó da terra , e o sonho 
da vida I ! ! Vinde , vinde , gritado- 
res .... Curvai a fronte altiva ... . 
AqUi achareis o exemplo incorruptí- 
vel dessa igualdade santa que tão al- 
tamente proclamais. 

Taes eram os sons, com que uma 
voz, desconhecida por sua mages tosa 
gravidade, me íeiia os ouvidos, aba- 
lando minha alma ; quando Fleuri, 
que se occupára em visitar os mais 
recônditos logares d'aquelles subter- 
ò ii 



100 o ESTUDANTE 

raneos 5 me veio buscar pela mão, e 
]evando-me, atravez da escuridade, a 
um sitio dos mais remotos d'elles , 
me disse : 

— Escuta ! ! ! 

— Escuta ! O que ? 

— Não ouviste um suspiro ? 

— Creio que sim ! 

— Que te parece ? ! 

— Eu sei . . ! Parece-me que não 
estamos aqui muito bem . . . 

— Tens medo ? ! 

— Qual medo . . . Nada . . . Não 
gosto de graças com quem Deos tem; 
e sobre tudo no meio de tantos ossos 
com fome de carne. 

— Não ha dúvida . . ! Sao gemi- 
dos ! A voz sahe d'aqui ! se batêsse- 
mos na parede . . ? 



DE COIMBRA. 101 

— Qual bater, nem meio bater. 
Vamos-nos embora , que faz muito 
frio . . . 

— Nada, havemos de bater . . , 

Disse, e bateu, no muro, três pan- 
cadas , que foram immediatamente 
repetidas do outro lado, trazendo-me 
isto á lembrança os tempos da torre 
de S. Julião da barra , quando nos 
correspondiamos de umas para outras 
prisões por meio de toques na parede. 

Neste comenos veio dizer-nos o 
Director do Theatro , que podíamos 
sahir , por que os revoltosos em nu- 
mero de trezentos se tinham ido en- 
trincheirar na Rua da Porta de S. 
Martinho , aonde denodadamente se 
defendiam de dez , ou doze mil ho- 
mens , que os cercavam. Demcs-lhe 
parte da nossa descoberta , que o en- 
cheu de admiração, e de terror; quiz 
ir pessoalmente ouvir os gemidos , e 
ficou persuadido, que algum infeliz 
se achava sepultado vivo no subter- 
râneo das casas contíguas ao Thea- 



102 o ESTUDA líTE 

tro , cujo subterrâneo em outro tem- 
po fizera parte d'aquelle , tendo sido 
separado delle por uma fraca parede, 
que o senhorio das mesmas casas no 
momento de as edificar mandara 
fazer. 

A' vista de um caso tão impor- 
tante nos reunimos em conselho , e 
foi voto unanime, que immediata- 
mente se fizesse a devida declaração 
ao Delegado do Procurador Régio. 

Náo tardaram duas horas, que 
a Justiça não viesse fazer suas pes- 
quizas , apezar de se achar Paris 
11'aquelle momento fortemente aba- 
lado pelos horrores da guerra civil : 
paizes haveria , mesmo em socego , 
onde se não remediasse , nem accu- 
disse á victima, que suscitara nossas 
queixas , senão semanas , ou mezes 
<iepois de as termos feito; sobre 
tudo , se o Author do crime fosse al- 
gum grão senhor, ou tivesse dinheiro; 
porque os titulos , e a riqueza são 
neste Mundo , apezar de quantas ca- 
rochas , e grandes palavrões nos via- 



DE COIMBRA. 103 

rem embutir de lei , e de liberdade, 
um Talisman invulnerável , diante 
do qual se desvanecem os direitos 
mais sagrados do homem. 

Em menos de duas horas , como 
já disse , cercou a policia aquelles 
legares , fez as devidas pesquizas em 
todas as casas circumvisinhas , e re- 
teve em custodia o morador d'aquel- 
la , a que o subterrâneo pertencia, 
(que segundo nos disseram declarou 
ser Mestre de Dança Italiano) ao 
mesmo tempo, que pelo lado dos sub- 
terrâneos se demolia a parede , e nos 
precipitávamos com luzes na medo- 
nha sepultura do encarcerado . . . Ah! 
Que triste painel I . • Uma expressão 
de vingança, sahida decoração, veio 
expirar nos lábios de todos . . , Um 
homem , ou antes um phantasma im- 
mumdo , quasi nu , coberto de pó, e 
de vermes estava estendido sobre a, 
fria terra ; longas barbas carregavam 
seu mirrado , e pallido semblante ^ 
cujas feições occultava cem as mãos 
para privar seus olhos , tão pouco 
aíTeitos já á claridade, da luz dos ar- 



J04 O ESTUDANTE 

ehotes , com que affugentáramos de 
sua prisão a infinita noite. 

Conduzimos immediatamente o 
infeliz para casa do Porteiro do Tiíea- 
tro , para cujo logar foi mandado vir 
o Mestre de Dança á presença das 
Authoridades : alli pude ver então 
bem á vontade o algoz , e o paciente; 
o sangue se me gelou de horror em 
presença de ambos. Quem o houvera 
esperado ? ! ! O perseguidor era Frei 
Barnabé ! ] ! 1 ! A desditosa victima 
era Antónia, o Irmão do Caseiro de' 
Rodolfo ! I ! O Frade foi d'alli mesmo 
remettido para a Cadeia ; e o desgra- 
çado António, cercado de desvelos, 
e cuidados , conduzido para minha 
casa , aonde Farrusco o recebeu , co- 
mo pessoa de sua intima amizade , e 
deu, publicamente, mais uma prova 
de que os cães, apezar de serem cães, 
se não esquecem deseusbemfeitores, 
como acontece á mui racional , e 
nunca assas louvada humanidade. 



DE COIMBRA. l05 



«.«t«M\tUltW«M(VMn«MM/»«V«Vl«M«V\tltWI«M«M/«iVtlVM««MVMMMIUiM 



CAPITULO XXIV. 

MUITO FÓZ>E A NECESSIDADE. 

penas António se achou em esta- 
do de o fazer , me relatou o que se 
passara desde a minha saída de Co- 
imbra para o Porto. — O Senhor Ro- 
dolfo (me disse eile) se preparava com 
a família a deixar sua casa quando 
as Forças Contilucionaes faltas de 
pólvora e receosas de serem flanquea- 
das , se retiraram tanto á pressa, de- 
pois da acção da Cruz dos Meroiços, 
que só deram a todas as pessoas com- 
promettidas o tempo de fugir quasi, 
por assim dizer , com o que tinham 
em cima de si : o Senhor Rodolfo, 
sua Filha, e Mana, Eu, e minha 
Mulher , que segundo sabe , criou a 
Menina , deixando tudo entregue a 
meu Irmão (o Caseiro), menos algum 



J06 O ESTUDANTE 

dinheiro, e jóias de pouco vulto, noS 
puzemos a caminho para Monte-Mór 
Õ Velho , aonde contávamos achar 
amigos , que quizessem abrig-ar-nos, 
porém Monte-Mór estava revoltado, 
e por isso nos metemos n'um barco, 
e nos entregamos á discrição do des- 
tino, e da corrente do Mondego, 
que por fortuna nos levou a salvo até 
á Figueira , a tempo de nos embar- 
carmos n'uma escuna de guerra in- 
gleza que saía para Lisboa. Passadas 
trinta horas fundeamos no Tejo, e nao 
sabendo melhor partido , a que nos 
déssemos , nos resolvemos a desem- 
barcar , esperançados , como todos o 
estavam porentáo, em próximas mu- 
danças politicas, trazidas á Pátria pelo 
Governo dosAlliados: incalculáveis fo- 
ram as difficuldades a vencer para po- 
dermos desembarcar , por haver pro- 
mettido o Almirante da Esquadrilha 
Ingleza, surta no Tejo, que nào deixa- 
ria saltar pessoa alguma em terra- pa- 
lavra que por certo houvera conserva- 
do , se mui fortes argumentos lhe não 
tivessem demonstrado que nem sem- 
pre é bom ateimar . . , 



DE COIMBRA. 107 

Passado tempo , e perdidas as 
esperanças de melhor sorte , nos pre- 
parámos a emigrar : o senhor Rodol- 
fo queria deixar sua Mana , e a Me- 
nina em um Recolhimento ^ mas só 
a senhora se resolveu a isso ematten- 
ção a seus annos , e padecimentos; 
€ a senhora D. Maria quiz a toda a 
força seguir os destinos de seu Pai. 

Ora nisto se vê agora como o dia- 
bo tece as cousas I . . . O que havia 
logo de acontecer? Quem havia de 
ser o Confessor do Convento ? . . Frei 
Barnabé ] ! ! Ninguém sonhava em tal, 
e já o espião maldito sabia tudo; nin- 
guém o víríi ainda , já elle me vira 
a mim , Já me seguira por vezes até 
casa , e já finalmente me observara 
de modo , que a poucos passos se nos 
apresentou á porta ! Que partido po- 
deria tomar o senhor Rodolfo n'aquel- 
las alturas? Atirar com elle pela es- 
cada abaixo , quebrar-lhe os ossos, 
mata-lo, quando se achava escondi- 
do , e receoso até de andar pelo so- 
brado ? Recebe-lo bem , quando o 
m^alvado intentara sacriíica-lo, easua 



103 o ESTUDANTE 

Filha?... A alternativa era cruel; 
mas a prudência vale muito, princi- 
palmente quando estávamos para sahir 
do Reino, ao passo que Frei JBarnabé 
fazia trinta mil juramentos de amiza- 
de, de sinceridade, de respeito, de ar- 
rependimento , e que de joelhos com 
as màos postas supplicava perdão. 
Ainda mais um motivo obrigou o se- 
nhor Rodolfo a receber o Frade; e foi 
a inesperada apparição do Miguel Al- 
caide, de cujas garras Frei Barnabé o 
arrancou, dizendo ao vil Quadrilheiro, 
que na qualidade de Capeliao da Ca- 
deia se responsabilizava pelo preso 
promettendo por outro lado , ao Pai 
d'aquella , por causa de quem fazia 
taes finezas, que d'alli voava immedia- 
tamente a fallar com o Excellentissi- 
mo Intendente da Policia para reme- 
diar os males , que o Miguel agarra- 
dor intentasse fazer. 

Partiram ambos; o Alcaide para 
fazer sem dúvida alguma das suas; eo 
Frade para casa do Intendente: quan- 
to a nós tão leves como gamos nos met- 
temos no bote do Catraieiro Calão , 



DE coimbra;> 109 

abordamos um brigue de guerra Fran- 
cez , e deixámos em casa para rece- 
ber o senhor Padre Mestre duas bar- 
ras, uma caixa de pinho, um enxer- 
gão, um pote, uma bacia, um foga- 
reiro , e varias outras preciosidades. 

Passado pouco tempo , partimos 
para França , aonde felizmente che- 
gámos , e requeremos , e nos foi con- 
cedido o subsidio, dado pela Embai- 
xada de Londres aos emigrados , que 
foi sol d'inverno, porque logo se aca- 
baram os fundos ; isto fez que o se- 
nhor Rodolfo, por espirito de econo- 
mia, me mandasse partir com minha 
Mulher para o deposito de Rennes, 
resolvido eile mesmo a ir para a Ilha 
Terceira , depois de depositar a Me- 
nina em casa de uma Mestra muito 
capaz , até que elle , quando se ti- 
vesse estabelecido na dita Ilha, a 
mandasse partir em minha compa- 
nhia, e de minha Mulher para junto 
de si. Alguns mezes depois recebi 
uma carta, emRennes, pela qual o Snr. 
Patrão me ordenava que fosse imme- 
diatamente buscar sua Filha, para 



110 o ESTUDANTE 

cujo fim acharia eu em Paris na Pos- 
ta-RestoMÍe outra carta com as neces- 
sárias insírucções , e uma Letra de 
Cambio , que me forneceria os meios 
de realisar o que me ordenava : lo- 
go que recebi esta carta, mandei par- 
tir minha Mulher para o Havre, ponto 
do nosso embarque , e marchei para 
Paris. Meu espanto foi incalculável, 
quando soube na Posta-Restanie que 
mui pouco tempo antes de mim che- 
gara outro sujeito , e tirara a car- 
ta , que eu buscava I Fiquei sem sa- 
ber o que fizesse, e menos ainda aon- 
de morava a Mestra de Meninas, por 
dever sabe-lo pela carta , que tinha 
desapparecido: fui queixar-me aoDi- 
reclor dos Correios sem resultado al- 
gum ; escrevi a minha Mulher, con- 
tando-lhe tudo, e remettendo-lhe uma 
carta para o senhor Rodolfo , com es- 
pecial recommendação de a enviar 
para a Terceira na primeira occasiào, 
que se offerecesse. 

Fácil lhe será , meu senhor, cal- 
cular minha desesperação , a minha 
impaciência , e a assiduidade , com 



DE COIMBRA. Ill 

que por toda a parte andava em bus- 
ca da Menina , quando alguns dias 
depois d'aquel]e acontecimento dei 
cara a cara, ao passar peia Ponte No- 
va^ com o mui recommendavel Frei 
Barnabé ! E sem mais hesitar lhe 
agarrei no braço com firmeza, e lhe 
gritei : — O senhor nào me conhece?.. 

— Parece-me que já o vi; mas não 
me recordo . . . 

— Ah ! Nào se lembra ? ! Por isso 
esperava eu ; mas para lhe ajudar a 
memoria , queira ter a bondade, im- 
mediatamente , de me dar conta da 
Filha do meu Patrão e de uma carta, 
que me era dirigida por elle : nin- 
guém ha nesta Cidade senão você, 
que saiba o meu nome. 

— Eu ? ! . . Uma carta ? ! . . O seu 
nome ? ! . . Eu quero cá saber do seu 
nome para cousa nenhuma ! ! ! Vá 
seguindo o seu caminho ; e deixe-nie 
em paz . . . 

— Ah J Nào sabe nada ! Eu lho 



112 o ESTUDANTE 

faço já saber, grandissimo mariola... 
Ha de ficar aqui mesmo feito em pos- 
tas . . . 

A contenda foi tomando tanto 
calor, que estávamos a ponto de nos 
engalfinharmos um no outro no meio 
de um concurso de povo, que se api- 
nhara , atraído por nossos gritos ; 
mas o Frade receoso de minhas pala- 
vras , ou commovido talvez pela do- 
çura desta mão de ferro, que lhe 
apertava o braço vacillante já, etitu- 
biante , me disse em voz baixa , de- 
pois de pequena pausa de reflexão, 
que me accommodasse , que as minhas 
queixas era?n jusias ^ que o accompa- 
nhasse , e que promettia resWuir-me 
tudo : é incrivei a alegria , que pro- 
duziram em mim aquellas palavras; 
segui sem hesitação o malvado ; com 
elle fora mesmo ao Inferno em busca 
do que tão anciosamente desejava; 
diante de meus olhos via só repre- 
sentada essa innocente Menina , que 
por tantas vezes minha Mulher, e eu 
trouxéramos ao collo ; ferviam na mi- 
nha alma, somente as lembranças, e 



DE COIMBRA. 113 

OS desejos de ir arranca-la das garras 
do monstro ; acompanhei Frei Barna- 
bé ás cegas, e quando menos o espera- 
va, me achei encerrado nessa ca- 
verna , da qual a Providencia , a ca- 
sualidade , ou a justiça de Deus de- 
terminou que V. S.* me fosse arran- 
car. — 

Assim me relatou António quan- 
to se passara d'esde a minha saída 
de Coimbra ; mas com seu discurso 
pouco , ou nada me orientava á cer- 
ca de Rodolfo, e de sua Filha. Frei 
Barnabé , já preso havia dias , e 
por muitas vezes interrogado , não 
declarava cousa alguma, continuan- 
do a afirmar que nâo sabia nada , e 
que não tinha sido elle , quem mettê- 
ra no subterrâneo o homem , que lá 
se achara. A' vista disto me resolvi, 
se bem que de má vontade , a ir fal- 
lar com o preso : creio , quando nos 
achamos na presença um do outro, 
que a raiva corria paraíbas de par- 
te aparte; tratava-se no em tanto de 
comprar o segredo de Frei Barnabé 
a troco de quaesquer sacrifícios , e , 



114 O ESTUDANTE 

se possível fosse , descobrir o lugar 
aonde Maria se achava. Frei Barnabé 
resistio por muito tempo a minhas 
ofiertas ; mas quando prometti con- 
seguir-lhe a liberdade , examinando 
cuidadosamente se estávamos sós, me 
declarou , que Maria lhe fugira no 
mesmo dia , em que elle a tirara de 
casa da Mestra: que a Rodolfo só con- 
servava elle prezo em logar segu- 
ro , e próximo talvez a morrer de fo- 
me , se o não soccorressem com bre- 
vidade. O meu sangue se gelava ou- 
vindo a franca exposição que se me fa- 
zia com o maior sangue frio, e sobre 
tudo quando o monstro me asseverou 
que ha muito tempo espiava meus 
passos , e procurava occasião oppor- 
tuna para me fazer outro tanto ! ! ! 
Com que vontade poderia eu buscar 
os meios de libertar o malvado senão 
fosse indispensável salva-lo para sal- 
var Rodolfo i ! 1 Prometti ao infame a 
liberdade apenas Rodolfo estivesse a 
salvo : Combinamos o negocio com 
segurança promettendo qued'alli em 
diante se poria termo a mutuas perse- 
guições. 



DE COIMBRA. 115 

Dirigi-me logo a casa de Mr. de 
L***C***, a quem tudo contei 
confidencialmente , pedindo-lhe que 
houvesse de empregar seu valimenta 
para se conseguir a prompta soltura 
do criminozo: muito me custou resol- 
ve-lo a isso , e não cedeu a meus ro- 
gos senão depois de se haver conven- 
cido , que por esse único meio se po- 
deria salvar Rodolfo das privações, e 
horrores a que sem dúvida se achava 
exposto : á vista d'isto se empenhou 
por tal forma no negocio , que Frei 
Barnabé foi absolvido por falta de 
provas , com a clausula de sahir im- 
mediatamente de França ; Quanto a 
Rodolfo podemos salva-lo , de uma 
posição , similhante á de António , e 
tributar-lhe os carinhos de amigos 
fieis , que em seus braços , trémulos 
de prazer , o apertavam. 

Não te admires, Leitor, de tu- 
do isto: se tivesses um tostão, déca- 
da malvado , que por esse Mundo se 
absolve a titulo de falta de provas, 
poderias aspirar com tua riqueza a 
grandes cousas; arranjar um pacto 



116 o ESTUDANTE 

social , sem ser o do João Jacques , 
com toda casta de figurão •, negociar 
em papeis activos e passivos ; ser o 
auctor , réo, e testemunha tudo jun- 
to ; ser tudo quanto quizesses até va- 
lete de copas . . . 



DE COIMBRA. 117 



IU«*M«M«M«M.«««\«««V»«M«M«M«««JMIVM««M«M«tl«««tiMlt«V»«M««l 



CAPITULO XXV. 



VAMOS A EI.Z.E. 

inha-se juntado o Triumvirato : 
em minha casa se achavam a salvo;Ro- 
dolfo, Eu, e António, porque o mons- 
tro causador principal de todos os ma- 
les , tendo comprado a liberdade á 
custa da salvação de Rodolfo , parti- 
ra para os Estados unidos , sem que 
nenhumas novas nos tivesse dado de 
Maria , que affirmára lhe fugira no 
mesmo dia, em que a fora buscar a 
casa de Josephina : todos os meios se 
empregavam para encontra-la , e a 
Mulher d' António; todos trabalha- 
vam com anciã, até Mr. de L*«* 
C***, e Filho, que não cessavam 
de escrever a seus amigos para to- 
dos os pontos de França , nem dei- 
xavam com seu valimento de obrigar 



118 O ÈSTUDANTft 

as Authoridades apesquizas, e inda- 
gações as mais minuciosas : havia 
porém a sorte resolvido que nada se 
podesse descobrir. A mais compun- 
ge n te tristeza minava os cançados 
dias do meu velho amigo *, tudo nos 
levava a acreditar que náo estavam 
em França essas duas creaturas tào 
indispensáveis para nessa ventura... 
Oh! Deus] Aonde estariam elhis ? ! 

InfeJiz humanidade , se não < i- 
vesses por amigos o incansável andar 
dos tempos , e as esperanças , que 
te acompanhào até á sepultura ; mor-^ 
rêras mil vezes ^ ou para melhor di- 
zer soffrêras mil vezes mais do que a 
morte : só na presença destes {)ode-^ 
rosos consoladores pudemos ir aturan- 
do os insultos da tristeza; e perdidas 
as esperanças de achar em França^ 
quem desejávamos , nos resolvemos 
a partir para a Terceira , aonde D. 
Pedro organisava seu exercito para 
vir a Portugal. 

Despedimo-nos de Mr. deL***- 
C***, de seu Filho, e Familia, da 



DE COIMBRA. 119 

seductora Eugenia , e partimos: che- 
gados ao nosso destino , nos vimos 
logo cercados de amigos , de patrí- 
cios , e vellios camaradas \ se a sau- 
dade , e o desgosto, nos flagellava 
por um lado , também para suavisar 
nossos pesares, tínhamos ante os olhos 
o santo fogo da Liberdade , e pula- 
va-nos no coração o amor da Pátria, 
em quanto girava nelle, de relance, o 
antigo sangue Portuguez : a idéa de 
derribar o T} ranno ; de abraçar a 
esposa , e os filhos ; de os arrancar 
da miséria ; de vingar a innocencia 
opprimida, e os amigos ultrajados; 
de restituir a lei á lei , e a balança 
da igualdade á justiça , tal era por 
entào a unanime vontade. As Ilhas 
dos Açores eram já nossas : S. Mi- 
guel, defendida por muitos miguelis- 
tas , acabava de se render á discrição 
do valente Conde de Villa Fi(3r, que 
no logar de Ladeira da Velha der- 
rotara com mil e quatro centos ho- 
mens , e uma peça de artelharia , 
(tomada na véspera) mais de três mil 
soldados de tropas regulares , refor- 
çados por dez boccas de fogo. 



ISO o ESTUDANTE 

Dom Peàro tendo contraído um 
empréstimo, e comprado differentes 
vasos de guerra, acabava com o ti- 
tulo de Duque de Bragança, de che- 
gar á Terceira , e de reunir ás forças 
da Ilha os Emigrados , que se tinham 
ajuntado para esse fim em Belle-Isle. 
IJm Manifesto feito á Europa mos- 
trava seus direitos á Coroa , que ab- 
dicara em favor da Rainha dos Por- 
tuguezes; os sentimentos, que fer- 
viam em seu coração de libertar a 
Pátria de um jugo peior ainda da que 
p dos Felippes ; a necessidade que 
sentia de castigar a perfídia de seu 
Irmão , sanccionada por meia dúzia 
de traidores , a quem perdoaria com 
tudo , se se quizessem arrepender^ 
e finalmente os desejos de levar com- 
sigo á Pátria tantas viclimas infeli- 
zes , que para sustentar o Throno Le- 
gitimo e a Constituição, se tinham 
sacrificado. 

Dispostas por este modo as cou- 
sas , nomeados , para Ministros , do 
Reino, e Estrano-eiros o Marquez de 
Palmela ; da Justiça , e Fazenda José 



DE COIMBRA» 121 

Xavier Mosinho; da Guerra, e Ma- 
rinha Agostinho José Freire ; con- 
fiado o Exercito ao Conde de Villa- 
Flôr^ e a Esquadra ao Vice- Almiran- 
te Sertorius , se puzeram em movi- 
mento as Forças Libertadoras , com- 
]X)stas tie duas fragatas , duas cur- 
vetas , três brigues , quinze barcas 
canhoneiras , setenta e cinco trans- 
portes , dous mil e quatro centos ma- 
rinheiros, e oito mil cento e vinte e no- 
ve homens de desembarque, dos quaes 
só sete mil e quinhentos estavam ar- 
mados. 

Onze Vezes o Sol dormiu tranquillo 
No mar, que dcriadeiro nos ficava, 
Té que, de ver a terra veio a hora, 
Que desejada já de tantos fora* 

Estávamos nas alturas da Cida- 
de do Porto : foi o Major Sá Noguei- 
ra , como Parlamentar , propor ao 
Brigadeiro Cardoso , que se unisse 
ás Forças de D. Pedro, e veio, tra- 
zendo em resposta, — que não se uni- 
ria elle a uni Chefe de aventureiros^ 
e que (lefuturo mandaria fuzilar ^quem 
TOMO II. 6 



Ig2 o ESTUDANTE 

ousasse fazer-lhe taes propostas — Não 
tardou que nosso valor fosse dar mos- 
tras ao Miguelista atrevido da gloria 
e valentia desses , que elle tanto me- 
noscabava. 

Tendo a Esquadra surgido na 
bahia do Mindêllo , começou, pouco 
depois do meio dia, a effectuar o des- 
embarque, sendo a primeira gente, 
que saltou em terra , na presença de, 
um piquete miguelista , que não fez 
resistência alguma , a guarnição do 
Brigue Conde de Villa-Flôr: tomadas 
immediatamente as devidas disposi- 
ções , se fez um movimento sobre 
Pedra Ruiva , que D. Pedro capita- 
neou em Pessoa com tanto valor , e 
arte , que não podendo as tropas mi- 
guelistas de Villa do Bonde reunir-se 
durante a noite com as do Porto , se 
viram estas obrigadas , com as que 
de Leça tinham chegado , a abando- 
nar a Cidade, retirando-se para Villa 
Nova, e cortando a ponte. 

No dia nove de Julho de mil oi- 
to centos e trinta e dois entrou no 



DE COIMBlíA. 123 

Porío o Duque de Bragança á frente 
do Exercito Libertador, e romperam 
as aguas do Douro nossas embarca- 
ções lie^eiras, que por meio de seu fo- 
go desalojaram das alturas de Villa 
Nova os Miguelistas, que procura- 
vam incommodar-nos» 

Com a saída das tropas inimigas 
da Cidade, se foram embora também 
iodos oscompromettidos na Causa do 
usurpador , o povo correu a soltar os 
presos; e o Exercito Constitucional, 
surdo á voz da vingança , entrou no 
Porto com louvável, e briosa mcde-^ 
raçào. Passados os dous primeiros 
dias , começaram os inimigos a in- 
commodar-nos , de Villa Nova, até 
que o valente SchÀvalbach foi com 
Ires mil liomens castigar-lhes a au- 
dácia» 

Neste meio tempo se havia a for- 
ça de Villa do Conde reunido á do 
General Santa Martha, e o Duque de 
Bragança, vendo desembaraçado o nor- 
te do Douro, acabava de mandar mar- 
char para Guimarães, e Braga Au- 
6 ii 



124 O ESTUDANTE 

ctoridades , e destacamentos , que 
pouco depois tiveram de retirar-se : 
em seguimento se deu a gloriosa Acção 
de Ponte Ferreira , aonde nossas tro- 
pas obraram prodígios de valor , pos- 
to que pela Cidade espalhasse um 
transfuga de nosso exercito , que tu- 
do estava perdido , que os nossos ti- 
nham sido derrotados , que se lhes 
havia cortado a retirada , e que o 
General Povoas com quinze mil ho- 
mens entraria em breve no Porto: 
calarei o nome do mensageiro espa- 
vorido , por ser o senhor Estudante 
mui falto de memoria no que possa 
desacreditar alguém ; qualquer que 
seja a auctoridade do historiador na 
presença dos factos. 

Correu D. Pedro a animar os 
Portuenses , apenas soube o que se 
passava; ordenou festejos pela victo- 
ria alcançada, deu mostras não equi- 
vocas da grandeza de sua alma, que 
nem por isso deixava de presentir 
08 trabalhos da encarniçada , e du- 
radoura luta em que se via envolta, 
e para distinctamente patentear sua 



DE COIMBRA. 1^5 

intenções , despedio todos os trans- 
portes , que tinham servido a seu 
Exercito , resolvido a derramar até 
a ultima gola de seu sangue nesta 
contenda , muito mais delicada por 
causa dos inimigos , que na mesma 
Cidade havia, e que buscavam tcdcs 
os meies de alcançar para D. JVÍiguel 
a victoria a troco de quaesquer es- 
forços : a elles foi devido o successo 
da noite de vinte e qualro de Julho, 
em que o Exercito chegara fatigado 
de Ponte Ferreira. 

Os Frades do Convento de S. 
Francisco desejosos de patentear suas 
virtudes, mandaram distribuir vinho 
sem conta pelos Soldados do quinto 
Batalhão de Caçadores : desconfiados 
os Offjciaes de tanta bondade, não 
consentiram que a oíTerta fosse acei- 
ta : dous Soldados se aproveitaram 
somente d'aquella generosa philan- 
tropia franciscana : mal sabiam elles 
que bebiam a morte pela taça deBa- 
cho , digno adorno , e indispensável 
instrumento , com que se alargavam 
os cachaços d'aquellas santas creatu- 



1^6 o ESTUDANTE 

Tas: um incêndio horrível se ateou 
conjunctamente nos quatro cantos do 
Convento , e ganhou n'uni momento 
o ediíicio inteiro ; os dous infelizes, 
armas , fardamentos , petrechos de 
guerra , e a bandeira bordada pela 
«lào de nossa Augusta Rainha , foi 
tudo victima das chamas ; este acon- 
tecimento , o de haver sido furtado, 
por ordem do Padre Procurador dos 
Lóios , o Vaso Sagrado do Convento, 
com recommendação de que fosse o 
roubo imputado ao Batalhão de Vo- 
luntários , que alli se achava aquar- 
telado; uma carta doAbbade dosBe- 
nedictinos do Porto, por meio da qual 
com tinta sympathica, se lamentava 
o máo êxito do incêndio , em que 
não fora possível sacrificar o Duque 
de Bragança , recommendando a as- 
siduidade em tâo barbaras tentativas, 
que D. Miguel premiaria , e final- 
mente muitos outros motivos levaram 
o Governo a cautelosas medidas , e 
te-lo-hiam talvez reduzido á necessi- 
dade de punir severamente , se o po- 
vo , similhante ás elevadas serras 
de grãos de área , que pelo sopro do 



DE COIMBRA. 127 

Septemtrião se formão no deserto de 
Sahara se não alevantasse para per- 
seguir os malvados , em quanto o 
Governo abolia seus Conventos. 

Não te direi, Leitor miudamen- 
te o que fazia Rodolfo, eu, e An- 
tónio mas posso asseverar-te, que não 
éramos dos inimigos menos terri- 
veis de D. Miguel ; especialmente 
Rodolfo , que dava amiudadas mos- 
tras de seu valor , ajuntando cmmi- 
nentes serviços aos muitos , que já 
prestara ao seu paiz , ingrato geral- 
mente para os que maior considera- 
ção merecem. 



1^8 O ESTUDANTB 



CAPITULO XXVI. 

09 I^MXC^RABOS MO PORTQ. 

âo se tendo, como esperávamos, 
sublevado o Reino na presença do 
Exercito Libertador; seja porque o 
terror sopeasse os ânimos, ou porque 
os Frades dominassem as massas po- 
pulares, e as levassem com vozes hy-* 
pocritas aos mais horrorosos crimes; 
teve D. Pedro que tomar a defensiva 
mandando abrir linhas, e fortificando- 
se no Porto: durante estas obras, por 
muitas vezes, animou elle com seus 
trabalhos aos operários de todas as 
condições , actos que só apparecem 
na historia dos grandes homens : ao 
mesmo tempo se ajuntavam em torno 
da Cidade milhares, e milhares de 
bayonetas miguelistas, que nos inter- 
ceptavam por terra todas as çomnouni» 



DE COIMBRA. 129 

cações, e trânsitos reduzindo-nos tem- 
porariamente á dura necessidade de 
moer o trigo em moinhos de café : o 
cerco torna va-se cada vez mais aper- 
tado , forçoso era aventa-lo : para 
isso foi o Conde de Villa-Flôr encar- 
regado de atacar as tropas inimigas 
em Souto Redondo, em cuja lucta os 
Liberaes tiveram grande perda, se 
bem que por então se fixassem na Ser- 
ra do Pilar, ponto indispensável para 
adefeza do Porto. No dia oito de Se- 
tembro atacaram os miguelistas Villa 
Nova, e a Serra, com forças mui su- 
periores: por três dias se disputou a 
victoria, mas a Serra do Pilar susten- 
tou com denodo o P<avilhâo da Liber- 
dade, que náo deixou um só instante 
de tremular soberbo no meio de um 
chuveiro de balas, e metralha inimiga: 
desde então se resolveram os migue- 
listas , achando resistência maior do 
que julgavam , a bombardear a Ci- 
dade; e com tanto furor o fizeram, 
que por Sodoma houvera podido ser 
considerada, se o fogo, quenellachu- 
via , sahisse do Ceo , em vez de ser 
vomitado pelo Inferno , e accendido 



130 O ESTUDANTE 

raivosamente pelos filhos de Sata- 
naz. 

No dia dezeseis de Setembro fi- 
zeram os sitiados uma sortida , des- 
tinada a demolir algumas baterias, 
cujo plano conseguiram com perda 
considerável dos sitiantes: em vinte 
e nove do mesmo mez (dia de S. Mi- 
guel) foram os nossos atacados com tan- 
ta força, que uns trezentos a quatro 
centos homens inimigos chegaram a 
entrar na Cidade; e teriam talvez cau- 
sado irreparáveis damnos, se após del- 
les não viesse um Regimento, que D. 
Miguel fardara á franceza, com o qual 
por engano se baterão seus camaradas, 
até que amedrontados por duas Com- 
panhias de gente nossa e carregados 
por uns vinte e cinco homens do Cor- 
po de Guias , fugiram tão precipita- 
damente, que nos deixaram duas pe- 
ças de artelharia , e um obuz levan- 
do por este modo o terror a uma co- 
lumna de reserva , que apressada- 
mente marchava já sobre o Porto. 

Uns quatro centos a quinhentos 



©E COIMBRA. 131 

miguelistas se apresentaram , nesse 
mesmo ataque, pelo lado do Cotovelo, 
gritando que lhes náo fizessem fogo; 
mas reconhecido em breve o estratage- 
ma, mui cara lhes custou tanta mal- 
dade. Bem se pôde dizer, que a acção 
daquelle dia se estendeu por toda a 
linha, sendo a ultima flor, que adornou 
a coroa da nossa gloria a briosa cora- 
gem , com que os Liberaes valentes 
defenderam a Serra de Pilar, investi- 
da por forças consideráveis. A victo- 
ria foi toda nossa , apezar das espe- 
ranças que os malvados nutriam de nos 
exterminar; a qual tinham [>or tào cer- 
ta, que D. Miguel assistira na Ajuda a 
wmTe-Deiim^ em cujo Sermão (na pre- 
sença de Deus, e na cadeira da ver- 
dade) annunciou oíBcialmente Fr. João 
de S. Boaventura, que as tropas do seu 
Senhor acabavam de entrar no Porto. 

O dia doze de Outubr<), anniver- 
sario de D. Pedro, foi festejado com 
illumiflâções , vivas , e foguetes, que 
nos ares muitas vezes se encobriam 
entre a nuvem de bombas, e metra- 
]hii miguelista. No dia quator^c foi 



]32 O ESTUDANTE 

O Convento da Serra novamente ata- 
cado por três fortes col um nas, que os 
bravos defensores por seis vezes re- 
pelliram. A'vi«ta de tantos revezes 
nào podia o desalento deixar de apo- 
derar-se de todos os corações miiçue- 
listas , nem esquecer-se a maldade, 
pela parte delles, de excogitar ciladas, 
favoráveis (sendo possível) ao usur- 
pador, e a seus sequazes, chegando a 
conceber-se o projecto de assassinarO. 
Pedro ; mas a cobardia era grande , 
para que pudesse surdir seu desejado 
éffeito. D. Miguel acabava de deixar 
Lisboa para irapresentar-se ao Exer- 
cito; mas nào faltaram pelo caminho 
orgias , e excessos de toda a casta , 
com que se demesse. Os nossos nào ces- 
savam , com imprevistas sortidas, de 
vencer, e aterrar os sitiantes, nemel- 
lescom suas bombas, e pelouros de in- 
commodar-nos : ditosos porém de nos- 
sos feridos ; porque as meigas Por- 
tuenses, modelo de patriotismo, An- 
jos na paz. Amazonas na guerra, vie- 
ram muitas vezes com fios, preparados 
par suas lindas màos, estancar-lhes o 
sangue , e pensar suas feridas. 



DE COIMBRA. 133 

Em quanto isto se passava, se acha- 
vam os Constitucionaes sem dinhei- 
ro, sem munições de guerra, e perse- 
guidos pela fome. José da Silva Car- 
valho, chamado ao ministério, reme- 
diou estes males , obrigando os espe- 
culadores a apresentar os géneros , 
que tinhào escondidos, e a vende-los 
por um preço razoável , e os proprie- 
tários , e capitalistas da cidade a um 
empréstimo forçado, com a promessa 
de que seriam embolçados, apenas as 
circumstancias o permittissem: estas 
medidas teriam sido mais violentas, 
do que perspicazes; mais arbitrarias, 
do que constitucionaes, se, para fazer 
justiça a seu auctor , se náo tives- 
sem tornado indispensáveis por então. 
Nâo paravam aqui nossos males! Mui- 
tos clubs se tinham organizado den- 
tro da Cidade ; a ambição, e a inve- 
ja começava a desunir um punhado 
de homens, cuja força dependia uni- 
camente da sua união : as rivalida- 
des, e a discórdia espalhava asolapa- 
damente seu fogo pelos Soldados , e 
Generaes; forçoso foi chamar ao nos- 
so commando o Barão de Solignat, 



134 O ESTUDANTE 

General Francez , que servira ás or- 
dens de Napoleão; mas as rivalidades 
se augrnenUaram em vez de cessarem 
e a sorte da causa Constitucional não 
achou melhoramento com a prezen- 
ça de um homem , que revestido de 
grandes créditos não deu maiores pro- 
vas de valor , e de táctica , do que 
nossos Generaes ; nem apresentou 
conhecimentos militares superiores ao 
do Nobre Saldanha, cujos serviços 
não merecem que a ingratidão, ac- 
cendida pela raiva dos diíferentes par- 
tidos , lhe pague tão indignamente 
os feitos , como recompensou a glo- 
ria de um nobre Varão de seus ante- 
passados! 

Para tudo acabrunhar os sitia- 
dos, até a cholera-morbus veio espa- 
lhar seu venenoso hálito pela Cidade: 
seus damnos teriam sido irreparáveis 
sem aspromptas providencias, que se 
deram para reprimir seus estragos, 
tão horríveis no resto de Portugal: 
por outro lado continuavam os migue- 
listas a incommodar-nos com repeti- 
das manobras, e ataques, que nos se- 



DE COIMBRA. 135 

riam mui funestos sem os auxílios, 
que já começavam a ciiegar-nos para 
alento nosso, e desalento de nossos ini- 
migos , victimas de successivos re- 
vezes, faltos de meios, e tão insubor- 
dinados, a pesar da presença de D. Mi- 
guel, que os soldados alcunhavam de 
malhados aquelles de seus Chefes, 
que pertendiam conserva-los nos li- 
mites de seus deveres. 

Um acontecimento nos aterrou por 
então : a péssima conducta de Serto- 
rius, ou sua fraqueza na presença 
das tripulações de nossa Esquadra, 
que se revollaram por falta de paga- 
mentos: recorreu-se nesta crise aper- 
tada ao patriotismo de José Ferreira 
Pinto Bastos, pedindo-se-lhe o em- 
préstimo de algum dinheiro-, mas nada 
se conseguio: enviou o Duque de Bra- 
gança dous Officiaes a bordo da Es- 
quadra para tirarem o com mando a 
Sertorius, e prende-lo como cabeça de 
motim ; ao que elle respondeu im- 
mediatamente mandando metíer os 
dous Officiaes no porão e fazendo-se 
ao largo : neste conflicto começaváo 



I3fe O ESTUDANTE 

a desalentei r-se consideravelmente os 
nossos , quando o Barão de Quin- 
tella promptificou a somma pedi- 
da ,- com que foi pago o Mestre Ar- 
rais . . . tomando Napier o comman- 
do. Ao mesmo tempo nos chegaram 
reforços de braços, e munições : con- 
vocoii-se um Conselho para se esta- 
belecer o futuro plano de guerra ; 
Solignac apresentou suas idéas , a 
maioria se lhes oppoz , e o General 
pediu demissão, que lhe foi concedi- 
da. No entanto Mendizabal nos for- 
neceu fundos avultados: uma Esqua- 
dra se fez á vela para o Algarve : o 
animo dosConstitucionaes se exaltou, 
crescendo esperanças aos miguelistas 
por se diminuir a guarnição do Por- 
to- encontraram-se as duas Esquadras 
no Cabo de S. Vicente , tendo a dos 
inimigos duas náos , duas fragatas, 
três curvetas , dous brigues , e um 
chaveco emquanto que a nossa conta- 
va apenas três fragatas, uma curveta, 
um brigue , uma escuna, e dous va- 
pores , que de Lagos se lhe vieram 
unir na mesma tarde , e que de nada 
serviram , por não quererem entrar 



DE COIMBRA. 137 

em acção, se se não dessem duas Li- 
bras a cada homem de tripulação . . . 
Escusado hedizer-se a pátria, a que 
pertenciam similhantes piratas . . . 

O plano de ataque do valente 
Capitão Napier foi a abordagem*, no 
dia cinco de Julho de mil oito centos 
e trinta e três , pelas duas horas da 
tarde se rompeu um vivo fogo de par- 
te aparte: a abordagem eífectuou-se, 
sendo as primeiras embarcações mi- 
guelistas , que se renderam , a Náo 
Rainha , e a Fragata Princeza Real. 

No entanto se es força vão os mi-^ 
guelistas por entrar no Porto , sem 
que seus esforços lhes trouxessem mais 
do que perdas consideráveis : duran- 
te estas acções gloriosas para nós ; 
mas tristes para mim , e Rodolfo pe- 
la morte do fiel António, que pere- 
ceu n'uma delias , se passaram para 
o nosso campo vários Soldados inimi- 
gos : entre elles se achava um man- 
cebo decidido, que indicava ter bas- 
tante instrucção, e idéas mui libe- 
raes, a ponto, que sahíra de Lisboa 



138 o ESTUDANTE 

firmemente resolvido apassar-se para 
o Porto na primeira cccasiáo, que ti- 
vesse : como Soldado raso , pouco 
havia despertado ao principio a con- 
sideração de seus Oíliciaes; mas bas- 
taram só dias , para que desse mos- 
tras por si, e por alguns amigos, cora 
quem se encontrou , de ser pessoa di- 
gna de atenção; sua physionomia 
não me era desconhecida; mas não 
me recordava , em que logar a tinha 
visto, por me haver poucas vezes en- 
contrado alli com elle, e essas mes- 
mas de relance : levou-me a curiosi- 
dade a perguntar-lhe , se tinha algu- 
ma idéa de mim : respondeu-me que 
lhe parecia conhecer-me ; mas que 
não se podia lembrar de quem eu era: 
disse-lhe o meu nome, e bem depres- 
sa nos lançámos ncs braços um do 
outro, como antigos condiscipulos de 
Latim na Aula Regia. Offereci-lhe 
meu préstimo , e o de Rodolfo ; por- 
que ambos nós tinhamos bastante va- 
limento, eu como Empregado juncto 
do Secretario particular de D. Pedro, 
e Rodolfo como OíEcial Superior de 
grandes créditos . . . 



DE COIMBRA. 139 

Contou-me a sua vida , e relatou- 
me os motivos porque viera ao Por- 
to, diz endo-me: que pela morte de seu 
Pai fora confiado aos cuidados de um 
Tio Padre, que o obrigara a ordenar- 
se , desejoso de ter um substituto pa- 
ra o ajudar em seus trabalhos de Pre- 
gador , Confessor, Examinador , Au- 
ditor , Censor , Procurador , Inquisi- 
dor , e Director do Convento das Re- 
colhidas de C * « * O homem já accu- 
mulava entâo'^ que faria se elle vivesse 
agora "í ! I Interrompi-o perguntando- 
Ihe , se no dito Convento não teria 
visto a Senhora D. Matilde : respon- 
deu-me que a conhecera; mas éra 
morta , noticia com que fiquei passa- 
do : continuou dizendo que sua mor- 
te fora mui sensivel para uma menina, 
que se dizia sua Sobrinha ; e uma 
mulher de meia idade , que se tinha 
com ella recolhido ao Convento pou- 
cos mezes antes do falecimento . . . 
A estas inesperadas palavras tão do- 
ces para mim corri como um raio , a 
casa de Rodolfo — Alviçarasl Alviça- 
ras\ — lhe bradei eu — Vive Maria^ 
está em Lisboa ... — Calcule quem for 



140 O ESTUDANTE 

pai , todo o valor desta noticia .... 
D. Pedro precisava de Emissários fieis 
para enviará Capital, poucos seatre- 
vião a encarregar-se de tào arriscada 
empresa, ambos nós nos offerecemos, 
tardava ao Pai o instante de abraçar 
sua Filha , tardava-me a mim o mo- 
mento de abraçar quem tanto amava. 

Partimos sem hesitar . . . Quan- 
to pode o amor! Quanto pôde a ami- 
zade ! . . Quanto pode o Patriotismo 
nos corações bem formados ] .' i 



DE COIMBRA. 14.1 



IVM%MW»VMIVIWV«»«MW»«Vk%M«M«MmiV«W«V»««%V%%«MV««V«l« !«»««• 



CAPITULO XXVII. 



MiilS UMA DESGRAÇA. 

A bordo de uma embarcação bgei- 
ra munidos das inslrucções necessá- 
rias , e resolvidos aaffrontar todos os 
perigos, nos vieram deitar nas praias 
visinhas deCascaes, e logo se fizeram 
ao largo , deixando-nos entregues ás 
venturas , ou desgraças , que o Des- 
tino nos reservasse. Era nos princi- 
pies de Julho ; a noite clara pela se- 
renidade da Lua , fagueira pela bon- 
dade da Estação , convidava os mor- 
taes a saírem de suas casas para res- 
pirar o brando hálito dos zephyros 
innocentes : para muitos se tornavam 
deliciosas as bellezas d'aquella noite; 
menos para nós , que a houvéramos 
desejado medonha, e tenebrosa, e que 



142 O ESTUDANTE 

nos dirigiamcs apressadamente para 
Lisboa, parando, acaulelando-nos, 
e estremecendo na presença do mais 
leve som, e encaminhando-nos ácasa 
em que devíamos aquartelar-nos. 

No estado da Capital , era toda 
a caulela pouca para evitar os tra- 
ctos infernaes da canalha desenfrea- 
da, que á sombra de um Governo, 
que no terror somente podia susten- 
tar-se , praticava horrores incalculá- 
veis. Ninguém ousava sahir depois 
do toque do recolher pelo risco de ser 
preso , e espancado pelas patrulhas, 
ou por magotes de assassinos arma- 
dos de cacetes , e por isso chamados 
caceteiros ; os espiões eram sem con- 
to ; os Frades em seus Sermões não 
iíessavam de exaltar o populacho in- 
sano contra o Duque de Bragança, 
e contra os que elles chamavam re- 
dreiros Livres , buscando desacredi- 
ta-los por mil modos diíTerentes, dis- 
farçados nas palavras — Religião , 
Independência nacional , Utilidade 
piíblica — e muitas outras, que sem- 
pre tem sido páo para toda a obra. 



DE COIMBRA. 143 

A falta de meies era geral. Qua- 
zi todos CS dins folgava a canalha , 
vendo enforcar milhares de desgraça- 
dos ao som de alaridos, de saud s, 
e de festins, com que feslejava a 
morte das victimas : a casa de qual- 
quer Cidadão era invadida a toda a 
hora , roubada sem vergonha , insul- 
tada sem resguardo , nem considera- 
Ç(ào ás pessoas, que nella se achavam: 
nos Tribunaes , se os auíhores eram 
miguelistas, podiam ser também Jui- 
zes, e testemunhas em causa própria: 
graves impostos augmentavam a fo- 
me, e gritava-se aos Soldados, que 
D. Pedro mandava fuzilar todos , os 
que lhe caíam nas mãos. 

Os mesmos miguelistas modera- 
dos não estavam seguros na presen- 
ça de um bando de caceteiros, cujo 
capataz pedia dinheiro , e se lho não 
davam , caía sobre os infelizes com 
a quadrilha, e os massacrava, gri- 
tando — Matta ! Matta este malha- 
do — As lojas de bebidas , e mesmo 
as outras (excepto duas, ou trez 
aonde se ajuntavam façanhudos pa- 



144 o ESTUDANTE 

triotas do Rei-Chegou para insultarem 
quem passava) fechavam-se antes de 
anoitecer para não serem dilapidadas 
impunemente , ou espancados seus 
caixeiros: em fim os verdadeiros Jui- 
zes de então eram alguns cen(os de 
facinorosos assalariados, cuja lei dieta- 
vam a seu capricho, tendo sempre o 
cacete ás ordens , como executor de 
alia justiça: na presença de tão ri- 
sonho quadro é que D. Miguel pôz 
a Capital em estado de sitio. 

D'aqui se vê com que risco po- 
deríamos nós preencher a commis- 
sào de que estávamos encarregados. 
Quanto a Maria, que impaciente- 
mente desejávamos abraçar, tinha- 
mos resolvido manda-la chamar pela 
dona da casa (velha pobre , mas tão 
liberal que informava os nossos de 
quanto por cá se passava), quando, 
preenchidos nossos deveres, podesse- 
mos todos três fugir de Lisboa. 

Esperámos que anoitecesse, ves- 
íimo-nos de aguadeiros , e saímos 
juntos de casa: nossos barris estavam 



DE COIMBRA. Í4b 

clieíos de jnnumeraveis impressos, 
que deveriào ser convenientemente es- 
palhados com brevidade , para tra- 
tarmos ao depois (n'aquella mesma 
noi(e) dos meios próprios a facililai* 
a entrada da Capital ao Duque da 
Terceira. 

Teríamos andado trezentos pas- 
sos , quando Rodolfo tropeça n'um 
desses enormes pedregulhos qUe d'es->' 
de o tempo dos Affonsinos apparecem 
por toda a Cidade, perde o equilibrio 
3 por tal forma se vai aterra de traz 
para diante, que lhe salta o barril 
ias costas , e bate na cabecja de um 
frade, de pedra, aonde se destampa 
solemnemente enchendo a rua depa^ 
peis , que o vento leva por toda a par- 
te : á vista deste revez cuidámos de 
Fugir, mas debalde, porque um chu-» 
veiro de cacetadas nos accommetteu, 
2om fúria, e fez cahir, e perder os 
sentidos , que só recobramos na san* 
la. casa do Limoeiro. 

Cinco dias estivemos nos maia 
ipertados segredos: tendo conseguido 

TOMO 11. 7 



146 O ESTUDANTE 

sahir á força de dinheiro para a Saía 
livre soubemos, apezar do apuro das 
circumstancias , e da vigilância dos 
guardas, que a expedição, do Algar- 
ve , debaixo da direcção dos Duques 
da Terceira , e de Palmella , achara 
a sympathia de muitos habitantes, ao 
effectuar o desembarque, e que mar- 
chara sobre Faro aonde Molellos jun- 
tara as forças com que abandonou a 
Cidade na presença dos Liberaes , ao 
mesmo tempo que nossa Esquadra 
ancorava n'aquelle Porto com dous 
brigues , e três canhoneiras que apri- 
sionara emTavira: soubemos que meus 
nobres Patricios , tocados ainda por 
esse divino Patriotismo com que sain- 
do outr'ora de pobres barracas de pa- 
lha levantaram em Olhão o estandar- 
te da Independência Nacional e pu- 
zeram em debandada um Exercito 
Francez ^ que esses Algarvios atrevi- 
dos que n' um batel de pescaria , sul- 
cando o vasto Oceano, levaram ao 
Rio de Janeiro a noticia da retira- 
da das tropas de Junot, sem recear 
que os mares se alevantassem contra 
quem soubera por tanto tempo fazer- 



TE COIMBRA. 147 

áre respeitado delles; que esse povo 
Meridional a quem a Pátria deve a 
lembrança de muitos, e nobres feitos, 
peg^árá em armas para engroásar o 
Exercito Libertador e voar com ellô 
á victoria; e que o Padre Góes áfren^ 
te de valentes Alemtejanos se suble- 
vara em Beja , a favor da Rainha , e 
da Carta, ao mesmo tempo que nos- 
sas forças, cobertas pela Esquadra do 
Napier voavam sobre Lisboa. 

A' vista d'isto se exaltavam os 
ânimos, e cresciam as esperanças de 
sacudir o jugo infernal doTyranno, e 
de seus grosseiros edesemfreados sa- 
lellites que requintavam de maldade 
e que nos cadafalsos sacrificavam á 
fúria de sua exasperada vingança , 
centos de victimas sem defeza nem 
processo . . . Mal esperava eu pelo 
golpe que o destino me reservava . * , 

Eram três horas da tarde... Cor- 
reu-se o lúgubre ferrolho... Appa- 
receu o Carcereiro, chamou Rodolfo... 
Aquella voz soou a meus ouvidos^ co- 
mo o sino dos finados ... O desgra- 
2 * 



148 o ESTUDANTE 

^ado amigo entrava para o Orató- 
rio . . . 

Arrepiaram-se meus cabellos . . . 
Teria dado n'aquelle instante a minha 
vida para salvar a do desditoso ami- 
go : senti o azedume acerbo da tris- 
teza . . . Mal sabia eu que o Duque 
da Terceira entrava victoriosamen- 
te em Setúbal n'aquella occasiâo , e 
que Rodolfo podia ainda escapar , se 
completasse os três dias de Oratório; 
mas não o quizeram assim os mons- 
tros, abreviando a execução do in- 
feliz, 

' Encheu-se o Largo do Limoeiro 
de aguas is , de soldadesca , de popu- 
lacho insano . . . Não pude presenciar 
tão horrivel espectáculo... Quizera 
ainda uma vez despedir-me de Rodol- 
fo mas as forças me abandonaram... 
Já soava alugubre campainha dos pa- 
decentes . . . Não sei se da Cadeia 
já sahia o desditoso amigo; porque 
o terror me afastara das janellas , . . 
Minhas esperanças começavam a des- 
vanecer-se . . . 



DE COIMBRA. 149 

Do meio de um susurro medo* 
nho, similhante ao das yagas embra- 
vecidas, rebentam repentinamente pe- 
netrantes grites. . . Meu animo se 
reanima . . . Acredito que o Povo se 
revolta .. . Voo á grade , exclaman- 
do : — Salvem-no ! Salvem-^o 1 . , — 
Mas . . . Oh! Meu Deus ! Que scena 
se descortina a meus olhos ! ! ! Uma 
rapariga, pallida, desfigurada, e como 
furiosa atravessava a multidão... Te- 
riam seus lamentos, na antiga Koma, 
sublevado o Povo . . . Teria seu aban- 
dono achado em mim um protector 
atrevido, se os ferros me não agrilhoas- 
sem . . . Carieguei-os cem tanta for- 
ça que gemeram debaixo de minhas 
mãos endurecidas pela raiva .... — 
Ah monstros , gritava eu, soccorram 
essa infeliz . . . Soccorram essa infe- 
liz, lhes bradava com anciã I ! ! I ! — 
Ninguém fazia caso de mim ! ! ! Era 
ella i ! ! Era Maria! I ! .' A innocen- 
te amiga .... A ccmpanheira de 

meus serenos dias A causa 

eterna de mil recordações ... de mil 
pesares .... Ah I Era ella; mas que 
importava .... Não me via ! .' I IS ao 



150 O ESTUDAÍíTE 

ouvia meus gritos III Curava só do 
desditoso Pai.. . 

Foi-se afastando o lúgubre cor- 
tejo ... A Deus esperança . . . Per- 
di o derradeiro bem do desgraçado. . . 
Cahi desfalecido ...[*] 



-'ji ... 
-a Ri 



-1 -4^ 



[*] Um padecente foi de facto enforca* 
do em Lisboa na tarde precedente ao glo- 
rioso dia da entrada do Exercito Libertador 
na Capital, á hora em que este já se apro.. 
ximava a ponto de se ouvirem os tiros ! I í 
Era um Soldado de Caçadores . . . Teste- 
munho de cobardia! Vergonha eterna para 
oi habitantes da Capital • 



DE COIMBRA. lõl 

CAPITULO xxvm. 

CS RESTOS 9A FVNCÇÂO. 

Iflâuiías horas, segundo me disseram, 
estive sem sentidos , e quando tornei 
a mim foi no meio de vivas a D. Pe- 
dro , á Rainha , e á Ccnstituic^ao , 
cujos sons inesperados temei ao prin- 
cipio , por um sonho : nâo tardou que 
o povo armado , arrombando as pcrías 
do Limoeiro, me arrastasse do extre- 
mo abatimento, em que me achava, 
a um estado quasi de Icucura: pare- 
ce que as forcas, que me tinham aban- 
donado, acabavao de reunir-se para 
conspirar centra minha fjrqucza : 
sahi da Cadeia tão fera de mim , que 
nem ao menos reparei (^ue estava cm 
mangas de camisa, e chineles: cor- 
ri pelas ruas, lancei-me nos braços 
de todos aquelles, que peles trajes. 



152 o ESTUDANTE 

OU maneiras me pareciam companhei- 
ros : ajudei no Cáes do Sodré a ar- 
vorar, dous trapos, em forma de ban- 
deira , um azul, e outro branco; 
achei no Terreiro do Paço muito po- 
vo armado, e reunido ao Batalhão de 
Artifices Engenheiros , e ao Corpo 
da Brigada da Marinha , e vi correr 
bastante gente, no arruamento, atraz 
de varies caceteiros, e denunciantes, 
que ás mãos do furor popular expia- 
vam seus crimes. 

Passado o primeiro rompante de 
meu enthusiasmo, fui pouco apouco 
tornando a mim: lembrei-me de Ro- 
dolfo , de Maria , de Farrusco , que 
voei a buscar a casa da velha, aon- 
de estivera escondido, e de meus tra- 
jos d'entremez , de que me mudei. 
Corri ao Recolhimento de Maria , 
perguntei por ella , e soube com pe- 
zar, que desaparecera com a sua cria- 
da d'esde a occasião da morte de 
Rodolfo; recebi mais este golpe, e 
para desvanecer minha tristeza com 
os soccorros do geral contentamen- 
to j fui ao Terreiro do Paço, para as- 



DE COIMBRA. 15S 

sistír ao desembarque do Duque da 
Terceira , e saudar com meus vivas 
a esse punhado de valentes Portugue- 
zes , que perseguidos de perto por 
Molellos e mais de dez mil miguelistas, 
vieram bater completamente, na Cova 
da Piedade , a cinco jnil infantes, e 
perto de dous mil cavallos , luclando 
por este modo cada um dos nossos 
com seis inimigos , façanha digna de 
Li bera es Porluguezes , e d'aquelle 
Varáo , 

Que excede Rodovionte,, t o vâo Rogeiro^ 
B Orlando , indaque fora verdadeiro. 

Com mostras de geral contenta- 
mento foi recebido em Lisboa o va- 
lente Duque da Terceira e seu gran- 
de exercito, composto de mil e qua- 
trocentos infantes , e dezesete Lan- 
ceiros , montados em verdadeiros 
arenques defumo; que a pezar d'isso 
tiveram a habilidade de meter medo, 
e levar de codilho d'esde a Cova da 
Piedade até Cacilhas a oito Esqua- 
drões d'essa assanhada cavallaria de 
miguelistas : ninguém podia acredi- 



IÒ4 o ESTUDANTE 

tar, queaqu3lle fosse o exercito des- 
tinada a conquistar duas províncias 
do Reino, e a Capital: ninguém 
náo digo bem ; porque muita gente 
haverá, que saiba a que ponto che- 
ga o valor dos que combatem pela 
justiça, para manter seus direitos, 
e os interesses pessoaes , que lhes es- 
tão ligados. 

O Duque da Terceira foi sauda- 
do, apenas se aquartelou, por um con- 
curso extraordinário de povo ; era 
curioso estar próximo da casa do Ge- 
neral, ouvindo o que se dizia, e ven- 
do a variedade dos trajos , com que 
se apresentavam muitos dos que ti- 
nham sabido das masmorras : os pre- 
sos da Torre de S. Julião da Barra 
também vieram reunidos cumprimen- 
tar oHeróe Portuguez, e alguns d'el- 
les , qu3 abracei como antigos com- 
panheiros de prisão , me disseram , 
por que modo lhes havia sido dada 
a liberdade na Torre. 

Um OIHcial tinha levado á Tor- 
re uma circular do Duque de Cada- 



DE COIMBRA. 15^ 

vai ordenando que a artilharia fosse 
encravada, e que a guarnição se re- 
tirasse para Queluz : em quanto o 
Barào de Tondella veiu a Lisboa cer- 
tificar-se d'aquella ordem, se prepa- 
raram os grilhetas, e soldados migue- 
listas a assassinar os presos , atten- 
tado que foi prevenido principalmen- 
te por Francisco Soares da Gama Lo- 
bo, Major interino da Praça: como 
-o BaràbO nao apparecesse , e constas- 
se ao Governador, que os miguelis- 
tas tinham fugido de Lisboa , orde- 
nou logo quearetira-da se efíectuasse, 
e tão precipitadamente o fizeram que 
só a artilheria do Forte do Perdigão 
foi encravada : Gama Lobo teve or- 
dem de cuidar das bagagens ; mas el- 
le em vez de satisfazer as instruções, 
quo recebera , correu a arrombar as 
prisões , e a libertar os presos , que 
saudaram a liberdade com repetidos 
vivas, e arvoraram o pavilhão da Rai- 
nha, ao som de vinte e hum tiros.,-) 

Em quanto me contavam es ias, 
e outras cousas, se praticavam pela 
Cidade vários excessos que foram re- 



156 o ESTUDANTE 

primidos pelas authoridades. A Es- 
quadra entrou no dia f ó trazendo a 
seu bordo o Duque de Palmella como 
Governador Civil. Mais de três mil 
combatentes voluntariamente se reu- 
niram aos diíferentes corpos de linha, 
e animaram os habitantes da Capital, 
que mui receosos estavam do Duque 
de Cadaval e das forcas Misfuelistas 
reunidas em Sfranie numero no Cam- 
po Grande , e suas immeiiaçoes. 

No diaS8, as três horas , e meia 
da tarde, foi recebido com as maiores 
mostras de contentamsnto o im mor- 
tal D. Pedro, que a pedido da Mu- 
nicipalidade andou a cavallo por al- 
gumas ruas da Capital, entre vivas, 
e acclamaçòes: poucos dias depois se 
aboliram vários impostos^ revogaram- 
se as Sentenças injustas; restituiram- 
se os bens confiscados; expulsaram-se 
os Jesuitas , e o Núncio Pontifical, 
como reconhecido conspirador ; abo- 
liu-se o Tribunal de Legacia , corta- 
ram-se as communicações com a Gu- 
ria de Roma; e Formaram-se como 
por encanto linhas de defeza em tor- 



DE COIMBRAr 107 

no d;i Cidade com auxilio de muitos 
braços , dos poucos aflfeitos a traba- 
lhos grosseiros , inclusive os de algu- 
mas Senhoras , que zelosas da Glo- 
ria da Pátria , e animadas pelo exem- 
plo que D. Pedro lhes dava , desce- 
ram , de sua Jerarchia y ao sacrifício 
de cavar a terra , elevando-se por 
este modod'esde a Terra até ao Tem- 
plo de immortalidade ! ! ! 

No em tanto Bourmont, que D. 
Miguel chamara })ara General de seu 
Exercito , perdendo a esperança de 
vencer o Porto , levantou o cerco e 
veio atacar as Unhas de Lisboa , pe- 
la primeira vez a cinco de Septembro 
e pela segunda a quatorze, sendo o 
ataque tào glorioso para nós , como 
fatal para os inimigos, cuja perda con- 
siderável foi devida ao mui bem sus- 
tentado fogo da Fragata D. Pedro , 
ancorada defronte deXabregas, e prin- 
cipalmente ao valor com que os nos- 
sos caregaram os miguelistas á bayo- 
neta; á vista d'isto deixou Bourmont 
o com mando. A Rainha, e a Impera- 
triz chegaram deFrança,accompanha- 



158 O ESTUDANTE 

das jielo Maquez de Loulé, e fo- 
ram recebidas cora aquelle enthusi- 
asmo, que podia patentear um povo, 
que tanto soffrôra , e que via na Fi- 
lha do immortal D. Pedro a sua ta- 
boa de salvação. As nossas tropas 
tomaram a oílensiva ás ordens sem- 
pre dos Generaes Duque da Tercei- 
ra , e Saldanha; os miguelistas foram 
levados , a marche marche , até San- 
tarém , aonde se fortificaram ; o seu 
partido começou a caducar ; a to- 
mada de Leiria , e as acções de 
Pernes, e de Almoster foram para 
elles golpes irreparáveis. 

Uma Divisão Hespanhola , en- 
trou em Portugal com pretexto de 
perseguir D. Carlos que tinha vindo 
com um punhado de homens auxiliar 
D. Miguel , e por tal forma animou 
com sua presencia os Constitucionaes 
de muitos pontos , e entre elles os da 
Praça de Almeida, que se declara- 
ram pela Rainha. 

A terrível batalha da Aceiceira 
foi o relâmpago assombroso de nossa 



T>E COIMBRA. 159 

in lependencia, cujo raio cahio em 
Santarém; os miguelistas fugiram 
todos e cercados, e batidos, pediram 
tregoas : D. MigueJ propôz negocia* 
çÒGS,e aceitou em Evora-monte as con- 
dições que forçoso lhe era aceitar: 
assim acabaram para nós, com glo- 
ria tantas privações, luctas desiguaes 
e a guerra encarniçada , que por tan- 
to tempo sustentamos contra forças 
vinte vezes superiores ás nossas. 

Depois de vencidos completa- 
mente os miguelistas , se tomaram 
algumas medidas em beneficio publi- 
co, uma das quaes foi a extincção 
dos Conventos dos Frades , cuja ri- 
queza immensa, que poderia ter feito 
a ventura de Portugal , se tivesse si- 
do convenientemente administrada, 
ficou pertencendo á Nação , tendo si- 
do estipulado um subsidio a aquelles 
Ecclesiasticos , que não tivessem por 
modo algum conspirado contra o Go- 
verno da Rainha; n'essa occasião ti- 
veram logar no Theatro de S. Carlos 
os desagradáveis acontecimentos , 
com que se deram mostras a D. Pe- 



IGO O ESTUDANTE 

dro de geral descontentamento, pela 
sahida de D. Miguei (são , e salvo) 
para fora do Reino. 

Diz-se que aquelle tumulto se 
augmentára consideravelmente pela 
})alavra canalha , com que um gran- 
de íigurcão tratou o povo , a cuja ca- 
nalha não havia muito tempo, que 
elle pertencera , por isso que do po- 
vo saíra para se elevar á cathegoria, 
em que se achava. Outros asseveram 
que fora D. Pedro, quem a proferira , 
o que passa por falso na opinião de 
muitos hom.ens de boa f é , e de to- 
dos aquelles , que conheceram os no- 
bres sentimentos do Imperador; seja 
porem como f')r, o certo he que refle- 
ctindo na verdadeira causa , do tumul- 
to, não podemos deixar de dizer im- 
parcialmente que similhanle medida, 
ainda que louvável e cavalheiresca pa- 
ra D. Pedro como homem, lhe não era 
de modo algum permetida na qualida- 
de de Regente: D. Miguel não tinha só 
aífroníado seu Irmão; mas calcado 
aos pés os direitos, e as mais sagra- 
das instituições de uma Nação , e 



DE COIMBRA. 161 

perseguido , e sacrificado milhares 
de homens : D. Miguel era um réo 
d'alta justiça, sugeito ao império da 
Lei , e não ao ar bi trio do Soberano, 
a quem o direito de perdoar só per- 
tence depois de julgado o criminoso: 
com isto não queremos nós approvar 
quaesquer excessos populares, e mui- 
to menos aquelles que pagam com 
ingratidão os serviços de um Heróe, 
a quem a Pátria, deve a Liberda- 
de ; com isto só confessamos sin-^ 
ceramente o que pensamos, sem o me- 
nor espirito de partido , e na persua- 
são de que falíamos verdade . . . Mas 
agora reparo eu na alhada, em que me 
metti ! . . Não ha dúvida , meu Lei- 
tor , que tens muita pachorra para me 
aturar ! Se eu já estou farto de tan- 
to palavreado , que pouco , ou nada 
tem com a vida do Senhor Estudan- 
te ; o que será de ti , que muitas 
razões obrigam ao desejo de ver a 
Obra no fim ? ! . Sabe pois que o nos- 
so Académico cansado já de correr 
atraz de Maria , tratava de reunir 
seus fundos , (porque , segundo não 
ignoras, tinha muito caroço) e que^ 



162 o ESTUDANTE 

ii'aquella occasiam, cuidava de arran- 
jar votos para ser Deputado, sentin- 
do nas guelas certas cócegas de Al- 
garvio 5 e nos miolos a encasquetada 
mania de bacharelar , a pezar de 
não ser bacharel; por se persuadir 
também, que era mui capaz de aju- 
dar a fazer leis , como essas , que 
por ahi se fazem todos os dias , em 
abonno da consciência dos senhores 
legisladores , e para ventura da Na- 
ção Portugueza , por todos os séculos 
dos séculos , Ámen . . . 



rxM 90 sscraso Toiíncs. 



»MM*»W»ll»»l»M»MIW»M%llM < »%t)l»»»W»W»l»MMi% W> IIMIIMWI»l**l> 



INDEX. 



CAPITULO XVIL O limoei- 
ro pf^9» 5 

CAP. XVIII, Da extrema es- 
cravidão está bem próxima a 

liberdade 17 

CAP, XIX. A fugida 36 

CAP, XJC. O estudante em Pa- 
ris ôl 

CAP. XXL 69 

CAP.XXIL . 85 

CAP. XXIIL Uma casualida- 
de 9* 

CAP. XXIV. Muito pôde a ne- 
cessidade 105 

CAP. XXV, Vamosaelle. . . 117 
CAP, ^XVI, Os emigrados no 

Porto 128 

CAP, XXVII, Mais uma des- 

gí^aca 141 

CAP^ XXVIIL Os restos da 
funcção 151 



db 



ou 



^Sl»aM^A0Q 



BA 



DESDE 1826 ATE 1838. 

PELO 



TOMO III. 




LISBOA^ 



llrPOeRAPHIA DE ANTÓNIO JOSÉ DA ROCHAj 
AO» MARTYKES, N." 13* 

1841. 



o ESTUDANTE 



BE 



COIMBRA. 



CAPITULO XXÍX. 



MAIS DUAS PALAVRAS. 

'ra tens visío , meu Leitor, um 
Estudante estabanado , apaixonado, 
compromettido cm alta politica, e vi- 
vo ainda por milagre de Ne ssa Senho- 
ra : verás agora no totili-mundo poli- 
tico um fgurào importante, com o 
seu par de centos de réis, sem serpro- 
ducto deindemnisaçòes : um sapien- 
tissimo Deputado eleito pelo povo, 



6 O ESTUDANTE 

que tielle reconheceu , entre todas as 
virtudes próprias a quem he rico , a 
de saber proficuamente espalhar o seu 
dinheiro : um Deputado em fim , a 
quem o amor de Maria não abando- 
nara de todo, apezar dosallos proje- 
ctos, formulas, rodeios, e outros ane- 
xins parlamentares, que Iherevolvião 
o miolo , como acontece ao Orador 
imparcial, que &emp7^equer ter razão. 

Se eu minuciosamente dissesse, 
Leitor , o que se passou nas Sessões, 
a que assisti , e te recitasse os dis- 
cursos , com que me estendi ^ quer 
improvisados , quer meditados , en^ 
commendados , ou arreganhados , te- 
rias que digerir uma indigesta barri- 
gada de ópio, e ás duas por três lá 
te punhas a roncar com todas as po- 
tencias d'alma . . . Que tristeza não 
seria a minha , nas alturas em que 
me achava ; se eu ouvisse á roda de 
mim , em vez de calorificos apoiados, 
cada peda(}o de ronco, com que se me 
gelasse o sangue , e se me secasse a 
musa ! ! j Nada , nada : para prantar 
de boçca aberta , e olhos fechados 



3>E COIMBRA^ 9 

a toda casta de vivente , bem basta 
o que basta: poucas, e boas, eDeus 
adiante por causa das tentações do 
inimigo. 

Estavam abertas as Cortes , de 
quem D. Pedro recebera a regência 
do Reino durante a menoridade de sua 
Filha ; já pelas praças se andavam a 
fazer autos de fé com o papel moeda, 
terrivel antagonista da ventura nacio- 
nal ; se bem que tudo se ccnprava 
mais barato , do que se compra ago- 
ra, sem que a Nação se achasse sobre- 
carregada de uma divida considerá- 
vel , e de seus jures : já nào havia 
Frades , senão de pedra , e nem esses 
mesmos deveriam estar muito conten- 
tes ao ver os jejuns, que sehiam pre- 
parando para os de carne , e csso , 
que tinham , sido despojados arbiiia- 
riamente de sommas immensas , par- 
te das quaes lhe pertenciam, ccmo 
património próprio... Assim começa- 
va nosso progresso ! ! ] 

A morte de um Heróe Portuguez 
corria para cobrir de luclo Portugal 



8 o ESTUDANTE 

inteiro. D. Pedro de Alcântara nas- 
cido a doze de Outubro de 1798 cheio 
de nobres sentimentos , digno chefe 
de um punhado de Portuguezes deci- 
didos , com qfuem restituirá á Pátria 
innumeraveis victimas perdidas , e a 
ventura a muitas familias desgraça- 
das: D. Pedro, grande por suas acções, 
nobre por seu nascimento , Impera- 
dor , e Rei, foi victima da morte ! . . 
A sua perda encheu de consternação 
a seus próprios, inimigos ! Só elle ti- 
nha até alli conservado as cousas nos 
seus razoáveis limites. Portugal acha- 
va-se nas circunstancias talvez devir 
a ser, a pezar de sua limitada gran- 
deza , um dos Reinos mais felizes de 
toda a Europa : com grandes rique- 
zas, cora o povo enthusiasmado ; com 
a lição, que muitos hojnens tinham 
lirado do Mundo, e do que viram nas 
outras Nações , com o desejo de as- 
sociação , que se mostrava por toda 
a parte , havia mais do que os. suffi- 
cientes meios de conseguir grandes 
cousas, se pagassem os empréstimos, 
e se se animasse o commercio , e a in- 
dustria nacional, era vez de au^mentaj 



BE COIMBRA. 



cegamente a lista dos empregos públi- 
cos com todo o cortejo de ordenados, 
gratificações, indemnisações , e dota- 
ções que foram pelos ares como uma 
rolha de vinho de champagne\ se se não 
reformassem empregados aos centos, 
com parte do soldo, para empregar afi- 
lhados aos milhares com ordenado por 
inteiro; se se nào sobrecarregasse a 
Naçíio de despezas exorbitantes, des- 
tinadas ao honroso tracto de pessoas 
Tcspeitaveis ; mas que, na presença 
dos recursos públicos-, e das forças 
do paiz se deveriam contentar com 
muito menos ; se finalmente á vista 
de um deficit annual de quatro mil 
quatro centos e cincoenUi e Ires con- 
tos seis centos e trinta e dous mil do- 
zentos e oito réis se cuidasse , não só 
de equilibrar a tlespeza com a recei- 
ta por todos os-meios; mas se se man- 
dasse para as palhas do Hospital Real 
de S. José , quem se lembrasse de so- 
licitar a mais pequena cousa, com que 
a despeza se augmentasse sem algum 
proveito publico-, tudo isto em vez 
de contrahir empréstimos, sobre em- 
j^resíimos, que segundo sabe mesmo 



10 o ESTITDANTE 

quem náo he profundo financeiro , ou 
historiador , acarretáo crizes mais 
ou menos remotas e terriveis para as 
Nações , tanto mais desgraçadas , 
quanto são mais pequenas , e priva- 
das por isso desubir da miséria á opu- 
lência pelo recurso das armas , como 
lia poucos annos nos mostrou a Fran- 
ca , e como nos mostra a historia de 
todos os tempos , aonde se vê os gran- 
des Reinos devorando sempre os pe- 
quenos ou para manter o orgulho de 
sua demasiada opulência , ou para 
neutralisar os flagellos de sua des- 
graça. 

D. Pedro falleceu , e por tal mo- 
do , que d'elle se esquecerão os Por- 
tuguezes , e os seus próprios amigos!.. 
Mui abundantes tem sido as despezas 
inteiramente inúteis , que se tem fei- 
to: accusaria alguém por ventura que 
uma parte d'ellas se empregasse n'um 
monumento alevantado em memoria 
do Duque de Bragança ? . . Ah ! Me 
direis vós , a sua memoria está em 
710SS0S corações ; se assim he , porque 
vos esquecestes de completar digna- 



DE COIMBRA. 11 

mente a obra honrosamente começa- 
da no meio de tantas fadigas , priva- 
ções, e calamidades? Tornai-vos acre- 
dores das bênçãos do povo , como elle 
se tornou merecedor de vossos cuida- 
dos . . , Do povo I Ora quem faz lá 
caso disso ! ? Que importa que o povo 
esteja feliz , ou desgraçado , conten- 
te ou descontente?.. Nào pagará elle 
quantos impostos se lhe quizerem lan- 
çar! ? Nào exporá seu peito ás balas, 
se a Nação precisar de soldados!? Bem 
aviados estariam os Governantes, se 
tivessem que dar satisfações a genti- 
nha. O homem d' Estado só deve viver 
a bem com altas personagens, e satis- 
fazer os caprichos d'ellas para não in- 
correr em seu desagrado e para se não 
ver reduzido a ceder seus direitos , 
e elevada posição n'um competidor 
mais condescendente. 

A nossa fraqueza foi em todos 
os tempos , e é em tod^as as condi- 
ções a causa primordial de muitos 
males ; essa fraqueza , é mais terrí- 
vel , se ataca os homens públicos ; 
porque os leva de si para seus superio- 



12 o ESTUDANTE 

res a condescendências falaes ; de si 
para seus inferiores a actos illegaes, 
e abusivos \ e de si para suas acções 
a actos escandalosos , a vergonhosas 
nódoas , que nem o orgulho da aris- 
tocracia , nem as rédeas do poder 
são capazes de apagar no conceito 
dos homens honrados, nem no decur- 
so dos séculos 

Qualquer que seja a boa fé, com 
que o Governante ííivorece alguém , 
sempre esse beneficio se tornará escan- 
daloso , e anii-constitucional , quan- 
do possão apparecer queixosos com 
iguaes direitos aos dos beneficiados; 
ou quando dos benefícios se náo co- 
lher o maior numero de vantagens 
reaes , e palpáveis. O Governo foi au- 
ctorisado acontractar ura empréstimo 
de seis centos contos para soccorrer os 
lavradores , que mais tinhão soffrido: 
eis uma deliberação louvável , um 
acto de beneficência útil , uma medi- 
da destinada a favorecer a agricul l ura, 
e a reparar os estragos , que alguns 
homens proveitosos tinham soffrido em 
suas propriedades: foi com espirito de 



DE COIMBRA, i3 

^'ndemnisar certo numero <3e proprie- 
tários , que o Governo desembolsou 
milhões; nesse caso porque náo man- 
dou reedificar os edifícios demolidos, 
e arruinados em torno das Cidades de 
Lisboa , e Porto ? Porque nào deu a 
seus donos o valor de tantas mil pi- 
pas de vinhos queimadas nos arma- 
zéns de Villa Nova , e perdidas nas 
aguas do Douro ? Porque não resti- 
tuiu os bens destruidos por todo o Rei- 
no ? Porque nào coJlocou n'uma posi- 
ção independente, e ao abrigo da fo- 
me os militares mutilados na guerra, 
os orfàos , e as viuvas de tantos des- 
graçados, que morreram nos cadafal- 
sos, nas masmorras, e ás garras da mi- 
zeria ? i . Nâo havia meios . . . E então 
porque se desembolsaram seis centos 
contos de reis para auxiliar um pu- 
nhado de homens de uma só classe, 
quando centos , e centos se achavào 
com iguaes direitos a reclamar soc- 
corros .... Se o Thesouro podia com 
tão enorme desembolso , porque se 
não construiram estradas? Com ellas 
se auxiliaria o lavrador, o commer- 
ciante, o emprehendedor , o rico, o 



lé o ESTUDANTE 

pobre, a Nação inteira, e até mui- 
íos d'aquelles , que por falta deoccu- 
pacào , ou de vontade se quizesse di- 
vertir, examinando as curiosidades do 
paiz .... 

Se os actos mais justos dos Go- 
vernos encontrão sempre censores; 
como se livrarão d'elles os Governan- 
tes , que cercados de opiniões diver- 
sas , de principies , e interesses op- 
postos se náo conduzirem pelo verda- 
deiro caminho , com que pôde conse- 
guir-se a ventura , e independência 
nacional ? ! 

As núpcias, que acabava de cele- 
brar Sua Magestade cem o Principe 
D. Augusto deram boas esperanças de 
melhoramento: parecia quen'aquelle 
Principe se descubriam conhecimen- 
tos , capacidade , e virtudes iguaes 
ás de sua Irmã a Duqueza de Bragan- 
ça ; mas depressa a negra mão da mor- 
te destruio a passageira idéa de ven- 
tura .... Graves e , conscienciosa- 
mente o creio, injustas desconfianças 
populares se alevantaram arrastando 



DE COIMBRA. 15 

muitos indivíduos a scenas tumultuo- 
sas , que só finalisaram pela mudan- 
ça de Ministério. Bem depresa se 
tractou de buscar um novo Esposo 
para S. Magestade , cujas segundas 
núpcias se celebraram no dia nove 
de Abril de 1836 com o Principe D. 
Fernando. 

No entanto se desfez o Tracta- 
do de mil oito centos e dez, e se 
contractou com os Hespanhóes a li- 
vre navegação do Douro ; votando- 
se também pela intervenção de Portu- 
gal na Causa da Hespanha , a rogos 
de Mendizabal, que foram ouvidos pa- 
ra remunerar, provavelmente a gracio- 
sa delicadeza , ou firme protesto , 
que elle tinha feito de nos ficar de- 
vendo oitocentos contos de reis, con- 
fiado (talvez) na demasiada condes- 
cendência de quem poderia , e deve- 
ria obriga-lo apagar! Como he crivei 
que um Governo , que propõe eco- 
nomias , que se mostra atterrado pe- 
las extraordinárias despezas^ que sa- 
he apenas de uma lucta encarniçada, 
e desigual , em que perdera innume- 



16 H3 ESTUD\NTE 

raveis braços, e recursos, e sepulta- 
ra incalculáveis sommas; que um Go- 
verno , que se vira nos lances mais 
apertados , exposto a todos os flagel- 
ios da guerra ^ que um governo em 
íim encarregado de remediar tantos 
estragos, por ella produzidos; se fos- 
se agora desviar de seus mais espe- 
ciaes cuidados, para se envolver 
íi'uma lucta ^pstranha , e tomar par- 
íe nas dissençòes intestinas de uma 
Nacao, que nem ao menos se torna- 
va acredora de nosso reconhecimento 
pelas tropas, que enviara a Portugal, 
a bem unicamente seu , e para per- 
seguir D. Carlos ! ? , 

Estes, e muitos outros motivos, 
sendo o principal a escacez que já 
se sentia das libras esterlinas, que 
tinháo vindo de Londres, por em prés- 
timo, e regressado muito á pressa 
para o seu paiz; desgostavam portal 
modo a maioria da Naçáo, e do Exer- 
cito atrazado em seus pagamentos, 
que uma forte opposição conseguiu 
levar ao poder alguns dos seus , os 
quaes , tomando por verdadeira cau- 



DE COIMBRA. 17 

sa dos males, que se experimentavam, 
a escacez dos recursos , deram um 
corte nas consideráveis despezas , re- 
duzindo os ordenados, e abolindo em- 
pregos : assim se buscou , mas já tar- 
de, paralizar os rápidos progressos da 
nossa desgraça ou civilisação 5 como 
bem lhe quizerem chamar ; apezar 
das satisfactorias apparencias , com 
que umaCommissão de Fazenda per- 
tendia mostrar ás Cortes , que era re- 
lativamente ás finanças ! . . exagera- 
da a triste pintura , que se fazia. 

Não podia certamente conservar 
por muito tempo as rédeas do governo, 
quem atacava os interesse pessoaes de 
tantos homens, ainda que fosse esse 
um dos meios mais judiciosos de con- 
seguir o bem geral; por isso se formou 
nova Administração: muitos Officiaes 
queixosos representaram a sua Mages- 
tade o estado de atraso , em que se 
achava o Exercito; vários homens de 
differentos cores subiram alternativa- 
mente á governança , o descontenta- 
mento era geral; o espirito de intri- 
ga dos difíerentes partidos contrami^ 



18 O ESTUDANTE 

nava os ânimos; preparava-se uma cri- 
ze politica , d'aquellas que sempre 
apparecem em similhantes casos , e 
tào madura estava ella, que achega- 
da de alguns Deputados do Porto (dos 
da opposiçâo) se deribou a Carta de 
vinte e seis , proclamando-se a Cons- 
tituição de vinte , sem a minima re- 
sistência: nenhum homem imparcial, 
e sensato approvou esta mudança , 
porque rompia a intimidade de nos- 
sas relações exteriores , prolongava 
nossos males em vez de os remediar, 
e encarniçava dous partidos que ti- 
nham , soffrido as mesmas privações, 
e derramado o sangue pela mesma 
Causa ! ! . . 

O que são os homens ! . . . 



t)E COIMBRA. 19 



«M/MIMlM.VV\/MAVVt«i\ltlV\«««MIMWM«MWV«'MIUVMAVM«t«V\»V\A\\«VtVM 



CAPITULO XXX. 



CONTINUAÇÃO. 

'e que serviram todos os sacrifícios, 
que durante tantos annos se fizeram, 
se o Reino devia ficar arruinado; se os 
homens influentes, dos differentes par- 
tidos, tratavam de agitar as massas 
para contentar inimizades, e preencher 
fins sem utilidade publica ; se o esta- 
do das finanças, da legislação, da jus- 
tiça , da policia , e principalmente a 
arrecadação de certos impostos, se não 
devia efl^ectuar porque uns se confia- 
vam na indulgência das auctoridades, 
e outros não achavam auctoridades 
destinadas a recebe-los? ? . . Se guer- 
rilhas miguelistas , bandos de saltea- 
dores , criminosos de toda a espécie 
deviam assolar povoações inteiras sem 



SO o ESTUDANTE 

que houvesse força capaz de reprimir 
taes attentados ? I São estes pois os 
fructos de tanto sangue derramado, 
de tantos annos de guerra Civil e de 
soffrimento ? ! . 

Ah possam convencer-se os que 
absorvem a maior parte desses escas- 
sos meios , que nos restao; que é for- 
çoso que se reduzam ao necessário, 
e limitem suas despezas , que affas- 
tem de suas mezas preparadas igua- 
rias , e delicadas bebidas inúteis , ou 
talvez prejudiciaes ávida, que fe- 
chem as portas de seus salões , a um 
bando de paramentados aduladores , 
prenhes de acatamento com que illu- 
dem , ou aíraiçoam , quem honrosa- 
mente os recebe, e obsequeia, que se 
vistam com productos de nossa indus- 
tria , ainda que mais toscos, e gros- 
seiros lhes pareçam do que os primei- 
ros inveníadcs, elles se aperfeiçoaram 
se acharem protectores ; que tomem 
a seu serviço d'esses malfadados Por- 
tuguezes , que tendo exposto seu pei- 
to ás balas e derramaram seu cangue 
para libertar a Pátria dos horrores da 



DE COIMBRA. SI 

Usurpação , se acham agora mirrados 
pela fome , reduzidos a pedir pelas 
ruas sem que d'elles faça caso quem 
poderia, e deveria faze-lo! Possàocon- 
vencer-se , os que absorvem a maior 
parte dos escaços meios, que nos res- 
tâo; que forçoso he cortar immediata- 
mente pela raiz a arvore venenosa da 
escravidão . . . Da escravidão ? ! Que 
digo eu ? Do jugo mais severo ! . . . 
Do declarado jugo estrangeiro , que 
de perto nos aguarda, qual avarento 
que á força de usuras lisongeia as pro- 
digalidades do gastador para pouco 
depois se assenhoriar de seu patrimó- 
nio sugeita-lo a seus caprichos e re- 
duzi-lo a servir de rastos sua ambi- 
ção. . . Possam convencer-se . . . Mas 
para que me canço eu ? . . Isto é pre- 
gar a hereges . . . Vamos adiante. 

Intentou fazer-se em Belém uma 
contra-revolução a favor da Carta de 
vinte e seis , com o auxilio de quatro 
centas bayonetas de differentes Cor- 
pos , e vários empregados públicos : 
a Guarda Nacional correu ás armas 
para defeza da Constituição de vinte e 



22 O ESTUDANTE 

dois, que Sua Mascestade jurara^ e 
occupoii Campo d'Ourique , e outros 
pontos da Capital : nesse dia foi mor- 
to ao pé das Necessidades , oEx-Mi- 
nistro Agostinho José Freire: esta 
morte pouco honrosa, para quem a 
perpetrou , foi geralmente attribuida 
a um façanhudo miguelista , e em 
grande parte ao atrevimento, com 
que S. Ex.^ se expoz , e respondeu 
ao que lhe diziam homens na maior 
parte , queixosos , e descontentes. 

As desavenças que até alli só 
eram de familia não tardaram a tor- 
nar-se serias : alguns centos de sol- 
dados inglezes , com duas peças de 
artilheria , se atreveram a pisar 
o território portuguez ! Se vinham 
para defender a Rainha , Sua Ma-^ 
gestade não precisava de seu auxilio, 
porque tem a mais inabalável defe- 
za no amor dos Portuguezes. Quem 
affrontou chuveiros de pelouros, quem 
soube vencer milhares de miguelitasl 
enraivecidos, para lhe restituir oThro- 
no dos Seus Antepassados , não bas- 
taria por ventura para abrig^-lgi Gui-^ 



DE COIMBRA. â3 

dadosamente de qualquer afronfa? ! . 
Não derramariam todos, por El la, 
até a ultima ^ota de seu sangue?!! Es- 
ses mesmos Batalhões armados , que 
tão acaloradamente sustentavam a 
Constituição de vinte e dous,não corre- 
riam com furor contra quem ousasse 
atacar qualquer dos Augustos Direitos 
de S. Magestade , em gloria de quem 
tão nobres feitos tinhão praticado ? ! ! 
Outras razões mui distantes dos Inte- 
resses , e Segurança Real trouxerão 
os Inglezes ás praias da Junqueira. 
Intrigas de gabinete ! . . . Manobras 
de alguns individuos para se conser- 
var em suas elevadas posicjões contra 
o voto quasi geral da Nação J . . E 
que tristes consequências não pode- 
ria ter resultado dessa pertinácia , 
com que os homens sacrificão muitas 
vezes o seu paiz ? Se os inglezes ti- 
vessem disparado um tiro , nem um 
só levaria á Inglaterra a noticia de 
seu desastre : Portugal tachado de 
insultador , supportaria todo o aze- 
dume vingativo do resentimento in- 
glez ; e tristes serião as scenas qual- 
quer que fosse o papel dos Portugue- 



S4 o ESTUDANTE 

zes : quiz a ventura que esses falsos 
amigos se retirassem logo; graças (se- 
gundo se disse) ao Protesto do Almi- 
rante Francez [*] 

Longa , e desagradável seria a 
narração de todos os factos , que a 
este se seguiram até ao Juramento 
da Carta Constitucional de trinta e 
oito , que nas Cortes Extraordinárias 
se discutia : quem tiver desejos de 
saber o que por então succedeu em 
Portugal, veja asscenas da revolução 
franceza porque achara alguma ana- 
logia entre ellas e as nossas. 

A nossa Camará estava dividi- 
da em differentes partidos , e cada 
um d'elles sustentado por assoccie- 
ções mais , ou menos occultas , e po- 

f*]] Não sei se existiu ou não tal prO" 
testo, ou cousa que o valha; mas o que 
posso asseverar fielmente , como pessoa que 
nâo tomou parte por nenhum dos partidos 
hei que tudo quanto se viu levava a pen- 
sar que alguma cousa houve, da parte das 
forças francezas , capaz de paralizar o mo- 
vimento dos Inglezes. : wp 'li/.'. ' 



\ 



I)E COIMBRA. f 5 

derosos. As determinações do Gover- 
no nào tinham vigor em presença des- 
ses ajuntamenlos subversivos. O sys- 
ttma das idéas ultra-liberaee era o 
mais forte: não havia guiUiatinas '^ 
mas não faltavâo demissões , prisões,- 
e degredos , com que alguns homens 
saciassem suas vinganças : se as mor- 
tes não fòrão muitas na Capital • não 
correu pouco sangue no resto do Rei- 
no, e mais correria ainda, se o Povo 
Portuguez fosse menos pacifico, e 
tolerante , ou se a Providencia não 
olhasse com piedade para homens , 
que se bátião, como inimigos , quan- 
do havia pouco se tinham juntamen- 
te exposto com denodo á metralha do 
Usurpador \ ? 

Nenhuma novidade terás achado, 
meu Leitor, neste meu arrastado; 
porque não he possível acha-la em fa- 
ctos por nós presenciados, e commen- 
tados largamente ; mas se quando in- 
differentes pés calcarem o pó de meus 
ossos , houver alguém que ande era 
busca da verdade ; possa ao menos 
esse indagador curioso , abrindo este 

TOMO 111. % 



fQ O ESTUDANTE 

livro , conversar comigo. Ah ! Possa 
elle, nestas folhas carcomidas pela tra- 
^a, e pelos annos, encarar amarga-: 
mente o esboço do triste quadro , que 
vamos presenciando ; possa elle cho- 
rar nossas desgraças, estremecer pe- 
lo passado , e de melhor mente cal- 
cular o futuro , para sacrificar seus 
interesses de homem a seus deveres 
de governante , e horrorisar-se com 
o exemplo de alguns figurões de nos- 
sos dias , inimigos do bem da Pátria; 
possa em fim , reflectindo no despre- 
go, com que esses filhos pródigos, e 
ingratos serão tratados pelas gera- 
ções vindouras , preferir uma memo- 
ria honrosa ás riquezas de Pluto , e 
trocar pelos passageiros bens da vida 
a gloria de muitos séculos. 



DE COIMBRA. ^7 



àOLl 1I»j:'>-'..í (1 úPt 



CAPITULO XXXI. 



AGOIVA GOVERNO £U. 

SM-G preciso , que o Senhor Leiíor. 
saiba hoje com quem se metíe ! Se, 
já se foi o tempo de ouro , em que 
o valimento dos Fidalgos se esmalta* 
va com bellos penteados feitos por 
ímdames, e os homens traziào espa-» 
dins , e as senhoras canastras á cin- 
ta , nem por isso deixa de ser pessoa^ 
mui res|>eitavel, em nossos dias, um 
Ministro de Estado , a pezar da mon 
gna concomitante caterva delles com 
que a época nos pbsequeia. 

Quizera eu, a quem o acaso ha- 
via alevantado ao ponto de me encai-* 
xar nas unhas as rédeas dagovernan-, 
<^a , quizera digo, que o tempo me 

o *. 



28 O ESTUDANTE 

não faltasse para descrever , o que 
se passou nos primeiros dias de mi- 
nhas alturas ; mas creio que em dif- 
ficultoso , e tão atrapalhado enleio me 
envolvera com essa tarefa , que a 
perder de vista ficariam as atrapalha- 
ções das Repartições , e das cabeças 
dos figurões meus Empregados, afilha- 
dos , e subordinados, esfomeados por 
si , por seus filhos , e mais creaturas 
domesticas a seu cargo ; que feito 
seria d'elles sem o tabaco superfino 
do Real Contracto , escapado por mi- 
lagre das queimadas da outra banda!? 
Sem essa planta preciosa , com que 
matavam negros pezares, e perfuma- 
vam os corredores de suas oíficinas?!.. 
Assim me elevei á gloria entre densas 
nuvens de fumo de tabaco , que logo 
tratei de afugentar , para que a tra- 
vez de taes nevoeiros se não encu- 
brissem faltas reprehensiveis... O que 
he a gente não fumar I 

A' medida , que fui entrando 
pelos negócios , que ou eram Gre- 
gos , ou pouco lhe faltava , curei de 
remediar o maior número de males 



DE COIMBRA. 29 



possível . . . Não tinha pouco que fa- 
zer! 

Atirei-me ás finanças, como ga- 
to a bofes ; encarreguei as Authori- 
dades Judiciarias do recebimento de 
alguns impostos , como se praticava 
no tempo da ignorância^ formei con- 
tratos de arrematação a respeito de 
outros; cortei largamente nos enormes 
desembolsos, com que o Governo sus- 
tentava o luxo de classes , e pessoas, 
que podem viver honrosamente com 
menos de metade ; abcli as enormes 
gratificações, que muitcs emprega- 
dos percebem além de avultados sol- 
dos ; desacumulei empregos , creados 
na maior parte faia favorecer pes- 
schs; augmentei ccnsideravelmenleos 
direitos ás fazendas estranhas para 
animar o fabrico, e ccnsuii.o das nes- 
sas ; dei privilegies deinvtnçâo a to- 
das os individues que me aprcsenlaram 
prcductcs novos, ou pela primeira vez 
fabricados no Reino ; alliviei as clas- 
ses pobres , e as industriaes de gra- 
ves contribuições , para ir lança-las 
com maior proveito sobre o luxo inu- 



30 o ESTUDANTE 

-til , e as fãnfarronicas superfluidades 
da orgulhosa riqueza. [*] 

Não faltou quem ralhasse contra 
mim y a pezar das bênçãos do Povo; 
soube mesmo que muitos desconten- 
tes se esforçavam por derribar-me; 
mas como eu era muito rico, pude 
afogar a intriga no meu dinheiro , ê 
progredir no caminho, que me leva^ 
va ao bem da Pátria. Daqui se vê, 

[*]] He incrível a facilidade, com qUè o 
nosso paiz poderia enriquecer-sé, apresentan» 
do productos dosque são importados; não s6 
para o consumo; mas até para a exportação. 
;Não cumprp aquioccupar-me dessa ruateria: 
direi só duas palavras sobre um único objfr- 
clo, que me parece- curioso. A batata doce, 
de que tanto abundam nossas Ilhas, e' què 
tão bem se daria no Coniínente, tendo sido 
por mim analisada, forneceu: - 

25 porcento, de açúcar perfeitamente crisp 
talisado, e melhor que o da cana. 

30 por cento de alcohol de vinte e dous gráos. 

45 de resíduo, de que uma grande parte 
seria excellente pasto para gado, e a outra 
óptimo combustível. 

- Istohe a batata doce, de que ninguém faz: 
•caso, como de muitas outras cousas.!. 



DE COIMBRA. 31 

que o Governante deve ser abastado, 
independente, e capaz por sua tranque^ 
za de sacrificar o seu ouro ao bem do 
seu paiz, se as circumstancias o exi" 
gireni^ de outra sorte será o Ministro 
d '.Estado negociante . . . , a Nação o 
género vendido . . . , e o Povo não te- 
rá outro remédio senão carregar com 
tudo isto a páo , e corda ... 

Se alguma cousa havia menstruo* 
sa, era aleiy que dava a três milbôe» 
de habitantes três Escclas de Medi- 
cina . e Cirurgia ; e um chuveiro de 
muitas outras , a qual delJas m.enos 
proveitosa, a não ser a utilidade de 
empregar hcmcns cem grandes orde- 
nados ^ mas ccmo não succedcria as- 
sim quando entravamos no Século 
das luzes, e saíamcs das graciosas 
brincadeiras, com que ncs hcnrava 
a càltro-moLxisl Antes uma epide- 
mia de ]Vl€dic(s, eCiíurgiôes, que os 
horrores daquella tnfeimidade! Dieu 
nous en jDré&erve í 1 1 

Na inslrucção relativa aos Liceus 
achei cousas mais espantosas do qu« 



3S o ESTUDANTE 

O gigante Poli phemo! Não me quiz 
entrar nos miolos, que um rapaz até 
aos seus dezesete, ou vinte annos pos- 
sa ficar sabendo lêr, escrever, e contar, 
Doutrina Christà, Lingoa Portugue- 
za; Franceza, Ingleza, Italiana, Ale- 
mã, e Grega , Geographia , Chrono- 
logia , Historia , Rhetorica , Lógica, 
Metaphysica, E'tica, Economia-Poli^ 
tica, Arithmetica, Álgebra, Geome- 
tria, Trigonometria, Desenho, e La- 
tim . . . Latim. . . Não posso ainda ho-- 
je proferir este nome sem que se me 
arripiem os cabellos I [*] 



[*] Não sei para que serve hoje, o La- 
tim aos que se dedicam ás Sciençias Natu- 
rae? ; se é para estudarem os Aulhores an- 
tigos , os que valem a pena se acham actual- 
mente em Francez, e outras Lingoas vivas; 
se é por causa das Etymologias , nao creio 
jasoavel que Se perca tanto tempo, com. es- 
tudo tão espinhoso, a troco de meia dú- 
zia de palavras ; se é para desenvoltura do 
entendimento, muitas cousas mais provei- 
tosas conseguiriam esse fim : devemos con- 
fessar, ainda que nos chamem impio, que 
tal ou qual fanatismo nos leva, mais do que 
a utilidade reíil, ao estudo da tal Madre 



Paiicum ; sed hene partíUim , me 
^izia um carunchoso velho , fallando 
tíoniigo em letra redonda: pouco mas 
bom ; se expressava elJe nessa lingoa 
endiabrada; seu conselho quadrou-me 
tanto , n'aquelle tempo,, <jue me con- 
tentava cora pouco de mais ! O q^ie 
não diria o pobr^ do homem , se re- 
suscitasse agora , e visse a trovoada, 
que desabou nos miolos da mocida- 
de , e a nova Torre de Babel scienti- 
íica , que se alevantou por arte má- 
gica em forma de Instrucçào Pf ima- 
ria , e Secundaria! 

Lembrado ainda d^ meus primei- 
ros annos , me condoí da gente moça: 
Infeliz daquelle, que se não lembra de 
suas rapaziadas ! Criei mui(as escolas 
de Primeiras Letras em todo o R«i- 
no ; estabeleci um Liceu em cada 
Capital de Província ; e reduzi as 
disciplinas aPortuguez, Latim, Fran- 
cez^, Lógica, Geographia, Khetorica, 
Historia Nacional , e Sagrada , algu- 

Liiigoa, e que nem por isso vejo que se en- 
t-eiidem melhor o» que a sabem. 



84) o B{STtJJ»ANTB 

ília Geometria, e muita Moral, de 
que a nossa mocidade bem precisa- 
fia está. Contei a direcção destes Es- 
tudos a mestres hábeis , e methodi- 
jcos , qualidades que mui poucos tem: 
estabeleci para todo o Reino , e seus 
Domínios, uma só Academia de Medi- 
cina ,, e Cirurgia, na Capital : Fran- 
ga,, com trinta e trçs milhões de ha- 
bitantes, pouco mais tem; addicionei 
a esta Academia todas as Aulas de 
Sciencias Naturaes, com applicaçòes 
não só á Medicina; mas a varias ar- 
tes , e oflicios , nào me esquecendo, 
por então, de mandar para França al- 
gXms; mar^cebos estudiosos , capazes 
de se aperfeiçoarem com os grandes 
Mestres nesses differentes ramos scien- 
tificos, que (cheio de mágoa o digo) em 
t^o grande atrazo se acham entre nós. 

/■' 

Servi-me do Collegio Militar, pa- 
ra uma Escola destinada á Tropa de 
JLinha , estabelecendo por lei que os 
Alumnos saíssem Oíficiaes , apenas 
acabassem o curso. 

Estabeleci na Capita], para Q Rei- 



UE COIMBRA. ^6 

TIO e seus Domínios , uma só Acade- 
mia Militar Superior reunindo n'ella 
os estudos próprios á Marinha , Ar- 
tilheria , e Engenharia , e servindo^ 
;se os Alumnos (pelo que diz respeito 
fi Sciencias JVaturaes) das Aulas, já 
«estabelecidas na Escola de Medicina: 
destinei a Universidade de Coimbra 
aos estudos das disciplinas positivas^ 
,e canónicas; amalgamei, e reuni n'um 
só ponto o Conservatório Dramático^ 
■com a Academia de Bel J as Artes ^ e 
o instituto deAri.es, e OíEcios. Criei 
no Porto para consolação dos leaes 
Tripeiros uma Aula de Parteiras "í^ e 
lias Ilhas por causa das dúvidas íí?wa 
K^cola de picaria . * . Assim poupei á 
Nação bastante dinheiro, semque poc 
isso a Instrucçáo pública deixasse dê 
melhorar muito. 

Longo seria enumerar meus fei^ 
tos, € mais longo descrever o que me 
ficava para remediar. Visitei varioâ 
estabelecimentos :fortei-me de vêr des- 
leixes , desperdícios , e irregularida-; 
4es ; que puni severamente não me es- 
^ecendo de premiar quem o merecia. 



36 O ESTUDANTB 

A lembrança de naeus soffrimen- 
tos do Limoeiro , rae animou a visir- 
-ta-lo. Nào poderia bem piníar , oque 
«enti, subindo aquellas escadas , e en- 
trando as mesmas portas, cujos ferros 
pareciam curvar-se agora de respeito, 
quando tinham zombado outrora de 
meus males : a cada instante se re- 
presentavam ante meus olhos novas 
lembranças do passado; e por mais 
de uma vez pensei ver diante de mim, 
nos legares sombrios , ao malfadado 
Rodolfo. 

Debalde quizera ser indifferente 
aos males dos outros , quem já sentiu 
outros males similhantes : busquei 
melhorar, quanto erapossivel, a sor- 
te dos infelizes. Nàoquizsahir da Ca- 
deia sem ir visitar a enfermaria, 
que habitara n'outro tempo ; olhava 
cheio de commoção para o sitio aon- 
de estivera deitado fingindo-me doen- 
te; mas bem depressa o toque das 
Trindades , que resoou na Torre da 
Sé , me resolveu a retirar-me : cami- 
nhava pensativo ainda , e vagarosa- 
mente , quando um vulto se me apre- 



OÉ COIMBRA. 37 

■senta, e suspefid-e meus passos: es- 
tranho me é tanto atrevimento, or^ 
deno-lhe que se retire; mas elle per- 
manece , e diz. 

— Rais me pattam , se lhe não 
fallar. Estou vendo , que já me nàô 
conhece ! ! ! 

A esta lingoagem me aíHrmo nò 
sugeito, pula-rae o coração, era o po- 
bre Caréo : esque<^o-me de quem me 
rodeia , e fora de mim me lanço nos 
braços do meu libertador, gritando: 
— Oh ! Caréo ! . . Pois és tu U l 

— Que quer, Vonhoria , se a vi- 
da he uma nora , e os homens os al- 
cratuzes, que quando se prantam Uns 
de cabeça par riba , se prantam ou- 
tros de cabeça par baixo. Aqui me 
tem, Vonhoria, filado, adoentado, 
e ralado de fome ha um par de me- 
zes ! Por mais que granzine , e que 
lhe á^ruraente áquelles cães, que fa- 
zem justiça de moiro; porque nunca 
fiz mal a ladrão nenhum, põem ou- 
vidos de mercador , e cá vou viven- 



38 ..^ ESTUDANTE 

.úo de gaiola até á remissão dos pescar 
dos. Se eu avezasse alguns tostões ;, 
-jiào havára a besta de andar tão man- 
ca ... ! 

— Ora o pobre Caréo ! E enlão 
4i^e-me^ porque «stás, preso ? 

— Isso são contos largos. He por 
iiTiotivo de um meliante, que desen- 
€ravei da lama no tempo do Sior D^ 
Miguel: éramos conhecidos da estra- 
da , e tanto andei que o fiz Alcaide.., 

— t A estas horas denunciou-te. 

— Qual caramanha 1 Se fosse só 
isso. . . Tinhamos feito uma diligen- 
cia ambos a casa de um Manhado, 
e deu-se-lhe busca , e catrafilou-se 
com elle na Torre ^ € vai se não quan- 
do que o Alcaide me diz, se eu que- 
ria fazer com elle uma soei ata par 
rebater ós da Ribeira, que andavam 
|)or a hora da morte. Ora como Vo- 
nhoria sabe, que fui sempre airenta- 
do por os jurizitos ... 



: DE COIMBRA. C^í) 

f.' — Ab! Pois não... Lembro-me 
muito bem , . , 

— A dipois começámos no trafico 
com vinte moedas cada. um ... 

■ ;a 

— Com effeito não era pouco*, í,«;íí 

> , -^í 
■\i- — Vonhoria manga? *. Pois olhe 
-que se agadanhou cabçdaes ; e ao 
principio a cousa era boa^ mas a di- 
pois o ladrão começou a dizer que 
era melhor deixar crescer os fundos, 
e foi-se fazendo á malta com os meus 
cronquibios , deixou-se de Alcaide, 
e botou sege! Eu já não queria saber 
de mais flustrias , e pedia a minha 
parte: elJe respondeu , que era asnei- 
ra parar em tão bom caminho, e as- 
sim Íamos indo par dianie, sem que 
eu visse siquer as cruzes ao dinheiro. 

— Mas emfim ; por que é que es- 
tas preso ? 

— Espere, espere; não queira an- 
dar a galope que pôde esbarrar com 
dez. mil diabos ! vamos indo a passo 



40 "O ESTUDANT* 

HGjue lá chegaremos com a ajtida de 
Deus . . , IVlas como esíava contando, 
não pude vêr vintém do tal fona , até- 
<iue venceram os do Porto , e eu fiquei 
a divina , por ser limpo de unhas ; e 
então comecei a atainaziar o diabo do 
home , par que me desse a minha par- 
te , e elle a fugir da que&lan , e não 
tive remédio se não ameaça-lo de pôr 
em pratos limpos todas as brincadei- 
ras , que tinha feito aos probes Ma- 
nhados. Com esta buchada o diabo 
sentio seus franicoques , por que as 
cabeças naquelle tempo estavam ain- 
da muito assanhadas, e amostrou-me 
lá umas papeladas, agrumentando- 
me que eram as contas ... 

— E então tinham ganho muito? 

— Elle dizia que haveram de per- 
tencer duzentas moedas a cada um; 
mas eu granzenei-lhe que com duzen- 
tas moedas se não bota sege •, e como 
elle se pôz de trombas caídas, e eu 
nào estava para perder tudo , estive 
por os A tos; dei-lhe o seu papel de 
obrigação, que declarava tudo, e fi- 



DE COIMBRA. 41 

cámos em boas contas . . . Mal raios 
partam tal hora , que me tem custa- 
do um bom par de mezes de cadeia. 

— Roubado , e preso ! Essa é me- 
lhor . . ? 

— E preso por ladrão, que é o mais 
galante; porque o home, quando ajus- 
támos as nossas contas , disse-me que 
não tinha dinheiro, e deu-me uns tras- 
tes de brilhantes mui ricos , que eu 
quiz vender ; mas que ninguém me 
quiz comprar y sem que eu desse um 
fiador; e como o home o não queria 
ser , e os meus amigos se tingáram 
com o Sior Dom Miguel , agarrei no 
diabo dos trastes, e afferrei com elles 
no fundo da caixa, dizendo — « Dia- 
bos te levem, amaldi fadados! « — e 
sahi, efui-mepela rua fora como um 
cão raivoso : era em dia de São Bar- 
thalomeu , que andava o diabo solto 
á roda de mim , quando ás duas por 
três se me pranta na dianteira uma 
cara de Esponsos Pilatus , e me diz 
com voz de amofinação: — « Você não 
me conhece , grandíssimo desaver- 



4f o ESTUDANTE 

gonhado? — «A estas palavras res- 
pondi-lhe — u Desavergonhado será 
elle; veja lá como falia. >y - — e estive 
aquaisi aquaisi indo-lhe ós queixos; 
mas o diabo do home chamou dois 
soldados, que lhe fizerão uma grande 
contumelia, e arrumou comigo em ca- 
sa do Caifás do Ministro, e de lana 
cadeia ; e agora se vê como o diabo 
lhas pranta. O tal sujeito era em cor- 
po, e alma a mesma isca, a quem o 
meu Amigo Alcaide, e mais eu, tí- 
nhamos dado busca, e catrafilado nfí 
Torre, e que se queixava, que lhe ti-' 
nham roubado muito dinheiro, e mui- 
ta coisa rica. Aqui tem Vonhoria ,• 
como um home fica tido por ladrão^ 
sem pôr prego , nem estopa : tido , el 
muito bem lido; pois que lhe havéráf 
eu de fazer, se me deram com os trastea 
na caixa , e o desavergonhado , que 
mos tinha dado, nega a pés juntos que 
tivesse tratos comigo? 

— Pobre Caréo ! Faltava-te mais 
essa. Ladrão não és tu por certo. Eu 
me encarrego de te justificar. 



"DE COIMBRA. 43 

— O' Nhor Doitor, isso he deve- 
ras? Vonhoria falia serio? 

— Fallo, sim. Fica por ora preso; 
nada te faltará, e tu verás, que não 
deste a liberdade a um ingrato, e que 
mais tarde; ou mais cedo a Providen- 
cia premeia os bons , e castiga os 
máos. -rriím. 



*4i :ít> 

Mi". 

•:b 

4. íH 



Olíflíi! 



44 O ESTUDANTE 



*^v*i>^iw\vvKVMnniii>»/utHiinn^»ni%Hni%itHMny i »ni*^MHnM¥*iutiv%»niMvv%i»/in.\% 



CAPITULO XXXII. 



XSTILATEGZA. 

nvolvido em negócios importantes 
muito se tinha arrefecido meu amor; 
quando a presença do Limoeiro, o en- 
contro de Carco , e a sombra de Ro- 
dolfo, que tantas vezes se representa- 
ra diante de mim, me encheu de sau- 
dade, e de remorsos pela indifferença, 
com que por alguns mezes me houve- 
ra a respeito de Maria, que me resol- 
vi a procurar. 

O máo caminho que, apesar de to- 
dos os esforços , seguiam os negócios 
públicos , me resolveu a abandonar as 
rédeas do Governo; mas quiz primei- 
ro vingar o pobre Caréo do aleivoso 
crime, que lhe imputavam, e de que 



DE COIMBRA. 45 

me dizia o coração, que elle estava 
innocente: a (a''efa era espinhosa pa- 
ra quem desejava em vez Jtiemprej^ar 
seu valimento, lazer brilhar a virtude 
com esplendor-, só assim a absolvição 
do crime he grata, a quem a promo- 
ve, recebe, e presenceia; e se algumas 
vezes apparecem criminosos abs^^lvi- 
dos pela corruptibil idade da Justi- 
(ja, ou pelo acaso da fortuna, não pen- 
sem esses, que fugindo ao castigo das 
Leis, se põe a coberto da opinião dos 
homens , e da justiça de Deos. 

O premio da virtude he só virtude 
He castigo do vicio o próprio vicio. 

Tractava-se pois de salvar o po- 
bre Caréo , fazendo apparecer a sua 
innocencia ; mas porque modo se po- 
deria colher tão desejado fim? Confes- 
so que não sabia partido a que me des- 
se. Mandei chamar o Juiz encarrega- 
do do negocio , e recebendo delle as 
devidas instrucções, colhi pouco mais, 
ou menos as mesmas insinuações, que 
do Caréo recebera : soube que o Au- 
Ihor do Processo era um certo Oílicial 



^ o ESTUDANTE 

de Patente superior de meu conhe- 
cimento. Mandei chama-lo, e disse- 
Ihe a tenção que tinha de descobrir 
a verdade á custa de quaesquer esfor- 
ços; pedi-lheque me coadjuvasse; in- 
formei-me do nome, e posição do in- 
dividuo, que armarão (rama aoCaréoy 
e que a Justiça nào perseguira, foss^ 
pela riqueza, que elle tinha; ou por- 
que realmente não apparecesse amais 
leve j)rova por onde se lhe podesse 
pegar. Enirei na indagação da natu- 
reza dos trastes roubados e soube que 
não eram só aquelles, que na caixa 
do Caréo se tinham encontrado; mas 
que havia mais alguns , e entre elles 
um brilhante que por sua desmarca- 
da grandeza não tinha no Reino senão 
um único competidor, e que perten- 
cia ao mesmo sugeito a quem o pri- 
meiro fora furtado. Tomei depois as 
necessárias informações acerca do ini- 
migo , com quem tinha que lutar; 
^oube que era um homem dos seus 
quarenta e tantos annos ; com fuma- 
ças de polido; rico , provavelmente á 
custa de crimes , e com a particular 
inania de se dar çom Fidalgos e de 



DE COHlíBRA. 47 

querer ser empregado público de ele- 
vada ordem , em cuja diligencia gas- 
tava seu par de vinténs na roda do 
anno. 

Poucos homens ha , que não te- 
n-ham seu fraco; mas poucos ha lam- 
bem que deixem de o saber encobrir; 
quando isso nào acontece , se sào pra- 
ças de guerra, já tem a brexa, a berta. 
Bom foi portanto que eu soubesse o la- 
do mais favorável de atacar o sugeito. 
Tractei de lhe arranjar uma hábil pro- 
tectora , industriada a meu modo; 
fiz que elle fosse introduzido em casa 
da dita e que se lhe dessem mostras 
da maior sympathia, chegando apro- 
metter-se-lhe, sem retribuição alguma 
um Logar de Secretario Geral de Pro- 
víncia , para cujo Logar foi nomeado 
logo no dia seguinte. Impossível he 
descrever o contentamento, com que 
me disseram, que o homem tinha ido 
agradecer á sua protectora tanto favor, 
no queella se mostrou satisfeita, ten- 
do a cautela de afastar a ídéa de re- 
compensa, com que o protegido deno- 
tava quei;er ,pagar-lhe seus serviços. 



48 o ESTUDANTE 

Alguns dias depois se preparou 
o senhor Secretario a partir para o 
séu destino , quando a sua protectora 
lhe disse, que desejosa de o nào vêf 
sair de sua pí'esen(^a,se tinha empenha- 
do em que ficasse na Capital para ser 
elevado ao p<into, que elle merecia. 
Tal era o bom conceito, que o prote- 
gido já fazia da excellentissima pro- 
tectora, e tanta a finura, com que el- 
ia sabia ensinuar-se-lhe no coração, 
que muitas revelações secretas hia já 
conseguindo do heróe ^ acerca de sua 
vida privada. 

Um dia estando ambos sós a to- 
mar chá no gabinete da Dama, trou- 
xe ella a conversação sobre jóias , e 
foi buscar algumas para se entreterem 
a examina-las: nabella coll^cçâo que 
apresentou se achava um brilhante de 
desmarcada grandeza. — Forte pena, 
disse a Senhora; se eu achasse outro 
brilhante como este, empregaria meu 
valimento para elevar quem o tivesse 
a Ministro d'Estado, ou ainda mais... 
A estas palavras o homem pegou na 
pedra, e olhando para ella com cer- 



DE COIMBRAV 49 

ta commoção, que pértendia disHirçap 
guardou sikncio por algum tempo^ e; 
disse depois: — Sim; náo hemá; maà 
€u já vi outra, que se bem me lembro 
lhe nà) era inferior* Deveras ! ? (lhe 
t< rnou a Dama). Não ma poderia nU 
taiKjar? Se a pessoa sequizesse desfa- 
zei* delia r/ r^bn supio^ — 

— Veremos... Duvido... fe dahi... 
1 mi c t')'/: .•n-íll o ri 5 c-íj^íTÍ li/. — 

-— Duvida . » ! He o^ primeiro favor, 
que lhe peço; hade mofazer por for-: 
ca. Se for como esta, quero^a com-^": 
prar, custe o que custar ... O' Theo- 
filo . . . O' Meichiades : . . O' Ildefon-; 
so;".. Acompanhem este Senhor, façam; 
quanto elle lhes ordenar . . . Outra pe-» 
dia, como esta ! . . > Que lindo par de' 
brincos 1 ■, a/irriu^iao fiiiaogjrxqqii 

— Porém, íninha Senhora, éu não^ 
a íenho, e rtííò sei . . .De mais , ifiti6 
não beiraste^ que sé confie de úiíí' 
criado. .o.;í .,; - ; ; . :■:!-. r,y.i 

— Nao se pofnhíl-coôi^dtMcuM'adi^:-' 
Conhece o meu deisin tecesse ^ sÁbe^ 

T»MO III, o 



50 O ESTUDANTE 

que quanto lhe tenho feito, não he 
senão para o obsequiar; seria muito 
feio agora , que deixasse de me ser- 
vir, no que lhe peço... Que bello 
par de pedras para iéixos de pulsei- 
ras ! 

— Porque não manda V. Ex.^ fa- 
zer dessa pedra um solitário ? 

— Ai! Deus me livre. Não ha cou- 
sa mais triste do que a solidão: e de 
mais , o que se não diria , se as se- 
nhoras não tivessem em symetrJa as 
cousas dignas de se vêr? Havia de 
ser engraçado apresentar-me nas as- 
sembléas com um pedruguího destes 
em cima da boca do estômago! Bem 
bastam as exquisiíices , que por lá 
apparecem, e algumas a troco de bom 
dinheiro , apezar de se gritar a cada 
instante , que não ha vinlem , e de 
se deixar com este pretexto de pagar 
ao Medico, que não vive senão da 
sua Arte, ao Boticário, que a poucos 
passos dá comsigo em droga , ao ten- 
deiro por mais amanteigado que seja j 
em pedir o que se lhe deve, e até aoJ 



1 



t>E COIMBRA* âl 

moço por pouco , que furte no rol das= 
compras . . . Ande ^ atide , vá. Alii 
tem os meus criados ás suas ordens : 
escusa cá vir, sem ma trazer, ou en- 
viar. 

,m^ Quizera, minha senhora, satis^ 
fazer sUas determinações , porem não 
o posso fazer de modo algum : quando, 
mesmo eu achasse a pedra, nãoquere^ 
ria que ella apparecesse em publicp^»,y 

— Porque!? não é digna de se ver?!! 

'—He mui digna; mas foi um pre- 
sente dado á pessoa que a tem , ou 
tinha, e não deixaria de afrontar-se 
quem a deu, se visse o pouco caso 
que se fez de seu presente ... 

— Está bem já vejo que me não 
quer servir , e n'esse caso permita 
que me retire, porque receio até que 
minha presença o incommode . . . Al- 
gum haverá mais condescendente . . . 

— Espere , espere , não se agaste;' 
eu vou por ella. . . . Quero dizer, eti 

3 * 



ÔS O ESTUDANTE 

VOU ver se lha posso achar . . . Escusa 
ter o incommodo de mandar pessoa 
alguma. 

Disse , sahio , e logo atraz del- 
le três belleguins com ordem deonâo 
perderem de vista um só instante. 
Eram quatro horas da tarde , quando 
o sujeito entrou em casa ; e os seus 
ajudantes de ordens se puzeram de 
espreita , sem que o vissem sahir, 
nem pessoa, que com elle se parecesse. 

Onze horas da noite soavam pe- 
la cidade : a escuridão , e nevoeiro 
parecia condensar-se de propósito 
para aventuras românticas , quando 
da casa do nosso heróe saíram dous 
vultos embrulhados em capotes, e fo- 
ram indo (acompanhados logo por um 
dos taes meliantes) para o lado de S. 
Sebastião da Pedreira , passaram as 
portas da Cidade, deram com sigo 
na serra de Monsanto , e entraram 
por uma portinha , ou antes buraca, 
que fecharam da parte de dentro: aqui 
se vio o pobre do espia desorientado, 
n'um sitio deserto, a que horas da 



DE COIMBRA. 53 

noite , cheio de medo , e sem espe- 
raníja de ganhar alviçaras : estava á 
uma , e ás duas para dar ás trancas, 
quando ouviu estrondo de pancadas 
subterrâneas , com que os cabellos se 
lhe arrepiaram ; mas buscando anir- 
mar-se com auxilio de uma figa , e 
de um sino-samão , que desde peque- 
no conservara ao pescoço por causa 
das bruxas, fez um triangulo na arêa, 
repetindo as palavras — Kyrie eleison 
— Christe eleison — como se algum 
lobishomem lhe desse caça, e foi escu- 
tando conforme pôde, as lúgubres pan- 
cadas que mui distinctamente reco- 
nheceu por successivos sons de martel- 
lo em bigorna. 

" Por mais de uma vez desejou o 
pobre do homem dar a sua tarefa por 
acabada ; sem que se atrevesse a dar 
um só passo para fora do castello 
que tinha feito contra as tentações do 
inimigo , antes se foi conservando, em 
suores frios , rezando a todos os San- 
ctos , e Sanctas da Corte do Cêo , e 
ouvindo sempre as mesmas infernaes 
martelladas , até que ás primeiras 



54 O ESTUDANTE 

tn ostras do dia , botou a fugir, como 
se trouxesse o diabo nas tripas, e 
veio dar conta do que se passara a 
quem o incumbira da commissão, pin- 
tando-^lhe o caso com tão negras co- 
res , que mui bem representava, de- 
veras , o papel de Telemaco , ao sa- 
hir dqs Infernos, em busca de seu 

No dia seguinte se apresentou 
o ex-consocio do Caréo em casa de 
sua protectora, aonde estavam escon** 
didos o dono dos trastes, e o Prove- 
dor do Districío com sua ma^na conco- 
nvitmite caterva. Apenas chegou , foi 
logo recebido pela Dona com a aíTa- 
bilidade do costume, que muito se 
augmentou em presença da preciosa 
pedra, que tanto desejava. — ^ « Muito 
lhe agradeço disse ella, eV. S.*"^rece^ 
bera a recompensa, que merece; mas 
quero primeiro consultar o meu Ouri- 
ves : no mesmo instante , chamando 
dous criados, xnandou entrar o Pro ve- 
rdor, que o nosso homem não conhecia, 
perante cuja Authoridade por meio de 
elogios, e astuciosos rodeios levou ot 



DE COIMBRA. 55 

nosso heróe da festa quasi a declarar 
formalmente, que o brilhante sahia 
de seu poder. Boa vontade cresceu ao 
Provedor de pregar logo d'alli com o 
sujeito no Limoeiro ; mas informado 
já do que se passara durante a noite 
quiz primeiro descobrir a causa das 
martelladas misteriosas , e saber , se 
o bom do homem tinha parte nisso 
porque depois lhe restava o direito de 
entrar em minuciosas indagações , e 
fazer justiça legal , com testemu- 
nho dos criados da Excellentissima 
Protectora feita apressa, e sobre tu- 
do com o auxilio de seu Escrivão, 
arvorado n'aquelle acto em Oíiicial de 
Ourives. 

A' vista disto se retiraram todos 
deixando a protectora , e o protegido 
em iete a tête. As Authoridades cui- 
daram de assaltar proficuamente o 
subterrâneo diabólico : a Dama tra- 
tou de lisongear as esperanças do tra- 
tante, que segundo parece não era dos 
mais espertos; e os malsins , anima- 
dos com grandes promessas , não des- 
pregaram os olhos do lugar em que 



Ô6 Q ESTUDANTE 

se achava a presa : apenas ella sahiu 
pesquizaram seus passos , e a menor 
de suas acções a vêr quem mais apa- 
nharia de recompensa . . , Desgraça^ 
da policia quando não tem á sua dis- 
posição bastantes meios para saciar 
a cobiça destes malvados , que ven- 
dem a troco de dinheiro a liberda- 
de alheia, mas que são indispensá- 
veis para segurança da gente d^ 
bem I . , . 



DE COIMBRA. 57 



MMW VU WilV^M WV t^M^M Wk iV^M^tMMtAMkm^VWmMMSJ U MMUmiMVimH 



CAPITULO xxxni^ 



VISITA INCSVERABA. 



m quanto todas estas cousas se pas- 
savam , fui por várias vezes visitar o 
pobre Caréo (com o pretexto de me- 
lhorar A estado de nossas Cadeias), e 
consola-lo com a promessa de <)ue se- 
ria solto , « vingado. Nestas visitas 
soube eu por acaso a}guma cousa a 
respeito de Fr. Barnabé: o Frade mal- 
dito , depois da minha evasão do Li- 
moeiro, caído no desagrado do Inten- 
dente, tinha feito um roubo á Fazen- 
da, e fugido para França , d'onde 
sahiu como sabes, Leitor, depois das 
boas obras que praticott»- ^ ^ 

Era crivei que semelhímle mal- 
vado se não atrevesse apparecer no 



á8 a ESTUDANTE 

Reino: como não fiquei pasmado quan- 
do o Caréo me disse que poucos dias 
antes de ser preso o encontrara mui 
satisfeito em hábitos de marchante 
hespanhol I . . . He tal a ventura de 
tnuitos malvados, que podem afouta- 
mente andar á rédea solta pelas ruas 
insultando , e salpicando de lama os 
homens de bem , queelles muitas ve- 
zes sacrifícão , roubâo , e perdem im- 
punemente 1 

Perguntei ao Caréo , se tinha fat- 
iado ao monstro? Respondeu-me que 
sim , e que elle lhe dissera que saíra 
de França por causa de certos negó- 
cios , transportando-se para a Ameri- 
ca a bordo de um navio , que fora to- 
mado pelos piratas deBuenos-Ayres: 
que tivera de andar com elles algum 
tempo perpetrando crimes impróprios 
de seu coração ; e que agastada a tri- 
pulação na presença de suas boas qua*- 
lidades , se resolvera a abandona-lo no 
mar alto, dentro do escaler do navio 
apresado, com bolaxa para oito dias, 
deixando-lhe ao menos a consolação 
de morrer á fresca , se Deos , com- 



BE COIMBRA, 69 

padecido sempre dos bons^ lhe não 
levasse ao soccorro um navio hespa- 
nhol, que o trouxera aCadiz. Accres- 
centou , que se occupava agora no 
trafico da compra , e venda de gado^ 
negocio este com que tinha juntado 
alguns vinténs. 



'O 



Não fiquei satisfeito com esta no- 
ticia : apezar do convénio , que em 
França tinha havido entre mim, e Fr. 
Barnabé , e não duvidei , que maia 
tarde , ou mais cedo me apparecesse 
ainda em campo um terrivel inimigo. 
Embebido n' es tas-, e «'outras muitas 
cogitações, entrei para minha casa, 
aonde me vieram receber , conforme 
o costume, o bom , e já veiho amigo 
Farrusco , e a minha criada velha 
(que apenas me soubera em JLisboa, 
se recolhera ao meu albergue na certe- 
za de ser recebida, e premiada, como 
merecia) : disse-me elia , que na sala 
me esperava um homem , e uma se- 
nhora muito bonita, e muito moça. 

Heincrivel a impressão, que me 
produziam sempre similhantes recarr 



eO o ESTUDANTE 

dos ; porque apesar do grande núme- 
ro de pessoas que vinhào solicitar meu 
valimento , e que achavam tão aber- 
ta agora aporta, como no meu tempo 
de Académico, me batia o coração com 
esperanças de ser surprehendido pela 
presença de Maria. 

Corri á sala no mesmo instante... 
Será ella? (Dizia eu comigo mesmo) 
Apenas abri a porta , me senti aper- 
tado nos braços de alguém. Oh! Ven- 
tura inesperada ! — « Maria ! Ma- 
na! n — Gritei eu . . . Mas qual Ma- 
ria ?.. . Era Fleuri ! Era a seducto- 
ra Eugenia ! ! ! 

Fiquei pasmado com tão inespe- 
rada visita ! Parecia-me um sonho 
que Fleuri , e Eugenia estivessem ao 
pé de mim ; ainda esfreguei os olhos 
para ver se dormia; mas desenga- 
nei-me da verdade , e de novo me 
lancei com enthusiasmo nos braços do 
meu amigo . . . 

Passáram-se os primeiros momen- 
tos , como sempre acontece , quando 



DE COIMBRA. 61 

amigos muito íntimos , e separados 
por algum tempo, se chegam a encon- 
trar. Mandei immediatamente pre- 
parar os dous melhores quartos para 
meus interessantes hospedes, que di- 
fficultosamente se resolveram a acei- 
ta-los , receosos de me causerem in- 
commodo. Depois lhes contei, quanto 
eu soffrêra d'esde a minha saída de 
França : os seus olhos se arrazaram 
de lagrimas por muitas vezes, duran- 
te a minha narração, e sobre tudo, 
quando lhes disse, o que succedêra 
ao desgraçado Rodolfo, e á desven- 
turada Maria , de quem nada mais 
soubera apesar de meus esforços. 
Fleuri lambem me narrou, o que pas- 
sara. A' excepçno delle , e de Euge- 
nia, toda a sua Familia tinha sido vi- 
clima, em oito dias, da insaciável, e 
devastadora coíera-morbus. A pobre 
Eugenia aterrada pelo aspecto da mor- 
te, que de tão perto a rodeara, e con- 
sumida de saudade, e tristeza amais 
terrível, cahiun'um tal estado de agi- 
tação nervosa, que bem depressa ca- 
hiu n'uma febre lenta , assustadora: 
foi voto unanime dos Médicos , que 



6f o ESTUDANTE 

viajasse logo, logo, eníio houve reme', 
dio senão deixar a França, para cor- 
rer quasi toda a Itália , e parte da 
Hespanha. 

Tendo aventura de poder regres- 
sar á Pátria com Eugenia completa- 
mente restabelecida, não quiz (me dis- 
se o meu Amigo) levar os remorsos de 
não visitar em Portugal aquelle ho- 
mem, que tão honrosamente defendeu 
meu Pai de uns poucos de assassinos. 
Um motivo teria eu no emtanto, que 
me afastasse de meus desejos , a falta 
de resposta ás innumeraveis cartas , 
que lhe escrevi, se por outro lado não 
considerasse, que talvez pelo estado, 
em que Portugal se achava então, ellas 
tivessem deixado de chegar ao seu 
destino » — Kespondi-lhe, asseveran- 
do-lhe que na realidade nenhuma car- 
ta recebera, e para me justificar lhe 
disse, que também algumas cartas lhe 
tinha escripto, o que realmente não 
era verdade. 

Feitas as pazes por meio destas 
explicações, começava acontar-lhe o 



DE COIMBRA, 63 

negocio do Caréo, quando vierão di- 
zer-me, que uma das principaes Au- 
thoridades Civis me desejava fallar: 
immediatamente conduzi meus hospe- 
des para seus quartos ; puz a minha 
cara de Ministro de Estado, e fui re- 
ceber o fis^urão. 



-lUV tíijUL 1. . iUti iíJiíi íj1u'<| ^ íiLL* O U-Ll, 



%é o ESTUDANTE 



r fTfVf <i . / 



-ST 



CAPITULO XXXIV, 



CRANBS DESCOBERTA 

'iz-me o coração Leitor, (e o cora- 
rão raras vezes mente) que cheio de 
curiosidade esperas pela Serra de 
Monsanto, e maríelladas misteriosas, 
que íanto espavoriram ao belleguini; 
mas nâo se perde ás vezes por espe- 
rar, e quando se perca por isso, mais 
vale tarde que nuzwa, 

O sujeito , que segundo sabes, 
estava na minha sala, vinha dizer-me 
© que se passara relativamente ao ne- 
gocio. O inimigo doCaréo, quero di- 
zer, o seu antigo sócio, tendo sido 
pela segunda vez acompanhado até 
a casa, nâo havia mais apparecido du- 
rante o dia; pela alta noite dous vul- 



DE COIMBRA.» 65 

tos sahindo, como na vez precedente, 
em direcção ao mesmo logar terrível, 
e infernal , segundo a expressão do 
espia , levaram em seu seguimento 
um soldado disfarçado , em quanto 
na casa, de que se auzen taram , se 
precipitava a Justiça, e descobria 
muitas barras de prata, e ouro , e al- 
guns traços de correspondência mi- 
guelista. , 

Durante a noite , muitos solda- 
dos se tinham ido esconder á formiga 
em proximidade do logar , que o pri- 
meiro espia lhes assignalou vantajosa- 
mente ; porque seu terror lhe desper- 
tava justas recordações da verdadeira 
localidade encantada. No em tanto 
chegaram os dois vultos á portinha, 
abriram-na, e quando iam para en- 
trar , resoou com tanta força o terrí- 
vel apito do soldado (Que lembrançasf 
não tive do que mesuccedêra em Sa- 
cavém?!), que os incógnitos amedron" 
tados partiram na mais veloz carreira, 
deixando a porta aberta , e um cesto 
com um pouco de pão , e uma garra- 
fa de vinho. 



66 o ESTUDANTE 

Ainda bem se não sumiam ao lon- 
ge os échos do forte assobio , levados 
de montanha em montanha; já uma 
nuvem de soldados perseguia os fugi- 
tivos , em quanto outra nuvem tendo 
accendido archotes, se precipitava 
pela porta dentro em busca da verda- 
de , deusa sublime , que não deixa 
poucas vezes de jazer nas trevas ape- 
zar de seu brilho , e formosura 1 

Havia depois da porta um estrei- 
to corredor, cavado na montanha, no 
íim do qual se achava outra porta, 
que se arrombou. Por fortuna leva- 
vam luzes os soldados ; pois se teriam 
de outra sorte precipitado n'um pro- 
fundo buraco , para o qual se descia 
por uma escada de mão. A um dos 
lados havia em baixo outra porta, que 
foi também arrombada. Desde logo 
se viram todos dentro de frias , e me- 
donhas cavernas , cheias de bigornas, 
martellos, forjas, fieiras, formas, cu- 
nhos , e mais utensílios próprios ao 
fabrico do dinheiro ! ! i 

Depois de bem examinado o Io- 



DE COIMBRA. 67 

cal , se tratou de lavrar um Auto Ju- 
dicial do facto , e exame ; quando se 
ouviram algims ais tão sentidos , que 
mesmo os corações mais fortes estre- 
meceram ao escuta-los. Muitos ho- 
mens , dos que mais blasonam de seu 
animo, e valentia, sentiram sem dú- 
vida o desejo de ir por então pôr-se 
ao fresco lá para fora : nem todos os 
que faliam de suas façanhas , são ca- 
pazes de dar conta de si nos lances 
arriscados ; mas alguns houve , que 
afoutamente se precipitaram por to- 
dos aquelles subterrâneos em busca 
do desgraçado , que por meio de seus 
gemidos pedia soccorro. Poucos mi- 
nutos bastaram para descobrir com o 
auxilio da voz do paciente o logar , 
em que elle se achava : era ao canto 
de um dos subterrâneos dentro de um 
buraco , fechado por meio de certa 
corrediça depáo, que estava tranca- 
da com segurança. Fizemos-la em pe* 
daços , dissemos ao infeliz , que sa- 
hisse , e só depois de alguns minutos 
deitou elle os braços para fora , pe- 
dindo que o arrastassem , por não ter 
forças para o fazer , , . 



68 o ESTUDANTE 

He incrível a posição , a que os 
homens se reduzem uns aos outros, 
segundo seus differentes sentimentos] 
Parece impossivel , que o mais per- 
feito de todos os animaes podesse re- 
duzir seu similhante ao lastimoso es- 
tado , em que se achava aquelle ! 
Quizemos interroga-lo; mal podia res- 
ponder-nos 1 Corremos ao cesto , em 
que se achava o pão , e a garrafa de 
vinho ... « Sede , sede ! « dizia elle 
com voz enrouquecida. Demos-lhe 
agua ; demos-lhe a vida; porque suas 
guelas ardiam de secura. Pôde en- 
tão dizer-nos que ha tempo estava eii- 
cerrado n'aquelle estreito cubiculo, 
expiando seus peccados , e pedindo 
e Deus que o não deixasse morrer an- 
tes de confessar , o que sabia , para 
castigo de seus perseguidores. 

Neste ponto chegaram presos os 
dous fugitivos : um delles era em cor- 
po, e alma o protegido da grande da- 
ma, o qual protestava contra o in- 
sulto feito á sua cathegoria: tinha 
razão ; mas d'alli mesmo foi com seu 
companheiro visitar dous dos mais 



DE COIMBRA. 69 

apertados segredos da cadeia ; em 
quanto seu prisioneiro entrou para o 
hospital daquelle pio eslabelecimea- 
to. 

Tal foi a exposição , que se me 
fez acerca dos factos , pergunlando- 
se-me , se queria que os réos viessem 
á minha presença : respondi aílirma- 
tivamente, e não tardou que eu os 
visse a todos três , a qual delles de 
peior catadura: parecia-me conhecer 
as feições do nobre secretario feito 
apressa, revolvia minha memoria por 
todos os lados para me lembrar do si- 
tio em que eu vira o dono de tão má 
cara ^ estava quasi desistindo da em- 
presa , quando o velho Farrusco, que 
a meus pés jazia embebido nas deli- 
cias do esquecimento ; se arremeça 
de um galão ás canelas do tal sujeito, 
e com ellas começa devolta, como se 
fossem muito suas conhecidas: só meus 
gritos poderam com diíficuldade arre- 
fecer-lhe o calor. Espantei-me de ver o 
meu bom amigo tãoazafamado^ quan- 
do por sua idade devera mais occupar- 
se do outro Mundo que deste. Refle- 



70 o ESTUDANfJ?e 

cti no caso, affirmei-me no sujeito, 
tornei a reflectir, tornei -me a aífir- 
mar; perdia quasi a esperança da des- 
coberta ; quando um raio de luz me 
aclarou a memoria . . . Ali! Meu Lei- 
tor! Alli o tinhas todo inteiro! Era 
o meu nobre laponio do casarão velho, 
ou para melhor te lembrares , o cari- 
nhoso paisano da lanterna , que anão 
serem os dentes de Farrusco me tive- 
ra deitado a perder nas margens fron- 
teiras a Sacavém ! ! ! Aqui tens uma li- 
ção para muita gente boa, da que se 
não lembra do premio , que mais tar- 
de , ou mais cedo recebe a ingrati- 
dão , e perversidade dos homens ! 1 1^ 
Aqui tens , meu Leitor , aquelle in-: 
fame , de cuja casa eu afastara o me- 
do, e que pouco depois se conspira- - 
ra contra minha liberdade, sujeito 
á espada da justiça , escravo do im- 
pério da lei , e cabido nas mãos , de 
quem severamente podia faze-Ia exe- 
cutar! Agora já não examina ejle meus 
trajos ! Já me não chama Pedreiro 
Livre ! . . . Pede só piedade , e nào 
duvida , nem receia conseguí-la , de 
quem falia com o diabo á meia noite! ! ! 



I>E COIMBRA. 71 

Nâó cuide ninguém receber bom pre- 
mio de más acções; ninguém oesper 
re quando mesmo as boas muitas ve-, 
zes o não recebem . Ohomemquasi 
sempre cahe no laço, que prepara 
aos outros ; as intrigas sào os fios 
mais resistentes , com que elle tece 
esse laço : a má fé urde a rede , e a 
força arbitraria dá fim á obra; mas 
a mão da Providencia despedaça n'um 
instante todos os seus trabalhos, pre- 
cipita-o no abysmo , arroja-o para, 
baixo dos pés das victimas que fez^ 
e assombra-o com raios mais terríveis 
que os de Júpiter , a que não resis- 
tiram gigantes 1 . . . 

Perguntei ao malvado se me co- 
nhecia , se se lembrava da aventura 
da coruja? Respondeu-me que sim. 
Repliquei-lhe, se se lembrava da noi- 
te de Sacavém? Fez-se de novas. Man- 
dei interrogar aquelle, que desejava 
fazer importantes revelações ; pediu 
em troco a liberdade, asseverando-me 
que nào era matador, eque seus cri- 
mes não excediam os de alguns su-> 
jeitos , que por ahi andam , mui- 



Tf o «STITDANTB 

bem paramentados , á rédea solta ; 
prometti-lhe que sim, no caso de a 
merecer. :3oni oi 

Confessou que pertencera á qua- 
drilha de ladroes dos pinhaes de Lei* 
ria, com a qual seus dous co-réos es- 
tavam em intimas relações (ambos ne- 
garam): disse que fora pelo seu Capi- 
tão mandado preso para o subterrâ- 
neo, aonde o tinhâo achado, por cau- 
sa de uma rapariga , que o seu Ca- 
pitão conservava a ferros , e que 
muito maltratava pelo despreso, que 
delia recebera em troco de suas de- 
clarações amorosas; que elle réo, con- 
doido da sorte daquella infeliz bus- 
cou fallar-lhe, e clandestinamente co- 
gitavam ambos nos meios de fugida, 
quando o Capitão, informado de tudo 
tomou injustamente tantó*ciume que 
se resolveu a mata-lo de fome, e sede, 
parecendo lhe pouco manda-lo fuzilar: 
que á vista desta idéa o remettêra a 
seus correspondentes com empenhada 
recommendaçào de o maríyriearem, o 
que elles bem tinham feito , conser* 
vando-o por muito tempo metlido 



DE COIMBRA. 73 

n'umâ blirUca a pão, e agoa , quasi 
sem ar, e esse pouco, que respirava, 
empestado pelo máo cheiro das niaíé- 
rias pútridas, edes vefmes, que o ro- 
deavam ; que á vista disso p)edia aq 
Ceo vingan<^a, epromettêra arreperi* 
der-se de suas culpas, se a conseguis- 
se *, e que reconhecia até que ponto 
se estende a Justiça de Deus* 

Perguntoii-se-lhe , se queria en- 
caminhar a Authoridade em busca dos 
iadròes ? Respondeu que sim , apenas 
podesse , se se lhe promettesse de os 
castigar ^ porque elles tinham gran- 
des protecções , e desejava que não 
fossem a poucos passos postos na rua» 

D'aIÍi mesmo s'eXpediram as or- 
dens necessárias á boa execução da 
diligencia : o hoípem , posto que mo- 
lesto, não hesitoti logo que foi necessá- 
rio pôr a caminho, e guiar a fcrça 
armada sobre os ladrões , cujo capi- 
tão elle desejava exterminar : os dous 
Verdugos remettidos para o segredo, 
viram a tempestade que se formava 
fiobre suas cabeças j quanto não dá- 

TOMO III* 4 



74 !0 ESTUDANTE 

riam elles a quem avisasse seus con- 
sócios do perigo que os ameaçava ? ? . , 
Mas já era tarde , e quando apenas j 
se divulgasse a noticia de sua prisão, 
já todos os cúmplices estariam em po- 
der da Justiça . . . Exulta Caréo . . . 
Não tardará para ti o dia de liberda- 
de ... . 






DE COIMBRA. 75 



i»>''ÍM<»»%iM>«MM»v>%'ti«»^»»vvvw»>»w»%»w/»>i\^%»ww(lww%»»^%»wi<**r 



CAPITULO XXXV. 



E' E£LÀ ; MAâ QU£ IMPORTA»^ 

im quanto a Justiça se íernechia pa- 
ra premiar a virtude, e castigar o cri- 
me, fui eu mostrar aCidade a Fleuri, 
e a sua Irma; conduzi-os á rica Sa- 
crislia de S. Vicente de Fora, toda 
de mosaico , ao Arsenal da Marinha^ 
á Porta de Martins Moniz no Caslel- 
lo , á Bibliotheca Nacional, ao Mu- 
seu, ao Convento dos Jerónimos em 
Belém , e aos Arcos das Agoas Li- 
vres. Ao mesmo tempo lhes fui dizen- 
do duas palavras acerca deste povo 
guerreiro , que por tantas vezes sus- 
tentou a sua independência, que des- 
de Àfibiíso 1.^ deo as maiores provas 
de moderação , que se encheu de gío 
ria descobrindo, e vencendo meio 

•A * 



7è o ESTUDANTE 

Mundo , e abatendo a soberba dos 
mares, nunca d' antes navegados, que 
foi sensível á belleza das Musas no 
reinado de D. Diniz , quasi dous sé- 
culos antes que Francisco 1.** o imi- 
tasse , em quanto se esforçava por 
alevantar a França dó estado quasi 
de barbaridade , em que jazia I ! I 

Fiz-lhe vêr que Portugal parecera 
por seu tamanho destinado ao esque- 
cimento, se o Génio Portuguez onào 
elevasse outrora ao nivel das grandes 
nações ; que perseguido pela Hespa- 
nha , e inquietado por muitos inimi- 
gos , nem mesmo assim deixaram os 
Portuguezes de levar seu nome , e 
suas façanhas a regiões das mais re- 
motas , enriquecendo ao Mundo com 
muitas, e curiosas descripçÕes de pai- 
zes , fructos , povos, usos, costumes, 
e religiões desconhecidas; e demons- 
trei-lhes que a Europa teriasido victi- 
ma de uma invasão Mahometana, sem 
as victorias successivas , e as conquis- 
tas , que tivemos na índia. ' 

Depois de ter mostrado a Cidade 



1>E COIMBRA. 77 

aos meus amigos , os levei a Cinlra, 
Mafra, e ao memorável Convento da 
Batalha. Estajornadafoimui agradá- 
vel para mim e para os meus hospe- 
des ; para elles pelas vistas varia- 
das das collinas de Portugal , ora in- 
cultas , ora cultivadas , ora cobertas 
de vinhas , ou de oliveiras , e de pi- 
nheiros , cuja rama immurchavel re- 
siste tanto aos frios do mais rigoroso 
inverno , como ás mais ardentes cal- 
mas do, estio; para mim pelas lem- 
branças , que me acarretava da mi- 
nha mocidade ^ dos meus tempos de 
Coimbra , das minhas jornadas , da 
aventura com as almas do outro Mun- 
do, com que entretive meus hospe- 
des; do meu encontro com Maria, des- 
se tempo finalmente, em que a vida 
corre cora rapidez sem se sentir .... 

,' Depois de termos visto o Conven- 
to , nos resolvemos a visitar a fabri- 
ca de Torres Novas , mais para uti- 
lidade de Eugenia , cuja saúde se vi- 
gorava com as jornadas , do que por 
outro qualquer motivo. A nossa jor- 
nada era feita mui vagarosamente. 



78 O ESTUDANTE 

já pela comitiva de criados e solda- 
dos , que levávamos , o que nos obri- 
gava a ficar em certas pousadas ; j4 
para evitarmos os inçommodos, aque 
se sujeitão aquelles , que pertenderá 
andar com rapidez por npssas estra- 
das» xbnTniíJ') 

Por instantes estava a líõite a. 
lançaF sobre a terra seu manto escu- 
ro , quando atravessámos um pinhab 
serrado , solitário , e triste ;. distante 
ficava ainda a pousada , que anciosa^ 
mente demandávamos : o calor tinha 
sido excessivo durante odia, e oCéo 
coberto de negras nuvens promettia 
a cada passo desfazer-se em chuvei- 
ros •, o vento húmido , e frio do No- 
roeste , que principiara havia pouco, 
soprava com tanta força que nos in^ 
commodava sobre maneira, e princi- 
pialmente a Eugenia , cuja posiçãa 
nos inquietava tanto, que teriamoS: 
desejado poder formar alli mesmo uma 
barraca para abriga-la dps insultos, 
atmosphericos. -í-m, «*'» «i 

Taes eram aos5Q3. desejos., quan?i 



'JDE COIMBRA. 79 

do beiíí perto de nós descobrimos uma 
cabana, a cuja porta estava uma ve- 
lha de tâo boa cara, que parecia con- 
vidar-nos a descançar i, fomos pedir- 
Ihe que nos deixasse alli ficar , até 
que a trovoada se desvanecesse com- 
pletamente. De bom grado se prestou 
ella , e seu Marido ao que lhe pe- 
diamos ^ se bem que reflectissem na 
pequenez da casa , onde se não po- 
deriam abrigar dezoito pessoas com 
cavallos, e bagagens n'um espaço, on- 
de apenas caberiam três ou quatro. 
Entrámos no emtanto na cabana, e 
tào acanhada a achámos, que teriamos 
continuado nossa jornada, se não fos- 
se indispensável , que atíendessemoa 
aos incom modos de Eugenia: á vista 
disto ordenámos a nossa comitiva de 
seguir caminho até á próxima povoa- 
ção, conservando comnosco somente 
o Sargento, e hum de meus criados; 
e guardando as cavalgaduras , n'outra 
espécie de barraca, contigua áquella; 

Immediatamente trataram os ve- 
lhos de nos preparar a ceia, que se te- 
ria reduzido , sem o auxilio do nosso 



80 O ESTUDANTE 

farnel, á alguns ovos assados, e a um 
pouco de pão de milho. Em quanto 
comíamos , roncavam medonha mente 
os tmvões em torno de nós, e a chuva 
trazida com força pelo vento impetuo- 
so, parecia querer arrasar o frágil edi- 
fício, que noà defendiaU .àUi;>;. 

Duas horas ; se teriam passado, 
quando ouvimos bater á porta da ca- 
bana: ficámos pasmados! Quem pode- 
ria andar por aquelle deserto n'uma 
noite tão tenebrosa, anão ser a nossa 
gente, ou outros viajantes, que seti- 
Yessera perdido , ou quizessem abri- 
gar-se? Confesso-te, Leitor, que não 
fiquei no em tanto mui satisfeito , e 
que por isso fui para carregar um 
par de pistolas , que trazia , quan- 
do a porta se abrio em presença de 
um grande empurrão , e de três ho- 
mens armados, que disseram imperio- 
samente — : « Queremos Quartel — » 
Cada qual poderá calcular o abalo, 
que tão inesperada visita nos causa- 
ria. Eugenia desmaiou ; Fie uri , que 
não entendia Portuguez; mas que lhe 
hia o negocio parecendo grego, foipa-r 



1 



.ȣ COIMBRA. 81 

fa luétter mão a um floreie, com que 
teria feito das suas, se o não agarras- 
sem, e atassem <le pés, e mãos, assim 
como a mim , e ao meu criado; e o 
Sargento, que se quiz metter a abe- 
lhudo, deu uma calanada nos focinhos 
de um dos taes sujeitos, que lhe tes- 
pondeu logo com um tiro que omaa- 
dou desta para melhor vida. 

A este estrondo resoou um for- 
te assobio , -centraram para a cabana 
mais alguns homens : reconheci que 
eram ladrões; á sua fr-en te se apresen- 
tou, quem os capitaneava. . . Oh? Meti 
Deos ! Quanto não era medonha sua 
figura! De horror se me gelou o san* 
gue nas veias . . .Senti calafrios . . . 
Era Frei Barnabé! ! ! Era o demónio 
em figura humana ! ! ! Era o Génio do 
mal vestido á Castelhana!!! Emmude- 
cêmos ambos; mas pouco durou o pas- 
mo do meu inimigo; que pôz dè -píir- 
te seu ar sério para zombaT de mim, 
e ameaí^ar-me. Lembrei-lhe a pro- 
messa que havíamos feito em França 
de nos não tornarmos a perseguir um 
ao outro: disse-lhe que aquelle homem 



^92 Ô ESTUDANTE 

eaquella senhora eram os filhos daquel- 
le sujeito , que Ião efficaz mente con- 
tribuirá para a sua liberdade: respon- 
deu-me com o sorrir do crime , que 
as clavinas da sua gente me gratifi- 
cariam dalli a pouco tantos favores: 
que estivesse descançado-, porque me 
mâo constiparia; queelle náo era des- 
humano , e já que a noite não estava 
táo boa, como aquella decantada, em 
que eu salvara a minha Dulcinéa, fa- 
ria a honra de me deixar morrer en- 
xuto : — » Bem sei, continuou elle, 
quantos esforços tens feito para alcan- 
çares a tua querida Maria: tenho dó 
de ti, ejáque o acaso nos reuniu nes- 
te logar, não morrerás queimado, ar- 
cabusado , esfaqueado, esganado, ou 
como bem me parecer, sem que te- 
nhas ao menos a inaudita ventura de 
a veres ainda ... 

-5*— Justo Deos! exclamei eu.,. Des- 
graçada victima ! Quanto não terás 
tu soífrido I 

fita— Estás enganado^ conserva-se bel- 
la , e pura como a luz do dia . . . Po- 



<• 



DE COIMBRA. 83 

des-mo agradecer, não me tenho pou- 
pado aos meios de a tornar feliz ; fol- 
go de te encontrar para ta restituir 
em bom uso , e tanto mais , que pa- 
ra me consolar dos trabalhos deste 
Mundo , poderei levar aquella moça, 
que alem está desmaiada , e que s©; 
não me enganâo meus olhos , ainda 
merece as finezas de ura capitão de 
ladrões . . . 

— Malvado ! . . . 

— Logo fallaremos : agora só que- 
ro cuidar de te restituir o bem , que 
tanto adoras. — Disse, e fez um si- 
gnal a dois dos seus , que não tarda- 
ram a entrar para a cabana , trazen- 
do grosseiramente um embrulho , que 
puzeram no chão a pouca distancia 
de mim. 

Meu coração batia com tanta for- 
ça, que me embaraçava a respiração, 
e quasi tolhia a voz .... E' ella i E' 
ella ! Mas que importa ! ! Já não pa- 
rece a mesma 1 Parece um cadáver, 
que ao Mundo mal se prende por um 



â84 O ESTtJDANTE 

reslo de vida que a respiração Ihê 
alimenta apenas ! Seus olhos em vez 
de dizer —Amor — só dizem Morte; 
um prolongado suspiro , e as mãos, 
que a muito custo mal pode unir , e 
levantarão Céo, são os únicos signaes, 
com que saúda, minha presença . . . 
Oh! Meu Deos! Que infernal posição 
não era a minha ! Se as Fúrias todas 
me roessem o coração apouco, e pou- 
co , sentira eu menos do que soffria. 
— » Ah! Por piedade. . . , Por .piedade 
(exclamei eu) desligai-me um instan- 
te; çoncedei-me que soccorra aquella 
infeJizj não a deixeis morrer tão cruel- 
mente « — Vãns grandezas do Mundo! 
De que te serve o orgulho ! De que 
valia naquelle instante o meu poder, 
se um frouxo cordel , q a voz de um 
assassino me sujeitavam a pedir pie- 
dade! Maria olhava para mim, e sus- 
pirava a miúdo; suas mãos se levan- 
tavam com muitadifficuldade, ora pa- 
ra o Céo, ora para seu perseguidor... 
iPara quem supplicaria ella indulgên- 
cia, senão para mim? 

Com este esforço, que adesven- 



©E COIMBRA. í85 

turada empregara em beneficio meu, 
se ateou repentinamente o ciufne do 
malvado: seus olhos scintilaram de rai- 
va ; sua lingua blasfemou impiamen- 
te; ao mesmo tempo que um medonho 
trovão; e o susurro da rama dos pi- 
nhaes agitada com força pelo vento, 
e chuva ^ lançava sobre aquelle qua- 
dro medonho a luz do terror ... A um 
leve acceno de seu malvado chefe , se 
lançaram os assassinos sobre mim , 
e arrojando-rae para um logar fron- 
teiro aos olhos de Maria , se prepara- 
ram para me fuzilar .... Eugenia , 
que tornara a si, soltou um grito, 
com que os monstros estremecerão; 
Maria agitava-se, como quem bus- 
cava reunir suas forças; para voar 
em meu soccorro... Apontaram-se as 
armas todas a meu peito ; um só 
instante me restava entre ávida, e a 
eternidade; mas esse instante, enco- 
berto aos olhos dos mortaes, pertencia 
á justiça deDeos. Um raio fendendo 
os ares, se arroja sobre o tecto de col- 
mo do fraco alvergue, de que as cham- 
mas se apoderam ; os matadores hor- 
rorisados, e assombrados, fogem ; seu 



86 o ESTUDANTE 

chefe só permanece ufano, zomban- 
do do terror e chamando jpor elles, mas 
debalde. • 

Bem depressa a raiva do assassi- 
no, que se vê inteiramente abando- 
nado, se muda em furor: terriveis 
pragas se despejam de sua boca com 
que insulta, e desafia a justiça do 
CéoJ . . Insensato, que não conhece 
até que ponto s'estende o castigo de 
Deus . . . Em quanto eu conservar es- 
te punhal , e este braço (me disse 
elle) não fugirei deraios-nem que do 
inferno sejam lançados contra mim: 
quero primeiro regar este chào com 
teu sangue, aos olhos da tua bella 
Maria... cuidavas que a fuga d'es- 
ses cobardes pudesse amedrontar- 
me ?! ! Imbecil ! . . Espera . . . 

No mesmo instante &e arroja so- 
bre mim o malvado com o ferro er- 
guido para me traspassar; quando re^- 
pentinamentè se enche a cabana de 
gente que o segura e prende. . . Oh 
Bemfazeja Providencia! Eu t'o agra- 
deço, . . Eram os da minha comitiva. 



DE COIMBRA. «7 

que errando perdidos pelo bosque a 
travez da escuridade para alli se ti- 
nham dirigido atraídos pelo clarão 
do incêndio; cují» lavareda que o ven- 
to procurava atear se apagou rapi- 
damente debaixo de grossos chuveiros. 

Todos fomos desligados. Euge- 
nia , Fleuri , e eu corremos a Maria. 
Impossivel é descrever a pathetica 
scena que teve logar por entào! Eu- 
genia beijava ternamente a sua com- 
panheira docollegio. Eu apertava em 
meus braços aquella , por quem tan- 
to padecera. Fleuri foi procurar por 
todos os lados , e pelos farnéis algu- 
ma cousa, com que podesse soccor- 
rer Maria, que mui poucas palavras, 
e a muiío custo pronunciou. Os cria- 
dos , com parte dos soldados , infor- 
mados de quanto se passara , se pre- 
pararam para se defenderem em ca- 
so de ataque , e a outra parte , la- 
mentando a desventura de seu pobre 
Sargento, cuidou de Frei Barnabé, 
que de raiva se mordia. 

Consegui, meu Leitor, alcan- 



<8fl O -ESTUDANTE 



«çar o que vivamente desejava : não 
sofíri pouco! Vejamos agora arecom-- 
pensa «que me reservava o destina, 
<lepois de tantos trabalhos , penas e 
saudade , . . 



,'Ju,K 



DE COIMBRA. 89 



Mi»«M/%»\\\\'V««V««M%Vt«VM«\WV\-M\%VtM.'V\\%V\\\\V\%««WVVVVW«««k 



CAPITULO XXXVI,. 



PREMIO , E CASTIGO. 

âo foi sem bastante difficuldade, 
que pudemos trazer Maria viva até 
Lisboa para rodea-la dos mais hábeis 
facultativos , dos maiores carinhos , e 
d'aquelle particular cuidado , de que 
precisava sua melindrosa posição; 
foi incrivel a alegria do decrépito Fa- 
rusco, tornando a vêr a sua affeiçoada 
patroa , com quem brincava tantas ve- 
zes nos serenos dias de infância, e de 
ventura para ambos. Pouco depois de 
termos chegado , me vieram também 
dar conta do que se passara nos pinhaea 
de Leiria , d'aonde havia pouco tem- 
po que voltara o conductor , e os sol- 
dados , que tinham ido em busca dos 
ladroes, sem que tivessem podido, ap- 



90 o ESTUDANTE 

prehender seu chefe , nem a vicli- 
ma , que elle perseguia , se bem que 
chegassem a prender grande nume» 
ro de facinorosos da mesma quadri- 
lha. 

jVl andei vir a minha presença o 
conducíor (quero dizer, o infeliz en- 
carcerado das cavernas do Monsanto) 
e ordenei-lhe que me dissesse o qu© 
se passara. 

' -^ Sãhimbs de Lisboa (meTespon!^ 
deu elle) e fomos em marchas força* 
das alé perto da nova de meus inimi- 
gos na resolução de os cercar duran* 
te a noite 5 mas assaltada a cova, 
não achamos ninguém: desconfiáramos 
que tivessem sido avisados, porque 
lhes não faliam protectores, se a ra- 
pidez com que foi preenchida nossa 
diligencia nos não fizesse crer impos- 
sível semelhante aviso : por isso nos 
resolvemos a conservar nossas posi-» 
ções com cautela de não sermos d es- 
cubertos de dia, para podermos mais 
proficuamente manobrar durante a 
noite^;- ii;u^^ iuOce.;^ jii ^i^^ íí^jí: , 



DE COIMBRA. 91 

Seis vezes afio assaltamos infru- 
ctuosomente o retiro dos salteadores^ 
e seis vezes voltamos desgostosos de 
os nâo encontrar ; passamos a bater 
o matto e perdemos n'isto alguns dias 
de sorte que nos resolvemos a voltar: 
já caminhávamos para Lisboa quan- 
do ao anoitecer rebentou a mais des-* 
abrida trovoada que tenho visto ; e 
foi tal a escuridade que nos perde- 
mos no caminho , e andamos pelos 
pinhaes sem destino , nem abrigo de 
qualidade alguma, porque aramados 
pinheiros, agitada pelo furor do ven- 
to nao bastava para conter o peso da 
chuva que se precipitava a cântaros 
sobre nós : deste modo caminhava-* 
mos quando ouvimos a poucos passos 
de distancia rinchar um cavallo , e 
i?o mesmo instan^te desfilar pela nossa» 
frente muitos vultos que pareciam ho- 
mens a cavallo , e que o eram na 
realidade , por que perseguidos por 
BÓs , e embaraçados pela escuridade, 
dos pinheiros , mattas, e tojos cahi- 
ram muitos sem resistência algum»^ 
em nossas mãos. 



92 o ESTUDANTE 

Mal rompeu o dia reconheci ah 
guns dos taes sugeitos ^ eram vários 
Heróes façanhudos da quadrilha que 
buscáramos ; mas por desgraça nem 
pudemos apanhar seu capitão , nem 
a infeliz que eu quizera libertar , e 
que talvez já esteja morta a estas ho- 
ras .. . i; 

•Ibív oíInoJ m)í> t ; r.b'n(['\ 

A descripçSo dá noite, a identi- 
dade de lugar , e muitas outras cousas 
itíe convenceram que os presos não 
eram nem mais , nem menos do que 
os mesmos que amedrontados pelo raio 
tinham abandonado Frei Barnábé: pa- 
ra me certificar levei o sugeito ao 
quarto de Maria , e perguntei-lhe se 
a conhecia . . . E' ella ! M E' ella ! i ! 
E' a desgraçada! ! ! Exclamou elle... 
Mas por que modo está aqui ? . . Co-^ 
mo he possivel que a encontre n^es* 
te lugar! ! ! Contei-lhe então o que 
me succêdera . . . ficou espantado . . . 
seu espanto foi maior ainda quando 
viu a Frei Barnabé, que eu mandara 
buscar : in numeráveis fôrão os epi- 
thetos injuriosos , com que cumpri- 
mentou o infame , acabando por di- 



DE COIMBRA. 93 

zer-lhe , que só uma cousa o pena* 
lisava : a ventura que. irm malvado^ 
como elle , poderia ter morrendo en- 
forcado \ porque náoei^a bastante tor- 
m,ento morrer assim em presença dos 
crifjies , e das monstruosidades , que 
praticara. 

Depois destes successos , man- 
dei retirar os réos , e fui visitar o Ca- 
réo : obriguei as Autoridades a abre^ 
viarem os processos de todos aquelles 
criminosos; tive porentáo motivo de 
me agastar pela tardaní^a, com que os 
assassinos , e malvados de maior vul- 
to são castigados em Portugal ; não ha 
nada mais vergonhoso, nem mais pro^ 
prio a desvanecer o terror do crimi- 
noso do que a idéa , e quasi a certe- 
za que elle tem de se conservar annos, 
e annos sem receber a pena, que a lei 
impõe a seus delictos : he certo, que 
muitas vezes se praticariam verdadei- 
ros assassinios com os nomes de actos 
legaes de Justiça , sem a escrupulosa 
indagação de todos os factos , e cir- 
cumstancias próprias a esclarecer os 
Juizes 5 mas não he menos evidente, 



!)4 o ESTUDANTE 

que ha certos crimes , comprovados 
desde o primeiro insíanie com uma 
evidencia maíhematica, e que pre- 
cisariam para melhorar a nossa segu- 
rança de um prompío castigo . . . JVlas 
para que me occupo eU de cousas, que 
me não importam ! . . . E' mui bem 
perguntado; mas creio que para na- 
da , porque não ha cousa mais natu=- 
ral do que haver ladrões , aonde se 
ri a genle de ver furtar lenços no pi- 
no do dia , . . Moralidades a respeito 
de ladroes ? . . Bem bastava aquelles*, 
com que eu já estava aconías por ne^ 
cessidade!.. Metter-me com outros!. v 
Era expôr-me ás duas por irçs a re»- 
ceber por ahi alguma carta anoni^ 
ma com sangues , e punhaes , que 
me puzessem a chorar ^ como San^ 
cta Maria Magdalena arrependida , 
ou me obrigassem a deixar a vida do 
pobre Estudante em meio caminho 5 
apesar de não ter recebido a espor* 
tuia adiantada, especulação, que hoje 
está muito aportuguezada. Valha-me 
Nossa Senhora da Nazareth , que he 
a Mãi de Deos , e da gente preta , 
porque a não ser assim , andaria eu 



DE COIMBRA. 96 

branco, como cal da parede, e a fa- 
zer continuadamente o acto de con- 
If içào ...[*] 

Mas apezar de tudo quanto po- 
desse vir, e de todas as cartas, ou 
cartinhas, ou cartões, ou papelões 
dos ladrões e loleirões , foi Frei Bar- 
nabé , e o homem do casarão velho 
enforcado no Cáes do Tejo , e seus 
corréos condemnados todos a degre^ 
do , em quanto o protector de Maria , 
declarado por elles innocente , sahia 
solto. 

Pouco antes de morrer declarou 
o malvado do casarão velho, que o 
Caréo estava innocente do crime, que 
lhe imputavam ; que desse crime só 
elle réo era culpado, e que por isso lhe 
pedia perdão dos males que lhe fizera. 

[*^ O Auctor recebeu uma carta anóni- 
ma de ameaças ,• aonde se lhe leva a mal, 
que n'uma Obra intitulada — Relâmpago 
da Historia Portugueza — elle exponha, e 
commente com imparcialidade os factos da 
época , a que se refere ! . . Nisto se vão ven- 
do os effeilos de nosso progresso ! . , . 



í)è o ESTUDANTE 

Assim terminam m setisdinstheuS 
perseguidores: o crime subio ao ca- 
dafalso, Maria eslava em meus bra- 
ços recebendo o premio de sua irt- 
nocencia .... O que me restava a 
mim ? . . Tu o saberás Leitor . . . 



aup askwn aob oiSbiaq 



ÍJT-íl 



>i<{ 0<íaWi4^'i»íi iúiléiiSi eO Oi' 



BE COIMBRA. 97 



«MW«M»%lM»VV»^M(WM\t«\MMAaiVV«tm»>VVVIWVVMtlVl>VIIVVMM4«l«V%«^ 



CAPITULO XXXVII. 

CONCLUSÃO. 

nossa vida é uma verdadeira Ca- 
jmara-oplica de variadas scenas. As 
nossas relações sociaes são como som- 
brinhas ^ que successivamenle se nos 
apresentão , e se escondem no andar 
dos tempos. 

./ 

Quantos acontecimentos impre- 
vistos , quantos amigos , e inimigos 
não representaram , durante doze an- 
nos , no drama que teme s presencia- 
do ! . . . Pbucos são na verdade os ac- 
tores, que hoje nos restão; mas che^ 
gamos ao ponto mais critico ><le nossa 
tarefa. , . ,.^'.. .> 

Estou exonerado dos negócios pú- 
blicos , cercado de amigos fiéis ^ jua- 

TOMO III, 5 






9á o' ESTUDANTE 

cto da seduc tora Maria , e agora é 
que a mais severa lei do destino me 
sujeita a seus caprichos , sem res- 
peitar nem honras nem riquezas, nem 
meu valimento I 

Maria tinha soffrido muito. Ar- 
rancada do Collegio de Jozefina por 
Beu perseguidor ^em virtude da car- 
ta , que Rodolfo escrevera a António, 
eque FreiBarnabé tirara do Correio), 
se julgava este monstro senhor da pre- 
sa, quando ella se lhe evadio : bus- 
cava Maria a casa de sua Mestra pa- 
ra se refugiar, único asylo , que jul- 
gava poder achar em Paris , quando 
cheia de admiração se encontrou com 
a Mulher de António, a quem a 
tardança do Marido trouxera do 
Havre á Capital. Com este encontro, 
e com as declarações , que houveram 
de parte a parte , se resolveram as 
duas infelizes a procurar o Cônsul 
Portuguez , para lhe dizer o que se 
passava, quando elle lhes deu quasi 
a certeza da partida de António pa- 
ra a Terceira , por isso que pouco 
tempo antes elle fora visar seu Passa- 



DE COIMBRA. 99 

porte, com destino para aquelle porto: 
convencidas ellas então de que se ti- 
nham desencontrado , e quasi certas 
de se poderem todos facilmente reu- 
nir juncto de Rodolfo, fizeram dinhei- 
ro com os poucos trastes de vaJor, 
que possuiam , e não tardaram a se- 
guir viagem para a mesma ilha. 

Já as duas navegantes descobriam 
do meio do mar os rochedos da Ter- 
ceira, quando fôrão assaltadas por 
uma embarcação miguelista das do 
bloqueio , e conduzidas a Lisboa de- 
baixo de prisão, só alguns mezes de- 
pois, podéram sahindo das garras da es- 
cravidão recolher-se ao mesmo asylo , 
em que se achava a Mana de Rodol- 
fo, cuja morte veio em breve compli- 
car sua posição. Era fatal desamparo 
se teriam ellas visto , se por suas vir- 
tudes se não tivessem tornado dignas 
da maior estima ; mas quanto não 
era lastimosa a soríe de duas desven- 
turadas, recolhidas por esmola n'uma 
casa estranha , separadas de quanto 
no Mundo lhes era mais caro, não sa- 
bendo esta do carinhoso Pai , nem 



lOfO o ESTi/iyÀNTE 

do Amante; nâo tendo aquella a me- 
nor noticia de seu Marido ; nâo- pre- 
vendo a nibas como , nem q«ando os 
tornariam a ver . . . Neste conflicto 
he que resoaram pelas ruas , na boca 
dos pregoeiros., os tristes aconteci- 
mentos , e a- fatal Sentença , que 
aras ta va Rodolfo ao cadafalso. Aquel- 
les sons terriveis chegaram aos ouvi-^ 
dos de uma Filha desventurada » . . . 
Ah! porque modo os escutaria eila?!. 
Tu bem o sabes , Leitor. 

Perdidas as esj)ei?anças díe liber- 
tar seu Pâi, correu Maria pela Cida-i 
dade fora de si •, nmo. só pessoa lhe 
seguia de perto os passos ; era a mu- 
lher , que nos seus primeiros dias d© 
existência a alimentara a seus peitos, 
e que debalde per tendia chama-la á ra- 
zão. Maria, escutando só o excesso 
de sua dor , pertendia privar-se da 
vida, e te-lo»hiâ conseguido sem os 
soccorros de sua companheira fiel: 
mas esta já reão pode de cançaço se-^ 
gui-la de perto em vão lhe grita, 
e lhe supplica que suspenda seus in- 
tentos ; Maria está próxima a pre- 



DE COIMBRA. lOl 

cipiUi-se dos ArcQs d^s Aguas-Li- 
vres quando um homem a segura ! . . 
Esse homem fòva, um Anjq a nào ger 
o malvado Frei Barnabé , que sem 
piedade a opprime de injurias , e ar- 
roja a seus pés , sem vidí\ , a única 
))e6soa , com que a infeliz partilhara 
seus males. 

Taes eram as resumidas lembran- 
ças , que Maria conservava do passa- 
do. Cinco annos , não digo bem , mil 
oito centos e yinte e cincp infinitos 
dias de dissabores tinham decorrido 
desde a morte de seu Pai , até me 
encontrar ; cinco annos , em que 
Frei Barnabé por mil modos infernaes 
saciara sua raiva, eillimitada vingan- 
ça : a saudade , e a esperança , que 
a desgraçada concebera de me tornar 
a ver, foi talvez o único alimento 
de sua vida , e de seu espirito ; mas 
suas entranhas estavam táo raladas 
que a não ser pela força dos poucos 
annos, já nào resistiriam a stus ma- 
les : á vista de tão ameaçador estado 
redobravam meus cuidados , os de 
Eugenia y de Fleuri, do Caréo, da mi- 



103 o ESTUDANTE 

nha criada velha, e dos mais hábeis 
Facultativos .... Impotente Medici- 
na ! . . Tão respeitada quatro centos 
e sessenta annos antes de Jesus Chris- 
to! i . Tão sabiamente ensinada em Cós 
p0\o grande Hypocrates ; de que ser- 
ves tu á<;juelles , que a natureza con- 
demna á morte i t 

*í*'^A infeliz Maria já nâo tinha for- 
ças para se levantar da cama, e seu 
estado peorava a cada instante : um 
dia se despedio eila de todos, e cha- 
mando-me de parte, me disse, aper- 
tando-me a mao. — Bem conheço que 
a hora se aproxima, em que devo res- 
tituir á natureza a trisl« vida, que 
me emprestou . . . Não me custa dei- 
xar o Mundo , só me péza separar-me 
de ti . . . Eu te mostrara até que pon- 
to vão os carinhos de uma boa Mu- 
lher . . . Eu t'o mostrara . . , 

— Ah ! Não , Maria, (lhe tornei 
com fervor) não morres por certo: 
he impossivel que hajão forças capa- 
zes de separar-nos .... Seria Deus 
inhumano , se tal fizesse . . . 



DE COIMBRA, lOS 

— Modera a viveza de lua dor, Ah! 
Não blasfemes . . , Possáo ao menos 
correr em |>az os últimos instantes, 
que me reslào. . . Supporta com re- 
signação íísíe golpe da desventura ; 
c*iria é a vida , píira que façamos 
caso de nossos males. Se a superio- 
ridade da razão humana não servir a 
combater nossas penas, mais feliz 
mil vezes será do que nós aquelle in- 
secto , que alem volteia nos ares; 
porque desprésa mais o Mundo, do 
que nós coco bugalho, de quesahio... 

Dizendo isto , Maria chamou a 
Eugenia, beijou-a ternamente, e sem 
me deixar a mão, lhe disse, pegando 
n^umadas suas: — Querida A miga, não 
tenho riquezaá , que possa legar-te ; 
meus bens cahiram no poder de har- 
pias, que os devoraram . . . No meu 
paiz cumpre ao benemérito morrer de 
fome ] ] ! Só posso dispor de um cora- 
ção , de que sou senhora : não fallo 
do meu ; triste dadiva fora essa ; ou- 
tro mais caro me pertencia desde meus 
dias de innocente ventura... Ahi 
Eugenia ! Se tu soubesses , como o 



101 o ESTUDANTE 

tenho conservado ! ? . . Se avaliasses 
a saudade , com que o deixo ... Se 
pezasses os receios de o entregar, a 
quem o maltrate .. . Se advinhasses 
com que indignação minha sombra 
viria ao Mundo punir, quem desap- 
preciasse esse penhor tão caro; tu sa- 
berias, querida Amiga, tu saberias 
quanto lhe quero . . . A ti sovou con- 
fiar esse thesouro. Tu foste a minha 
companheira, a minha confidente, 
a minha consoladora, a minha verda- 
deira amiga ; sentiste meus males , 
como se fossem teus ; déste-me evi- 
dentes provas de virtude, e de bon- 
dade ; a li só confio o que t*into ido- 
latro . , . Aqui o (ens . . . Torna-o fe- 
hz . . . 

Maria unio a minha mão á mão 
<le Eugenia, que baixou os olhos arra- 
sados de lagrimas ... — Ah! Não de- 
lires (exclamei eu) . . . Volta de teu 
desvario . . , Não morrerás por certo. 
Maria , minha Maria , acredita as 
vozes de quem te adora ... 

Oh ! Meu Deos i suas mãos es- 



DE COIMBRA. lOÔ 

tavara frias, . Sua voz gelada. . . A infe- 
liz já náo respira ... A minha triste 
Maria . . . Táo nova ainda ... E ex- 
pirou ! ! 1 

Debalde quizéra, dizer-te , Lei- 
tor o mais , que por então succedeu; 
nem o sei , nem tivera forças para 
©contar... Hoje estão preenchidos os 
votos dainfeliz. Eugenia he a minha 
Esposa; sens desvelos, virtudes, eer>- 
caatos suavisâo minha saudade. Se 
não fossem as Lembranças de Maria, 
nada podéra desejar para ser feliz. 

Nós estamos com Fleiíri a parti» 
para França : levamos com nosco-, 
não como servos; mas como amigos 
fieis , o honrado Caréo , e a minha 
criada velha : Farrusco y posto que 
muito rabugento , também nos acom- 
panha: vamos viver socegados no meio 
dos immensos arvoredos , que herdci- 
mos. de Mr. de L*** C*** Nada 
convém tanto , a qu-em sahe do tro- 
pel do Mundo, como a verdura, e 
a solidão dos campos ... 



106 O ESTUDANTE 

A Deus , Portugal I O Ceu de 
piedade lance sobre ti seus olhos; sua 
benéfica , e previdente mâo venha 
unir os Portuguezes , que estrangeira 
politica , e a ambição de alguns des- 
une , para torna-los fracos , e hu- 
mildes. 

Miguelistas, Setembristas, Cha- 
morros , homens de todas as cores l 
Tremei das calamidades , que vos 
aguardão ; errado he o caminho , que 
tendes seguido : no tropel das paixões 
não se fazem leis com madureza : no 
meio de successivas crizes politicas 
não se firma o credito, e confiança 
publica , e commercial : entre senti- 
mentos do mais refinado egoismo dos 
homens, que quando mais tem, mais 
desejâo ter , não se animará por cer- 
to vossa industria. 

Nós temos inimigos a combater 
fora, e dentro dopaiz; as armas com 
que descem a campo são terriveis; 
mas as nossas podem ser mais fortes 
pela união. Sim, prezados Compatrio- 
tas , devemos unir-nos, ou tremer do 



DE COIMBRA. 107 

terremoto, que abalar o solo da Pá- 
tria , porque sem distinccjão de par- 
tidos nos esmagará a todos debaixo 
de suas ruínas. 



*/v\yi^iv¥VV¥%it/VKX*iv%nivv^v»»i%'¥v\iy^mttMi\yii*%/fM%»nMnn»Mtit^nnMMM/^ 



INDEX. 



CAPITULO XXIX. Mais duas 

palavras .....,„.. pag. b 
CAP. XXX. Cmitinuaçâo .... 18 
CAP. XXXÍ. Agora governo eu. Hl 
CAP. y.XXlI. Estratégia .... 4 1 
CAP.' XXXIII. Visita inespera- 
da 57 

CAP. XXXIV. Grande desco- 
berta . ^ 64 

CAP. XXXV. E' ella-, mas que 

importa . .75 

CAP. XXXVI. Premio^ e cas- 
tigo 89 

CAP. XXX VIL Conclusão . . 97 



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CAROS OR SliPS FROM THÍS POCKET 



UNIVERSITY O? TORONTO LÍERARY 



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